São Paulo, 07/04/2006 – A transparência pode ser um fator decisivo para que a América Latina incremente sua competitividade no mundo, superando problemas como corrupção, baixa credibilidade dos governos e debilidades fiscais. Os fatores que afetam o crescimento econômico regional, que melhorou nos últimos anos – apesar de estar longe do registrado por China, Índia e Europa oriental – foram eixos de um informe divulgado na quarta-feira, primeiro dia do Fórum Econômico Mundial sobre a América Latina, no qual também foram discutidos os riscos e as oportunidades para o desenvolvimento da região. O FEM, um encontro de financistas e executivos que acontece anualmente na estação turística suíça de Davos, realizou em São Paulo um fórum latino-americano de dois dias, iniciado na quarta-feira. O informe "A competitividade latino-americana" em 2006 reconhece os avanços macroeconômicos, como redução da inflação e esforços fiscais, que somados ao quadro internacional favorável impulsionaram o crescimento. Mas o desempenho econômico regional não corresponde às expectativas, considerando os níveis de renda por pessoa, disse Augusto López-Claros, economista-chefe do FEM e diretor do informe.
A América Latina e o Caribe apresentam uma situação singular, com o Chile sendo uma "exceção à regra" e que, por sua vez, comprova que é possível desenvolver boas instituições econômicas na região, afirmou López-Claros. Em macroeconomia, um dos indicadores da competitividade, o Chile ocupa o primeiro lugar entre 117 países avaliados, incluindo os mais desenvolvidos, ressaltou. Mesmo assim, na classificação geral aparece em 27º lugar. A avaliação considera nove "pilares", entre eles a qualidade das instituições, a infra-estrutura, saúde, educação básica e superior, eficiência dos mercados e respostas tecnológicas e inovações.
O crescimento econômico não reflete necessariamente boa competitividade. A Índia, que está crescendo muito mais do que os países latino-americanos, apresenta péssimos indicadores em educação, embora seja conhecida por seus avanços tecnológicos, observou López-Claros. "Em infra-estrutura é um desastre", acrescentou. Os numerosos indicadores considerados pelo estudo do FEM, vários para cada pilar, indicam "as habilidades do país para manter seus níveis de prosperidade". Os que são "decisivos para o crescimento econômico variam de um país para outro". Na Finlândia, por exemplo, pouco importa a macroeconomia, e o fator-chave é a inovação tecnológica, explicou o economista.
A transparência pode significar muito para a América Latina, disse López-Claros à IPS. O Chile, por exemplo, tem um grau de corrupção baixíssimo em comparação com seus vizinhos, depois de "15 anos de governos que conquistaram credibilidade" por parte da população. O país também conta com a melhor infra-estrutura regional, acrescentou. O segundo país latino-americano mais competitivo, a Argentina, ocupa o 54º lugar na classificação geral, superando o Brasil, que está em 57º, quase junto com Costa Rica, Colômbia e México.
A educação e um pouco de infra-estrutura explicam esse desempenho argentino, apesar de sua recente crise econômica e dos dados macroeconômicos desfavoráveis. A corrupção tem um peso importante nas avaliações feitas pelo FEM. "Mina a democracia e inibe a economia", segundo Moisés Naim, editor-chefe da Foreign Policy Magazine (Revista de Política Exterior), dos Estados Unidos. O problema não é apenas a corrupção em si mesma, mas "a guerra contra a corrupção", que nos últimos 15 anos dominou o debate, em detrimento dos temas sobre desenvolvimento. Os escândalos sucessivos não detiveram o problema; trata-se de "um remédio que mata o paciente", resumiu Naim.
Um segundo fator que considera prejudicial para o desenvolvimento regional são os desvios de uma "guerra contra a desigualdade", que leva a políticas intervencionistas, de controle de preços e do valor da moeda, que não são eficazes contra a iniqüidade já que reduzem os investimentos e, por fim, o crescimento econômico, além de ampliar a corrupção. A América Latina é a região do mundo com maior brecha entre ricos e pobres. Também existe um "vazio ideológico" em uma região que deseja o crescimento e a superação de uma "situação social desesperadora", mas na qual erros do passado são repetidos, acrescentou Naim.
Em conseqüência, a América Latina vive um "paradoxo": o chavismo, a corrente liderada pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, desperta muito mais entusiasmo do que o Chile, embora o "modelo da Venezuela seja muito inferior ao chileno", lamentou Naim. Isso se reflete nos novos líderes, como o indígena Evo Morales, eleito presidente da Bolívia, e outros nacionalistas e esquerdistas que disputarão eleições com possibilidades de vitória no México e Peru, ressaltou o especialista.
A pobreza, embora não impeça o crescimento, "é um obstáculo", disse, por sua vez, Guillermo Perry Rublo, economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe. Sua recomendação é engrossar o capital humano, mais educação e infra-estrutura, conjugados com a liberalização do comércio que, em sua opinião, "gera oportunidades". Em um debate sobre os riscos que afetam a região, o chileno José Miguel Insulza, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, destacou que "há boa democracia" na América Latina, o problema agora é a instabilidade que se nota em muitos países com as proximidades das eleições e "a qualidade dos governos". (IPS/Envolverde)

