Iraque: Cresce a delinqüência

Bagdá, 21/02/2006 – Os iraquianos vivem entre os excessos da ocupação norte-americana, esquadrões da morte, disparos e ataques terroristas. Mas isso não é tudo. Aprenderam também a viver com o crime, que freqüentemente entra em suas casas sem nenhum controle. Todo mundo aqui concorda que os últimos problemas de delinqüência no Iraque começaram com a anistia geral para todos os presos declarada em outubro de 2002 pelo então presidente Saddam Hussein (1979-2003). Também se acredita que a onda de crimes atingiu seu ponto mais alto em abril de 2003, com a queda de seu regime. Devido à vulnerabilidade de suas fronteiras e o interesse das forças de segurança voltado para a guerra, malfeitores de todo tipo fincam raízes no Iraque. Hoje os delinqüentes são considerados um problema tão sério quanto o terrorismo e a resistência intransigente à ocupação militar.

"Atualmente, há muitos tipos de crimes no Iraque: roubos, assassinatos, seqüestros, vinganças, violações e narcotráfico", disse à IPS um oficial da polícia iraquiana. "Há novos delitos que não conhecíamos antes, que estão matando muitos inocentes em nome da resistência. Como os ataques cometidos muitas vezes com carro-bomba perto de escolas, mercados e outros lugares". Quase três anos depois de iniciada a ocupação, existem poucos lugares considerados a salvo do crime. Em algumas partes de Bagdá as pessoas são freqüentemente atacadas em suas casas. Abdullah Sabah, de 20 anos, desempregado, foi roubado em sua casa na capital em novembro passado. "Ameaçaram minha família com armas, roubaram nosso dinheiro e muitas outras coisas", contou à IPS.

Estes tipos de registros se tornaram onipresentes na vida cotidiana. Sabah culpa as Forças Multinacionais do Iraque. O fracasso dessas forças estrangeiras em garantir a segurança e em cumprir o direito internacional deixou muitos iraquianos sumidos na amargura a frustração. "Quando ocuparam o Iraque ajudaram os ladrões a roubar bancos", disse Sabah. "As forças de ocupação os ajudaram porque os ladrões roubavam na frente dos soldados e estes não faziam nada. Quando pediram que detivessem os ladrões, a resposta das forças de ocupação foi: somos soldados, não policiais, esse não é nosso trabalho". Foi então que começou o problema. O dinheiro obtido com estes crimes acabou se perdendo em jogos de azar e no consumo de bebidas alcoólicas e drogas. Após ficar sem dinheiro, os marginais começaram a lutar entre si para conseguir dinheiro e poder.

Alguns bandos começaram a atacar a classe profissional. "Outro novo tipo de crime é o assassinato de eruditos, pilotos, médicos e professores iraquianos", disse o oficial da polícia iraquiana. "Sabem muito bem o que fazem. É crime organizado, pode-se dizer que é uma máfia, e querem destruir o Iraque com estes crimes". Um destes bandos seqüestrou Hassan, de 14 anos. "Me telefonaram e pediram resgate de US$ 100 mil", contou à IPS Thaer, seu pai, um vendedor de automóveis. Os pedidos de resgates altos são típicos nos seqüestros. Freqüentemente começam com quantias elevadas, entre US$ 20 mil e US$ 100 mil. Depois, vão diminuindo, às vezes para poucas centenas de dólares.

Os iraquianos que não têm dinheiro procuram fazer um acordo com o seqüestrador ou chamam a polícia. Thaer fez as duas coisas. "Depois de dois dias, comecei a negociar com eles para reduzir o resgate. Ao mesmo tempo, chamei a polícia, que nessa época ainda era mal estruturada. Os policiais usaram meus automóveis para seguir o bando, que libertou meu filho porque um dos seqüestradores foi preso. Mas nessa operação um policial foi ferido e meu primo acabou morto", contou.

Tais delitos eram desconhecidos no Iraque de Saddam Hussein. Antes da guerra, os únicos seqüestros com que os iraquianos se preocupavam eram os da polícia secreta do regime. Os cidadãos sabiam que, se não desafiassem seu mandato político, podiam esperar uma relativa segurança. "Vivíamos neste país antes da guerra e havia segurança", disse Thaer. "Nada mudou, exceto a ocupação que é a única novidade. Isso significa que a ocupação tem uma grande responsabilidade nos delitos cometidos no Iraque".

O tráfico de drogas também aumentou depois da guerra, disse Salem, um taxista de 25 anos. "O Iraque era um país limpo antes da ocupação. Sob o governo de Saddam, se alguém fosse pego com drogas era condenado à morte. Depois da guerra, as drogas se transformaram em um grande problema". O narcotráfico raramente é discutido em público. "Como motorista de táxi, vejo muitas pessoas usando drogas no meu carro. Fico triste por eles, porque a maioria é jovem. É fácil para qualquer um contrabandear drogas, porque as fronteiras estão abertas desde a guerra", disse Salem.

Thaer acredita que, mais além de combater o crime, "se o governo oferecesse empregos aos iraquianos reduziria cada vez mais os crimes". Por sua vez, Salem disse que se deterá o crime somente quando a ocupação acabar e os iraquianos cuidarem de si mesmos. "Me sinto triste por meu país e desejo que o governo construa um sistema de segurança bom e forte o mais rápido possível. Não há esperança com as forças de ocupação. Elas trabalham somente por sua segurança, não se importam com o Iraque", afirmou. (IPS/Envolverde)

Isam Rashid

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