Jerusalém, 21/02/2006 – Israel teme que a decisão da Rússia de receber no próximo mês líderes do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), agora encarregado do governo palestino, legitime seu status político perante a comunidade internacional, ignorando sua natureza terrorista. O movimento, que venceu as eleições da Autoridade Nacional Palestina (ANP) em janeiro, tem por objetivo em sua carta de fundação a destruição de Israel, e é considerado por vários governos como uma organização terrorista que patrocina atentados suicidas contra israelenses. Israel cortou oficialmente, no fim de semana passado, todo tipo de vínculo com o Hamas.
A intervenção da Rússia poderia ir contra a postura dos demais membros do Quarteto, instância de mediação internacional no conflito israelense-palestino também integrada pela Organização das Nações Unidas, União Européia e Estados Unidos. Depois do triunfo do Hamas, os representantes desse grupo exortaram o movimento a renunciar publicamente às armas e advertiram que, em caso contrário, suspenderiam a ajuda internacional ao desenvolvimento destinada à ANP. "Teremos essa reunião para buscar um acordo no Oriente Médio. É necessária para se ter um panorama completo" da situação, disse o chanceler da Rússia, Sergey Lavrov, depois das conversações do Quarteto em janeiro.
A Rússia, ao contrário dos EUA e da UE, nunca considerou o Hamas uma organização terrorista, embora acredite que deveria abandonar as armas e tomar o caminho mais moderado do partido secular Al Fatah, fundado pelo falecido líder palestino Yasser Arafat. A Turquia, que tem boas relações tanto com Israel quanto com a ANP, está disposta a intervir como mediadora, enquanto a França também mostra interesse em dialogar com o Hamas. O Centro Ariel de Pesquisa Política, com sede em Telavive, afirmou que o movimento russo contradiz as negociações sobre o chamado "mapa da paz" rumo a uma conciliação entre israelenses e palestinos, e conduz a um caminho perigoso para Israel e o Ocidente. "Promover o Hamas é desestimular a paz", disse à IPS o analista Yoash Tsiddon-Chatto, membro do Centro.
O pior cenário diante desta divisão no Quarteto poderia ser semelhante ao que derivou do Acordo de Munique, em 1939, pelo qual o Ocidente permitiu à Alemanha nazista ficar com partes da antiga Tchecoslováquia, o que posteriormente precipitou a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), afirmou Tsiddon-Chatto. O analista disse que o objetivo da Rússia em sua aproximação ao Hamas é, na realidade, por fim ao domínio político dos Estados Unidos no Oriente Médio. "Querem recuperar a influência. Uma união entre Rússia e Oriente Médio poderia ditar as condições para as exportações mundiais de petróleo, algo que não seria menos daninho do que uma guerra", ressaltou Tsiddon-Chatto.
O especialista recordou o boicote petrolífero árabe contra o Ocidente e Israel em 1973, que fez disparar os preços internacionais do petróleo e afetou severamente as economias industrializadas. Além disso, destacou que o presidente Vladimir Putin já assinou acordos sobre armas com a Síria, vendeu nova tecnologia ao Irã e anunciou estar disposto a exportar sistemas informatizados militares para a ANP. Mas a opinião não poderia ser mais diferente em Gaza, onde o jornalista Ghazi Hamed edita o jornal Al Risala, do Hamas. "Queremos conversar com todos, inclusive com os Estados Unidos. Eles deveriam negociar com o Hamas, pois é um movimento eleito democraticamente e agora é governo", disse à IPS.
Hamed afirmou que o movimento quer explicar ao mundo quais são seus objetivos. Além disso, disse esperar que a Rússia, "ignorada durante o processo de paz", levante sua reputação no Oriente Médio e consolide sua influência. Por sua vez, o especialista em política Saleh Abdeljawad, da Universidade Birzeit, na cidade de Ramala na Cisjordânia, acredita que isolar o Hamas seria perigoso a longo prazo, pois estimularia ações armadas do movimento. "Quanto mais rápido o Hamas ingressar na ordem internacional, mais estará disposto a fazer concessões", afirmou.
Abdeljawad comparou o Hamas à Organização para a Libertação da Palestina (OLP) de duas décadas atrás, liderada por Arafat. A OLP era sempre propensa a "erguer a bandeira da luta armada", mas depois moderou sua posição epor isso foi aceita como a voz dos palestinos perante a comunidade internacional. O analista afirmou que Moscou apenas tenta convencer o Hamas a adotar também uma atitude mais flexível em relação a Israel. (IPS/Envolverde)

