Londres, 01/02/2006 – China e Índia se perfilam como potências produtoras de alimentos orgânicos, cujo auge permitiria que milhões de camponeses do sul em desenvolvimento saíssem da pobreza, segundo o Fundo Internacional de Desenvolvimento da Agricultura (FIDA), uma agência da Organização das Nações Unidas. Na medida em que os agricultores da União Européia (UE) se voltam para os alimentos orgânicos por seu elevado valor agregado, os dois grandes países em desenvolvimento, junto com outros da América Latina, começam a se colocar em dia com esta tendência. Mas pode ser muito cedo para temer uma guerra comercial agrícola em torno da agricultura orgânica, modalidade que prescinde de produtos químicos como fertilizantes e pesticidas e que implica uma volta a métodos naturais e tradicionais de cultivo.
"China e Índia têm um enorme potencial de cultivo, mas para o mercado interno", disse à IPS Mattia Prayer-Galletti, gerente do programa do FIDA para a Ásia . Esta agência da ONU dedicada à luta contra a pobreza rural no Sul, procura "aumentar todo o possível espaço para os cultivos orgânicos", disse Prayer-Galletti. Devido à crescente demanda de alimentos orgânicos nos mercados do Norte, esses produtos, habitualmente vendidos a um preço entre 20% e 40% mais caros que os demais alimentos, representam uma nova oportunidade para pequenos agricultores, pois a falta de recursos para comprar fertilizantes e pesticidas agora pode se tornar uma vantagem.
Entretanto, as dificuldades surgem com relação à certificação e comercialização desses produtos, inclusive dentro dos países em desenvolvimento. Uma maneira de promover os cultivos orgânicos é "integrar cuidadosamente o setor privado para fornecer serviços de técnicas de mercado", segundo um relatório do FIDA sobre a situação na Ásia. "Os cultivos orgânicos se chocam com barreiras tecnológicas, intelectuais e culturais", disse Prayer-Galletti. "Por um lado, atua a biotecnologia, e, por outro, os governos procuram aumentar a produção sem atender o interesse dos pequenos agricultores. Muitas comunidades agrícolas estão produzindo alimentos orgânicos sem estarem conscientes de que o são", acrescentou o especialista.
Os cultivos orgânicos também poderiam criar novos trabalhos em áreas rurais e ajudar a reduzir a migração urbana, afirmou o FIDA. Essa prática se torna mais organizada na Índia e na China, "que juntas abrigam mais da metade dos lares camponeses do mundo", segundo o FIDA. À parte os agricultores pequenos, que não podem enfrentar economicamente os métodos intensivos de cultivo, os que têm sentido comercial vêem novas oportunidades de mercado nos produtos orgânicos certificados. O valor das exportações chinesas do setor cresceu de menos de US$ 1 milhão em meados dos anos 90 para US$ 142 milhões em 2003, com estimativas para 2004 de quase US$ 200 milhões e mais de mil companhias e estabelecimentos agrícolas certificados, informou o FIDA.
"Na China, os cultivos orgânicos oferecem potencial para uma sustentável redução da pobreza", afirmou o gerente do programa do FIDA para esse país, Thomas Rath. "A agência apoiará programas-piloto na China para refinar seu enfoque com vistas a uma maior ampliação no futuro". Na Índia também houve um notável crescimento, mas principalmente nos mercados internos, com cerca de 2,5 milhões de hectares agora sob certificação orgânica e 332 novos certificados emitidos em 2004. Atualmente, mais de 26 milhões de hectares de terras cultivadas produzem alimentos orgânicos em todo o mundo, porém calcula-se que representam apenas entre 1% e 2% de toda a produção agrícola. Trata-se de um negócio em crescimento.
As vendas orgânicas conseguiram um incremento anual de dois dígitos por mais de uma década, e em vários países europeus os estabelecimentos orgânicos se aproximam, ou excedem os 10% do total de terra cultivada, disse o FIDA. No ano passado, o valor estimado do mercado dos produtos orgânicos em todo o mundo rondava os US$ 30 bilhões. A maior parte foi comercializada na América do Norte e Europa. Impulsionar comunidades agrícolas será vital para desenvolver o mercado de produtos orgânicos, afirmaram os especialistas da agência da ONU. Isto ajudará a reduzir o custo do certificado e melhorará as perspectivas das técnicas de mercado, acrescentaram. O FIDA realizou em 2001 e 2002 um estudo semelhante em seis países da América Latina (Argentina, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Guatemala e México). Agora, está apoiando novos programas para a população rural nas ilhas do Pacífico, e espera ampliar estas atividades. (IPS/Envolverde)

