Gonaives, Haiti, 09/02/2006 – O Haiti aguarda ansioso o resultado das eleições gerais, realizadas com uma maciça participação que desafiou a violência, o caos administrativo e a falta de recursos. A população demonstrou que, apesar de tudo, não perdeu a esperança. O Conselho Eleitoral Provisório (CEP) previa terminar a contagem dos votos na tarde desta quarta-feira, para anunciar o primeiro presidente eleito depois que Jean Bertrand Aristide foi deposto em fevereiro de 2004. Entre 75% e 80% dos 3,5 milhões de eleitores aptos a votar foram às urnas na terça-feira, segundo o CEP, em uma jornada caracterizada pela desordem e maculada pela morte de quatro pessoas em incidentes.
O ex-presidente René Preval (1996-2001) é o favorito entre os 33 candidatos à Presidência, com 40% das intenções de voto. Seus principais adversários são o também ex-presidente Leslie Manigat, eleito em 1988 e deposto nesse mesmo ano por um golpe de Estado, e o empresário branco Charles Baker, ambos representantes da elite opositora a Aristide. Na terça-feira, na escuridão que antecedeu o amanhecer em Gonaives, um lugar com pouca eletricidade, as poeirentas ruas estavam agitadas pelo movimento de uma população decidida a votar.
Nos centros de votação instalados nos colégios do assentamento Raboteau, os funcionários eleitorais se preparavam para ter tudo pronto quando a multidão chegasse. Alguns ajeitavam as cédulas com uma mão enquanto seguravam uma vela com a outra. Após dois anos de administração de um governo interino que sucedeu a Aristide, e depois que as eleições foram adiadas por quatro vezes, os haitianos foram às urnas com grande expectativa. Há exatamente dois anos, grupos armados opositores a Aristide ingressaram na delegacia de polícia de Raboteau, incendiaram o prédio, mataram vários policiais e, assim, iniciaram um movimento insurgente que terminou com a saída do presidente três semanas depois. Aristide foi levado á força por soldados dos Estados Unidos até um avião que o conduziu à República Centro-Africana.
Um ano depois, grande parte de Gonaives foi destruída por inundações que mataram mais de duas mil pessoas. Os últimos dois anos do Haiti se caracterizaram por uma grande deterioração da economia, que já era a mais pobre da América, e por um aumento da violência e da instabilidade política. Entretanto, muitos haitianos mantêm a esperança. Barret Cajuste, de 49 anos, acordou na terça-feira às 4h30 para ir ao local de votação, a quatro horas de caminhada desde sua casa. Teve de esperar mais uma hora na fila antes da abertura das urnas.
"Estou aqui porque quero mudar meu país. Nunca estive empregado em toda minha vida, porque neste país não tem trabalho. É isso que quero mudar. Tenho três filhos e a escola é cara. Deveria haver escola para todos financiada pelo Estado", afirmou. A esperança e a determinação de muitos haitianos ficou evidente quando tiveram de vencer uma série de dificuldades para poderem votar. Os títulos de eleitor, feitos por uma firma mexicana contratada pela Organização dos Estados Americanos, chegaram com atraso. Para pegá-los, muitos eleitores tiveram de caminhar longas distâncias vários dias, inclusive sem saber se já estavam prontos.
Na tarde da segunda-feira, véspera da votação, ainda havia dezenas de eleitores esperando na fila para receber aos títulos. Mas os problemas não acabaram aí. Alguns descobriram que teriam de votar a vários quilômetros de onde moram. Outros não sabiam com averiguar onde deveriam votar e para muitos foram destinados locais fora de seus distritos, por isso não poderiam votar em seus próprios representantes para a Assembléia Nacional. Um candidato à Câmara de Deputados denunciou que não pôde votar em si próprio, e funcionários eleitorais informaram que a vários eleitores do sul de Gonaives foram indicadas mesas de votação a cerca de 27 quilômetros de suas casas.
Entretanto, observadores internacionais disseram que estes problemas logísticos não influíram no resultado das eleições. Embora não tenha sido constatada violência organizada, houve quatro mortes e vários feridos em incidentes ligados à votação. Duas pessoas morreram atropeladas por avalanches fora de centros de votação em Porto Príncipe. Mais tarde, a polícia atirou para o ar para conter a multidão. Um policial matou um eleitor, e a multidão reagiu, matando o policial a machadadas.
Na capital houve muitos problemas de organização. Os centros de votação demoraram várias horas para iniciar a atividade, e o do bairro Cité Soleil, um dos mais pobres e conflitivos do país e que deveria receber vários milhares de eleitores, nunca abriram suas portas, o que desencadeou a fúria dos moradores locais. Centenas de pessoas foram às ruas protestar, entoando cânticos em favor de Preval, o candidato favorito dos bairros mais pobres da capital. Pelo meio do dia, o CEP fez uma entrevista coletiva para pedir calma e anunciar que os eleitores de Cité Soleil poderiam votar em outros centros da cidade. Horas mais tarde, observadores informaram que a maioria dos 60 mil eleitores registrados em Cité Solei já haviam votado, e, pouco a pouco, as manifestações foram se diluindo. O porta-voz da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah, sigla em francês), Damian Onses-Cardona, se mostrou satisfeito pela alta participação nas eleições. (IPS/Envolverde)

