Meio Ambiente: Corrida para melhorar a atmosfera olímpica

Pequim, 14/02/2006 – Faltando apenas dois anos para o início das Olimpíadas de Pequim, a capital chinesa luta para oferecer os prometidos "jogos verdes" e para atender as demandas dos habitantes prósperos, em constante aumento, e seu modo de vida consumista. Há três anos, esta cidade revelou seu plano para ser a sede dos Jogos Olímpicos de 2008, com suas autoridades comprometidas com a realização dos melhores da história. Prometeram um acontecimento que teria lugar em instalações espetaculares, erguidas ao longo de uma cidade verde e acessível por um novo sistema de transporte público. Também asseguraram reduzir a notória poluição de Pequim e seguir os padrões ambientais médios em matéria de qualidade do ar estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde.

De acordo com o prometido, em 2008 a capital teria céu azul, ou estaria livre de poluição em 80% do ano. Mas, isso é o prometido. O objetivo de Pequim de se converter em uma cidade despoluída está se desfazendo pelo rápido crescimento econômico, que está superando numerosas medidas implantadas para melhorar a qualidade do ar que se respira na cidade. De fato, qualquer argumento que apóie o conceito de que esta cidade é "amigável com o meio ambiente" sofreu um golpe após outro. Em 2004, Pequim foi considerada a quarta melhor cidade chinesa para se viver, mas no ano passado caiu para 15ª, segundo pesquisa anual feita pelo Horizon Group, empresa de pesquisa com sede na capital chinesa, que avaliou as condições do tráfego, o ambiente e a qualidade do ar, entre outros critérios para definir a qualidade de vida.

Em um informe divulgado em setembro pela Agência Européia Satélite, Pequim e seus arredores do noroeste da China foram citados como a zona com maior nível do mundo de dióxido de nitrogênio, um dos principais gases que contribuem para a formação de smog (mistura de fumaça e neblina) e tem origem nas emissões das usinas elétricas, da indústria pesada e dos veículos. Segundo o estudo, a quantidade deste gás, que pode causar problemas pulmonares fatais, aumentou cerca de 50% no ar da China desde 1996, e a tendência continua aumentando.

No início de novembro, e na medida em que a poluição do ar aumentava, a Agência de Proteção Ambiental de Pequim fez uma advertência incomum aos moradores, pedindo que permanecessem em suas casas. As partículas inaláveis suspensas no ar haviam atingido 300 perigosos microgramas por metro cúbico, isto é, as atividades ao ar livre haviam se tornado perigosas para a saúde humana. Ocorre que novembro marca o começo da temporada da queima de carvão, quando a poluição chega ao seu máximo na capital. Conforme as usinas de aquecimento alimentadas a carvão eram acesas para o inverno, liberavam um composto tóxico que se instalara em suas tubulações inativas.

Porém, a tendência às más notícias ambientais também não deu sinais de diminuir nos meses seguintes. Em janeiro, os habitantes de Pequim tiveram apenas 11 dias de céu claro, o menor tempo em relação aos últimos seis meses, segundo a Agência de Proteção Ambiental. Há seis anos Pequim lançou sua campanha "Defender o céu azul". Alarmados desde que, em 1998, a cidade tinha apenas cem dias de céu azul, as autoridades locais empregaram várias estratégias para melhorar o péssimo estado da qualidade do ar da cidade. Desde 2000, mais de mil indústrias pesadas e usinas de geração de energia foram realocadas nos arredores da cidade.

O combustível contendo chumbo foi proibido e paulatinamente retirado do mercado. A dependência da capital em relação ao carvão para obter energia diminuiu, pela introdução gradual do gás natural para uso doméstico e industrial, bem como o carvão processado com emissões reduzidas de sulfuro. No ano passado, cerca de quatro mil ônibus velhos e contaminantes e 30 mil táxis foram retirados de serviço e substituídos por veículos que cumpriam os novos – e mais rígidos – padrões de controle da poluição. No entanto, apesar de todos os esforços para reduzir a poluição industrial, o ar da cidade continua sujo. Um culpado identificado pelos meios de comunicação e ambientalistas é a grande quantidade de obras civis existentes em Pequim.

Na pressa em transformar-se em uma cidade moderna e cosmopolita, Pequim demoliu inúmeras moradias antigas e desencadeou um auge sem precedentes da construção civil. Anualmente, a cidade vê nascer mais de cem milhões de metros quadrados de construções. Em seu desejo de limpar o ar antes das Olimpíadas, o governo local declarou que toda construção deve terminar até o final de 2006, o que gerou uma pressão adicional para se trabalhar contra o relógio. Os especialistas estimam que a poeira gerada pela construção incessante responde por 20% a 30% das partículas suspensas no ar.

Uma proporção maior, em torno dos 40%, é gerada pelo tráfego pesado e pelo crescente número de automóveis. Embora as novas regulamentações sobre as emissões de gases pelos veículos – que devem ser implementadas completamente até 2010 – estejam de acordo com os padrões da União Européia, a redução por veículo não pode acompanhar o excepcional crescimento da frota automotiva. Uma política de promoção do crescimento da indústria automobilística na China, que já tem 15 anos, estimulou a compra de automóveis a níveis assombrosos. Espera-se que as rodovias chinesas estejam saturadas com 130 milhões de veículos em 2020, quando o país terá ultrapassado os Estados Unidos em quantidade de automóveis.

Este fenômeno é mais visível na capital. O número de veículos nas ruas de Pequim aumentou em quase mil por cento ao dia no ano passado, para um total de aproximadamente 2,6 milhões, informou em janeiro à imprensa Liu Xiaoming, membro do comitê governamental de Transporte de Pequim. Além disso, cerca de 40% dos lares desta cidade, de 14 milhões de habitantes, esperam comprar um carro nos próximos cinco anos, disseram especialistas do Centro Chinês para Pesquisa Econômica da Universidade de Pequim. As conseqüências ambientais de tão rápido crescimento são estudadas pelo governo. Se os projetados aumentos na posse de automóveis em Pequim (e na China, em geral) se concretizarem, o impacto ambiental será sentido são apenas nas ruas congestionadas, como também nas emissões globais de dióxido de carbono.

As autoridades de Pequim são muito conscientes de que desbaratar as crescentes aspirações consumistas dos cidadãos de classe média supõe o risco de agitação social. Em um discurso feito em janeiro, o prefeito Wang Qishan admitiu que não estava sendo fácil para Pequim equilibrar o crescimento econômico com a proteção ambiental. "Existem sérios problemas para balancear a necessidade de desenvolvimento econômico e social, por um lado, e os assuntos de conservação de recursos e proteção ambiental, por outro", disse Wang. Mais do que limitar a quantidade de carros comprados, o governo agora busca melhorar o transporte público da capital e dar incentivos em matéria de impostos para os consumidores que comprarem veículos com motores pequenos.

Por sua vez, Liu Xiaoming defendeu o modelo de desenvolvimento da capital, dizendo que o aumento na posse de automóveis e o tráfego congestionado são subproduto de rápido crescimento econômico. "As grandes cidades de todo o mundo passaram mais de uma década ou duas tentando solucionar este problema", afirmou Xiaoming à imprensa no final de janeiro. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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