Economia: Plantadores de ópio resistem à erradicação

Cabul, 27/04/2006 – Os agricultores da província afegã de Herat se negam firmemente a destruir suas plantações de papoula, matéria-prima do ópio, da morfina e da heroína, a menos que o governo lhes possibilite uma renda alternativa. "Não deixarei de plantar papoula porque o governo proíbe. Não tenho outro meio de vida", afirmou Ghulam Sakhi, de 45 anos, de Nahr-i-Farhad, no distrito de Rabat Sangi. "Antes de destruir minhas plantações terão de me matar junto com os 12 integrantes da minha família", afirmou. Sakhi fez essas afirmações na presença do governador de Herat, Said Hussain Anwari, e do chefe de polícia local, que percorriam a área supervisionando o desenvolvimento da campanha de erradicação.

As forças de segurança destruíram mais de 324 hectares deste cultivo em Herat há apenas três semanas, coincidindo com a colheita. Sakhi acusou as forças antinarcóticos de montar um cenário para o governador e o chefe de polícia. Segundo o camponês, os agentes se concentraram nos campos dos agricultores pobres, enquanto os que têm influência foram perdoados pelo governo. Asadullah, outro agricultor, disse que as autoridades arrasaram 1.215 hectares de sua plantação. "Isto é uma injustiça. Não deixarei que toquem no resto. Como vou manter os oito membros da minha família", perguntou.

Anwari repetiu o argumento oficial: as plantações de papoula devem ser destruídos porque são ilegais. Ao mesmo tempo, prometeu dar apoio aos agricultores, com o fornecimento de sementes e fertilizantes. Também anunciou a construção de uma represa na região, ao custo de US$ 40 mil, para que os agricultores possam irrigar seus campos. Imediatamente depois de ser eleito, em 2004, o presidente afegão, Hamid Karzai, destacou que uma das prioridades de seu governo seria a luta contra o cultivo de papoula. Karzai afirmou que se trata de "uma luta pelo Afeganistão".

No ano passado, funcionários afegãos, britânicos e norte-americanos estabeleceram uma nova estratégia para fornecer alternativas ao cultivo de papoula, com ênfase em desbaratar os vínculos existentes entre a corrupção, o terrorismo e o narcotráfico. O regime do movimento islâmico Talibã (1996-2000) conseguiu, assim, anular o cultivo de papoula, mas, após sua queda pela invasão dos Estados Unidos, o Afeganistão se converteu no maior produtor mundial. O Escritório das Nações Unidas para Controle de Drogas e Prevenção do Delito (Unodoc) estimou que 87% da produção mundial de ópio provêm do Afeganistão, onde foram colhidas 4,1 mil toneladas no ano passado.

No Afeganistão, cerca de 3,5 milhões de pessoas – 10% da população – estão envolvidas no comércio de ópio, o que equivale a 52% do produto interno bruto, cerca de US$ 5,2 bilhões. A maior parte deste dinheiro acaba nas redes do narcotráfico e não no bolso dos agricultores, que cultivam a terra em zonas montanhosas e remotas. A polícia e as forças antinarcóticos arremeteram contra esta atividade. No distrito de Deshu, na província de Helmand, as autoridades apreenderem, este mês, 4,16 toneladas de ópio, 47 quilos de heroína, 80 quilos de morfina, 1,362 toneladas de cloreto de amônia e 1,15 toneladas de cloreto de sódio, segundo dados oficiais.

Além disso, declararam a apreensão de 200 quilos de entorpecentes e a prisão de 26 traficantes nas províncias de Farah e Samangan, na fronteira com o Irã. O coronel da polícia fronteiriça, Muhammad Ayub Safi, disse que os traficantes cruzam pela longa e permeável fronteira afegã-iraniana. O caminho seguido pela droga vai do Irã à Turquia e segue para o norte. Toda a heroína disponível nas ruas da Grã-Bretanha procede do Afeganistão, segundo o jornal britânico The Telegraph.

Este país europeu, que lidera a luta para acabar com o ópio, contribuiu, no final do ano passado, com US$ 55 milhões para a campanha de erradicação. Também insistiu na necessidade de fornecer um sustento alternativo aos agricultores. Por sua vez, os Estados Unidos defendem um enfoque mais extremo, que inclui pulverização aérea das plantações com pesticidas. Especialistas independentes advertem sobre o perigo que implica o uso da força, pois permite a aproximação entre pequenos produtores e o talibã. O Conselho de Senlis, instituição de estudos sobre políticas antidrogas, com sede em Paris, indicou que este ano muitos agricultores nas províncias de Helmand, Nagarhar e Kandahar voltaram a cultivar papoula, descontentes com o governo.

A administração de Karzai não cumpriu sua promessa de compensações para os agricultores pela destruição de vastos cultivos de papoula, com a qual reduziu drasticamente a produção no ano passado. Especialistas do Conselho de Senlis foram testemunhas de que vários bancos rejeitaram cheques entregues pelo governo aos camponeses, disse o porta-voz da organização em Cabul, Almas Bawar, à Pajhwok, agência de notícias afegã. Os governos estrangeiros não devem "impor seus próprios programas" para controlar o comércio de ópio, pediu o Conselho de Relações Exteriores, um grupo de estudos norte-americano, em um informe intitulado "Incerta transição do Afeganistão: do caos à normalidade".

"O crescimento econômico se obtém mediante políticas de eliminação de entorpecentes, sem empobrecer a população. Não se deve condicionar a ajuda à mudança de resultados a curto prazo. O processo de eliminação pode levar perfeitamente mais de uma década, e a erradicação das plantações é uma forma contraproducente de começar com tais programas", aconselha este informe. O porta-voz antinarcóticos do governo, Zalmay Afzali, compartilha essa opinião. Os programas que proporcionam alternativas ao cultivo de papoula "não devem se reduzir à distribuição de sementes. Devemos construir estradas, escolas, clínicas e fornecer outros serviços básicos para os agricultores", afirmou. (IPS/Envolverde)

(*) Com as colaborações de Nadeem Kohistani e Zubair Babakarkhel. Publicado pela IPS em convênio com a agência de notícias afegã Pajhwok Afhan News.

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