Cairo, 14/02/2006 – O boicote no mundo islâmico aos produtos da Dinamarca, imposto depois da publicação por um jornal desse país de caricaturas do profeta Maomé, tem enorme sucesso, segundo fontes de mercado. Boicotes anteriores contra produtos procedentes dos Estados Unidos, defendidos no período anterior à invasão liderada por Washington ao Iraque em março de 2003, não tiveram resultado. "Como o motivo é a religião, o atual tem muito mais força do que boicotes populares anteriores", disse à IPS Khaled Sewelam, analista econômico do Cairo. "As pessoas estão levando essa decisão a sério", afirmou.
"Isto não tem a ver com política, mas com religião", disse Marwa al-Ashkar, de 30 anos, morador do Cairo, que deixou de comprar produtos dinamarqueses, entre eles a pasta de chocolate Nutella, sua favorita. "Pode-se criticar qualquer coisa, mas não se pode insultar as crenças de outros", afirmou. A disputa começou em setembro, quando 12 caricaturas de Maomé foram publicadas pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten. Uma delas o retratava usando um turbante em forma de bomba. O jornal havia pedido o trabalho aos caturnistas depois que um escritor dinamarquês ter se queixado da falta de ilustradores para um livro seu sobre a vida do profeta. Todos, segundo o autor, se negaram a atender o pedido por medo de represálias.
O Jyllands-Posten assegurou ter tomado essa decisão editorial como mecanismo de defesa da "democracia secular e da liberdade de expressão". Doze cartunistas atenderam ao chamado. Os desenhos foram republicados em janeiro por jornais da Alemanha, Áustria, Espanha, França, Itália, Suíça e outros países europeus, cujos editores, ao fazê-lo, também citaram um compromisso com a liberdade de imprensa. Isto provocou uma onda de manifestações violentas no mundo árabe e muçulmano, incluindo ataques contra representações diplomáticas européias na Síria e no Líbano.
As reações oficiais foram variadas. A Líbia fechou sua embaixada na Dinamarca em janeiro, enquanto a Arábia Saudita retirou seu embaixador de Copenhague. Desde então, a Dinamarca fechou seus escritórios diplomáticos na Indonésia, no Irã e na Síria. O Egito, um peso pesado regional, "seguiu uma estratégia de diplomacia tranqüila", disse à IPS Muammad Shaaban, conselheiro do ministro das Relações Exteriores. "Cairo fez calmos apelos para que Copenhague se desculpasse desde que os desenhos foram publicados pela primeira vez", afirmou.
Shaaban disse que o chanceler Ahmed Aboul-Gheit escreveu cartas de protesto a várias organizações multilaterais em outubro, incluindo a Organização das Nações Unidas. Aboul-Gheit também escreveu ao primeiro-ministro dinamarquês, Anderes Fogh Rasmussen, que se negou a manter uma reunião sobre o assunto. "O governo da Dinamarca manteve-se firme em não apresentar uma desculpa oficial", disse Shaaban. Entretanto. onde a diplomacia fracassou, um popular boicote aosprodutos dinamarqueses demonstra ser forte. Surgida primeiro na Arábia Saudita, no final de janeiro, a campanha para o boicote se espalhou rapidamente por vários outros países muçulmanos, incluindo o Egito.
"Estamos enviando a todas as pessoas que conhecemos emails contendo nomes de marcas dinamarquesas", disse Al-Ashkar. "E se outros jornais europeus publicarem (material considerado uma afronta para o Islã) estaremos prontos para boicotar cada produto europeu no mercado", acrescentou. Em meio a uma chuva de correios eletrônicos e mensagens de texto pedindo aos muçulmanos que se unam com urgência ao boicote, várias redes locais de supermercados retiraram os produtos dinamarqueses de suas gôndolas. Além disso, "devolvemos muitos produtos aos fornecedores", disse Sameh Fouad, gerente da loja no Cairo da grande rede de supermercados Metro. "Tivemos uma reação positiva por parte dos clientes, que por si mesmos evitavam comprar produtos dinamarqueses", acrescentou.
Sewelam disse que o atual boicote promete ser mais efetivo do que anteriores contra bens e serviços norte-americanos, que potencialmente haviam ameaçado muitos postos de trabalho egípcios. "Ninguém pode negar que esta medida afetará o emprego local", disse Sewelan. Por sua vez, Shaaban afirmou que foi a pressão das empresas dinamarquesas que operam na região, "que viram que tudo aquilo pelo qual trabalharam estava em risco de soçobrar, que, no dia 30 de janeiro, houve uma espécie de desculpa de Carsten Juste, editor-chefe do Jyllands-Posten e responsável pela publicação inicial das caricaturas. Juste expressou o desejo do jornal de que "vários grupos étnicos deveriam viver em paz e harmonia entre si e que os debates e desacordos deveriam acontecer em um clima de respeito mútuo".
Rasmussen disse em uma entrevista que era muito cedo para avaliar os efeitos econômicos do boicote. "Algumas empresas dinamarquesas que comercializam com países árabes podem sofrer", disse em entrevista publicada no dia 9 pelo semanário governamental egípcio Al-Ahram. "Não sabemos se isto será uma perda a médio ou longo prazo". O jornal pan-árabe Asharq al-Awsat informou, no dia 12, que, devido ao boicote, a empresa dinamarquesa Arla Foods, um dos maiores fornecedores de produtos lácteos da Europa, estava perdendo US$ 1,6 milhão por dia. Os produtos lácteos representam cerca de um quarto das exportações da Dinamarca.
"Os maiores prejuízos da Dinamarca serão sentidos na Arábia Saudita, que é um grande importador de manteiga dinamarquesa", disse Sewelan. "Mas também haverá perdas no Egito, onde os comércios mais importantes eliminaram os produtos dinamarqueses. Devido à situação reinante, provavelmente seria perigoso armazenar produtos de origem dinamarquesa", acrescentou. Por seu lado, Shaaban afirmou que o boicote efetivamente "tirou o assunto das mãos do governo" e o converteu em um tema popular. "O boicote nunca foi aprovado por nenhum governo",disse.
Shaaban acrescentou que, enquanto Cairo ainda esperava receber uma desculpa oficial por parte de Copenhague, a questão estava além da simples diplomacia "Uma desculpa oportuna por parte da Dinamarca teria aliviado a situação facilmente. Mas agora escorreu pelos dedos, porque as pessoas – não os governos – é que estão fazendo as demandas", ressaltou. (IPS/Envolverde)

