Belo Horizonte, 04/04/2006 – Participantes destacados da 47ª reunião anual da Assembléia de governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento, cujos trabalhos começaram segunda-feira, vêem com tranqüilidade a substituição do ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, mas alguns apontaram incertezas no futuro. "Não tenho grandes receios com relação ao Brasil, país que tem instituições sólidas", disse à IPS Enrique García, presidente da Corporação Andina de Fomento (CAF), importante agência de fomento que nos últimos seis anos financiou 40 projetos de integração na América do Sul, entrando com 30% dos custos totais de US$ 10 bilhões.
A substituição de Palocci por Guido Mantega não provocará mudanças na política econômica no curto prazo, mas, a longo prazo não se pode ter essa certeza, disse o economista John Williamson, conhecido por ter criadoo em 1990 a expressão "Consenso de Washington" como síntese das medidas econômicas neoliberais recomendadas á América Latina pelas instituições financeiras multilaterais.
Mantega, sucessor de Palocci que renunciou no último dia 27, é um crítico duro dos altos juros impostos pelo Banco Central e por isso provoca preocupações sobre possíveis divisões no governo e sobre pressões contra a austeridade fiscal e monetária antes das eleições presidenciais de outubro. Mantega buscou tranqüilizar o mercado garantindo que manteria a política econômica. Mas as tensões existentes determinaram a ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de dois de seus ministros na reunião do BID, que acontece até esta quarta-feira em Belo Horizonte (MG). Entre os ministros presentes, Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil da Presidência, disse que não esperava mudanças, apesar dos estilos diferentes de Palocci e Mantega.
Já o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, manifestou confiança em uma orientação mais favorável ao seu setor. Mantega foi um "defensor da agricultura" enquanto presidiu o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e é um "firme defensor da redução do custo do capital", afirmou. Os altos juros e a conseqüente valorização do real afetam duramente os agricultores voltados à exportação. Williamson questiona agora o que considera um excessivo conservadorismo da política econômica brasileira, que os críticos de esquerda, por sua vez, a consideram como produto de seu Consenso de Washington.
O Banco Central exagerou na alta da taxa de juros básica em 2005, quando chegou a até 19,5%, segundo Williamson. O governo brasileiro deveria deixar claro que considera o real supervalorizado e intervir no mercado comprando dólares para conter a alta da moeda nacional, recomendou. Uma taxa de juros competitiva, mesmo flutuante, é condição necessária para o crescimento econômico, "a supervalorização é extremamente perigosa e deve ser contida?, afirmou. "O Brasil foi muito longe ao cumprir o que fazem os países do Norte", em uma política que talvez não seja conveniente para as nações industriais, concluiu.
Com relação a Mantega, é preciso "um período de adaptação do ministro ao mercado e vice-versa", para superar a instabilidade da substituição, afirmou Paulo Leme, diretor de mercados emergentes da Goldman Sachs, banco norte-americano de investimentos. Comprovar que se manterá "a redução gradual dos juros e os fundamentos econômicos, como o ajuste fiscal e as reformas estruturais", também será essencial, acrescentou. O ajuste fiscal diminuiu e vulnerabilidade das economias latino-americanas às turbulências externas, argumentou, agora se trata de reduzir a dívida pública, disse Leme.
O Informe Anual do BID 2005, apresentado nesta segunda-feira, diz que a América Latina cresceu pelo segundo ano consecutivo. Esse crescimento de 4,3% do produto interno bruto "esteve acompanhado de menor inflação, redução do déficit fiscal e baixa no desemprego", segundo a instituição. Mas uma preocupação geral a respeito da região se refere às políticas populistas que ganharam nova força, especialmente na Venezuela, provocando ansiedade diante de possíveis intervenções nos mercados, observou Thomas Glaessner, diretor de pesquisa em mercados emergentes do Citigroup, outro grupo financeiro norte-americano.
Existem outras incertezas que ameaçam a região, como uma possível paralisação da economia dos Estados Unidos e instabilidade em alguns países latino-americanos, acrescentou Glaessner. A América Latina vive "um bom momento macroeconômico, com aumento de reservas cambiais e equilíbrio inflacionário, mas há outros temas microeconômicos que merecem mais esforço dos governos", como tecnologia, infra-estrutura, mercado de capitais e regras consistentes para o financiamento, disse o presidente da CAF. A brecha que separa a América Latina dos países industrializados aumenta, e "vemos uma região ainda vulnerável a choques externos, com baixa competitividade", por isso a integração "não é algo romântico, mas pragmático, necessário e exige um crescimento sustentável e de boa qualidade", concluiu García.
Enquanto acontecia a reunião, sete pessoas foram detidas e várias ficaram feridas, inclusive um jornalista, em choques entre policiais e manifestantes do primeiro Encontro de Movimentos Sociais de Minas Gerais, paralelo à reunião do Bando Interamericano de Desenvolvimento. Os ativistas não puderam se dirigir à sede da assembléia do BID para protestar contra essa instituição e vários deles destruíram a fachada da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), o que provocou a ação policial. (IPS/Envolverde)

