Colombo, 10/03/2006 – Um ressurgimento da violência no leste do Sri Lanka e a impaciência dos partidos representativos da maioria cingalesa em relação à Noruega, o país mediador, ameaçam o diálogo de paz entre o governo e os rebeldes tigres tamis. Duas semanas depois de concluída a primeira rodada de negociações em Genebra, vários membros dos Tigres para a Libertação da Pátria Tamil (LTTE) foram assassinados por supostos integrantes de uma facção rebelde dissidente, que seria apoiada pelo governo. O parlamentar Wimal Weeravansha, da Frente para a Libertação do Povo (FLP), partido que apoiou a candidatura do atual presidente Mahinda Rajapakse para as eleições de novembro passado, exigiu esta semana de Colombo a revisão do papel da Noruega no processo de paz. "Não deveríamos continuar com este mediador, que tem um papel nesta traição à nossa pátria", afirmou. Mais de 65 mil pessoas morreram e cerca de 800 mil tiveram de fugir por causa da guerra civil entre os Tigres e as forças de segurança desde 1983 para conseguir a autonomia do norte e leste do país, onde predomina a etnia tamil, minoritária no resto do país.
Mais de 70% dos 18 milhões de habitantes do Sir Lanka são da etnia cingalesa – a maioria budista – e 18% são tamis, cujos ancestrais procedem do sul da Índia e praticam o hinduísmo. Em 2002, rebeldes e governo acertaram um cessar-fogo. Mas desde então, mais de 200 pessoas morreram em enfrentamentos ou foram assassinadas por motivos ligados ao conflito, na maioria tamis. Antes da reunião concluída no dia 23 de fevereiro em Genebra, o processo de paz estava paralisado desde a retirada dos Tigres da mesa de negociações, em abril de 2003.
O último ataque contra os Tigres ocorreu no dia 4 deste mês em Vavunathivu, perto da aldeia de Batticaloa, bastião da facção rebelde apoiada pelo governo e liderada pelo ex-comandante do LTTE no leste, Vinayagarmoorthi Muralitharan, também conhecido como Karuna. Os tigres asseguram que os atacantes tiveram apoio de membros do exército quando fugiram após cometerem o ataque, mas Colombo nega. Qualquer participação comprovada do governo será uma violação à declaração conjunta aprovada em Genebra, na qual Colombo se compromete a não apoiar nenhum grupo armado, com exceção de suas próprias forças de segurança no norte e leste. Os Tigres, por sua vez, prometeram não atacar os soldados.
Karuna, que deixou o LTTE em 2004 com seis mil homens, é uma das grandes preocupações dos Tigres. No documento entregue à delegação governamental ao fim das negociações em Genebra, os rebeldes acusaram Colombo e suas forças de segurança de colaboração com Karuna. Os Tigres advertiram que se continuarem os ataques contra seus membros não se apresentarão para a próxima rodada de negociações prevista para abril. "A Missão de Supervisão do cessar-fogo no Sri Lanka deixou claro que o ataque em Vavunathivu foi realizado a partir de uma zona controlada pelo governo. Este tipo de ações definitivamente afetarão as futuras conversações", disse o porta-voz do grupo rebelde, Daya Máster. "O LTTE não adiantou nenhuma posição sobre a próxima rodada de negociações, mas tudo dependerá de como evoluir a situação", acrescentou. A Missão de Supervisão, integrada em sua maioria por efetivos noruegueses, tem um papel de observador e não inclui tarefas de manutenção da paz. O último ato de violência levou vários analistas a afirmarem que existem poucas possibilidades de serem aplicados os acordos de Genebra.
"Duvido que os acordos incluídos na declaração conjunta possam ser implementados. O governo não tem força para aplacar o grupo de Karuna e é pouco provável que o LTTE cesse completamente a violência, sobretudo às vésperas das eleições locais do próximo dia 30, nas quais precisam vencer", disse à IPS o analista Muttukrishna Sarvananthan, de Colombo. O presidente Rajapakse, que vê o reinício das negociações como um triunfo próprio, agora enfrenta críticas de seus aliados mais duros, que ameaçam retirar-lhe apoio se não mostrar mão firme com os rebeldes.
Jathika Hela Urumaya, partido representado no parlamento por monges budistas, disse esta semana que, se o acordo de cessar-fogo não for revisto, consideraria a possibilidade de retirar seu apoio a Rajapakse. Por sua vez, o FLP divulgou um comunicado assinalando que "a única forma de manter o LTTE na mesa de negociações é o fortalecimento das forças armadas". Estes dois partidos pró-cingaleses criticam duramente o papel da Noruega nas negociações e o documento conjunto aprovado em Genebra. E estas críticas parecem ter surgido efeito. É provável que o enviado especial de paz norueguês, Erik Solheim, seja substituído no próximo mês por um representante da Suécia. (IPS/Envolverde)

