Havana, 03/02/2006 – Secas e outras catástrofes climáticas acentuam a pobreza e o déficit alimentar na população mais vulnerável da América Latina e do Caribe, região que poderá necessitar de maior cooperação internacional este ano por essa razão. "Quando há um desastre natural em países onde a situação nutricional das crianças é difícil, as conseqüências são dramáticas", disse Myrta Kaulard, representante em Cuba do Programa Mundial de Alimentos (PMA), uma agência especializada da Organização das Nações Unidas. Kaulard disse que o PMA, principal fonte de ajuda multilateral no campo da assistência alimentar, acompanha com preocupação a seca que no ano passado teve um impacto particular em Cuba e outros países da bacia do Caribe. "Sabemos que os furacões não foram suficientes para solucionar o déficit de água. Também estamos nos preparando para a temporada de furacões de 2006", afirmou.
Kaulard mencionou Bolívia, Guatemala e Haiti entre os países com pior situação em matéria de desnutrição infantil, por razões que vão desde má distribuição da renda e desastres climáticos até conflitos internos, como no caso haitiano. Nos últimos dias, boa parte do território boliviano sofre as conseqüências de intensas e persistentes chuvas que transbordaram rios e causaram inundações, com graves perdas em vidas humanas e materiais. Milhares de vítimas viram desaparecerem suas casas, seus rebanhos e suas colheitas sob as águas.
A Bolívia está entre as nações mais pobres da América Latina, com 83% de seus 8,3 milhões de habitantes não conseguindo satisfazer suas necessidades básicas, e com uma mortalidade infantil de 75 em cada mil nascidos vivos. O PMA estima que a desnutrição crônica nas áreas rurais mais pobres da Bolívia chega a 50%. A organização alertou que meninos e meninas desnutridos são mais propensos à diarréia e outras doenças infecciosas. Além disso, estão incapacitados para se desenvolverem mental ou fisicamente em um momento crucial de crescimento, acrescentam documentos dessa agência da ONU.
O PMA concentra seus programas de ajuda na região em setores que sofrem de fome por causa de desastres naturais, mudanças econômicas negativas, pobreza e insegurança alimentar. "No contexto das Metas do Milênio, nosso objetivo principal é erradicar a desnutrição infantil antes de 2015", disse Kaulard. A ajuda inclui programas de alimentação pré-escolar e escolar e assistência às grávidas e durante o período de amamentação, a crianças em situação de risco até 2 anos de idade e a grupos vulneráveis como os desnutridos, anciãos e incapacitados.
Em setembro de 2000, chefes de Estado e de governo de 189 países subscreveram os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, um compromisso para impulsionar o desenvolvimento, erradicar a pobreza, promover a dignidade humana e a igualdade, bem como alcançar a paz e a sustentabilidade ambiental. Os oito objetivos e as 18 metas implicam, entre outros compromissos, reduzir até 2015 a população que vive com menos de um dólar por dia e a proporção de pessoas que passam fome no mundo, em relação aos números de 1990.
Em uma reunião esta semana com um grupo de jornalistas, Kaulard disse que o PMA procura criar uma rede internacional, com participação de todos os países que desejarem, para compartilhar experiências em políticas de alimentação. "Em 2004 e 2005, foram organizadas algumas conferências com chefes de Estado da região que confirmaram o apoio a esta iniciativa e sua vontade de trabalhar pela erradicação da desnutrição em seus países, e pediram ao PMA que seja a agência da ONU a facilitar o êxito desse objetivo", afirmou. A especialista assegurou que Cuba, com um sistema mais "eqüitativo" de distribuição dos recursos, é o único país da América Latina e do Caribe que praticamente eliminou a desnutrição infantil severa e mantém um índice de subnutrição de apenas 2% em menores de 5 anos.
O PMA colabora com Cuba desde 1963, quando prestou assistências ás vítimas do furacão Flora. Desde então, executou no país cinco projetos de desenvolvimento e 14 operações de emergência diante de desastres causados por furacões ou seca a um custo total superior a US$ 234 milhões. Por sua vez, Cuba entrega ao PMA desde 1996 uma doação anual média de 2.500 toneladas de açúcar não refinado, que a agência destina aos seus projetos na África, Ásia e América Latina. (IPS/Envolverde)

