Teerã, 28/04/2006 – O Irã se mantém desafiante, mas ainda não fechou a estreita porta para resolver, pela via diplomática, a crise com o Ocidente por causa de seu plano de desenvolvimento nuclear, poucas horas antes de expirar o prazo estabelecido pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Este organismo fixou para esta sexta-feira a data-limite para que Teerã suspenda seu programa de enriquecimento de urânio. No entanto, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) deve apresentar um informe indicando se o governo iraniano se submeteu à demanda. Se as potências ocidentais, lideradas pelos Estados Unidos, adotarem uma postura severa e pedirem sanções contra Teerã, ou, pior ainda, lançarem um ataque militar contra suas instalações nucleares, fortalecerão a linha mais dura no regime islâmico iraniano.
Uma ofensiva militar contra o Irã teria conseqüências catastróficas para todo Oriente Médio, a região mais volátil do mundo. Os efeitos seriam ainda mais desastrosos se os Estados Unidos usassem armas nucleares táticas, algo que, segundo se soube, está sendo considerado. Se o Ocidente optar pelo caminho da diplomacia e negociação, poderá ser recompensado com ricos dividendos, incluindo uma efetiva supervisão das atividades nucleares iranianas e melhoria nas relações com seu governo, desejoso de ser aceito como "normal" e "responsável". Neste delicado momento, o Irã adotou um enfoque "de três pontas" diante da crise, que se agravou desde que a junta de governadores da AIEA aprovou duas resoluções, em setembro e fevereiro, nas quais decidiu enviar o caso ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.
Em primeiro lugar, Teerã mantém uma postura desafiadora na qual adverte que não sacrificará seus direitos ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), de 1970, que o habilita a desenvolver atividades pacíficas, como o enriquecimento de urânio para a geração de energia. O TNP está construído sobre três pilares: proíbe os Estados que não possuem armas atômicas de adquirir ou fabricar esse tipo de material bélico, compromete cinco Estados com armas nucleares (China, França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Rússia, que integram o Conselho de Segurança) a adotar uma política de desarmamento e permite a todas as nações acesso à tecnologia nuclear somente com fins pacíficos.
Índia, Israel e Paquistão também são potências atômicas, mas não assinaram o TNP. A Coréia do Norte garante ter armas nucleares, embora isso não tenha sido verificado por organismos independentes. Teerã ameaçou "esconder" seu programa atômico e a transferência de tecnologia para outros países, além de cessar a cooperação com a AIEA, se o Ocidente adotar "medidas severas". Estas ameaças foram esgrimidas não só pelo gabinete e pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad, já famoso por suas declarações polêmicas, como também pelo líder espiritual supremo da Revolução Islâmica, o aiatolá Ali Khamenei, que raramente se pronuncia sobre assuntos como estes.
Em segundo lugar, o governo iraniano envia sinais de estar disposto a um acordo ou compromisso. Hasan Rowhani, representante de Khamenei no Conselho Supremo de Segurança Nacional, assegurou que o Irã está preparado para suspender seu plano de enriquecimento de urânio por um breve período. Os funcionários iranianos também trabalham nos canais diplomáticos para deixar claro que Teerã quer uma resolução pacífica do problema. Em terceiro, e último, lugar, o Irã busca se aproximar de seus vizinhos, incluindo alguns aliados de Washington no Golfo, para persuadi-los a não apoiar uma eventual operação militar norte-americana.
Para tais efeitos, o influente ex-presidente iraniano Akbar Hashemi Rafsanjani (1989-1997) e o chefe negociador de Teerã na crise nuclear, Ali Larijani, há alguns dias estiveram no Kuwait e no Bahrein, respectivamente. "A atual posição do Irã está baseada em um forte consenso interno a favor de um programa nuclear civil e na aquisição de um grau de experiência no desenvolvimento de tecnologia nuclear, e não em favor da fabricação de armas atômicas", disse à IPS o analista Nasser Hadian Jazy, especialista em Relações Internacionais e Assuntos de Segurança da Universidade de Teerã.
"A maioria dos políticos iranianos acredita que a brecha, entre o que Teerã deseja e o que os pragmáticos do Ocidente estão dispostos a conceder na crise nuclear, não é muito grande e nada inatingível. Sem dúvida, preferem evitar o confronto. As duas partes sabem que o custo de um enfrentamento seria muito alto. Portanto, pode-se esperar que tentem negociar um compromisso. Só se pode esperar que essas negociações triunfem", acrescentou. Um possível acordo, segundo pessoas com acesso a informação privilegiada que preferiram não serem identificadas, poderia incluir a suspensão temporária do enriquecimento de urânio e um possível investimento de risco compartilhado com a Rússia (e alguma outra nação, como a África do Sul), para levar o urânio iraniano para ser enriquecido em outro país.
Os cientistas iranianos teriam acesso a importantes instalações e tecnologias no esforço conjunto. Teerã manteria seus compromissos no TNP e ratificaria o Protocolo Adicional que assinou com a AIEA, para permitir inspeções mais rigorosas em suas instalações. Em troca, o Ocidente reconheceria o Irã como um Estado "normal", lhe daria garantias de segurança e um "pacote de incentivos econômicos", incluindo acesso a avançadas tecnologias para a produção de gás e petróleo.
Vários especialistas governamentais e da sociedade civil disseram à IPS que existe consenso de que esse acordo amplo será negociado, embora seja difícil comprová-lo pelas declarações oficiais. O debate pela imprensa sobre a crise nuclear está proibido no Irã. Por outro lado, parece haver muito pouco apoio popular à idéia de o Irã se converter em um Estado com armas nucleares, como Índia ou Paquistão. Uma foto publicitária de jovens iranianos dançando alegres depois do anúncio oficial do dia 11, de que Teerã havia enriquecido urânio com êxito, "enganou muito", disse um membro da mesa de editores de uma publicação dissidente. "Esse sentimento não é amplamente compartilhado. Não houve comemorações significativas quando o Irã anunciou sua destreza nuclear", afirmou.
Muitos iranianos também são céticos sobre as afirmações do governo, de que alcançou tal sofisticação tecnológica, e acreditam que as instalações nas localidades de Isfahan e Natanz são rudimentares, mas não sabem muito mais por causa da censura à imprensa. Nas ruas de Teerã não se percebe tensão nem temores na véspera do vencimento do prazo dado pelo Conselho de Segurança. Os iranianos cumprem sua rotina ignorando a crise nuclear. Se Washington optar pela ação militar, desatará outros problemas no Afeganistão, Iraque, Líbano, Síria e em todo o mundo muçulmano. Diante da crítica situação, moderação e sabedoria são as virtudes mais valiosas. (IPS/Envolverde)

