Nova York, 12/04/2006 – Algo histórico está ocorrendo nos Estados Unidos: as ruas de várias cidades ficam inundadas de estrangeiros que vivem e trabalham nesse país em um prolongado silêncio sobre o regime migratório. Agora, decidiram se fazer ouvir. Cerca de dois milhões de pessoas saíram às ruas, na segunda-feira, para exigir que as leis sobre imigração não criminalizem os trabalhadores ilegais. "Abram as fronteiras, acabem com a guerra", gritavam aproximadamente cem mil manifestantes enquanto caminhavam pelas ruas de Nova York, capital financeira e maior cidade do país. "Somos os Estados Unidos", gritavam uníssono, ao mesmo em que se ouvia centenas de tambores. "Legalizar, não penalizar os imigrantes".
Maciças manifestações aconteceram em Chicago, Los Angeles, Miami, Phoenix e nas cem maiores unidades do país. No domingo, meio milhão de pessoas se manifestaram na cidade de Dallas, no Texas. Os manifestantes de origem latino-americana eram maioria em Nova York, mas houve uma numerosa participação de imigrantes do sudeste da Ásia e da África. "É preciso participar. Não se deve esperar que eles (os legisladores) decidam por nós", disse Mohammed Savane, do Senegal. "Temos que velar por uma lei que realmente ajude nossas famílias", acrescentou.
Estes protestos em nível nacional são uma resposta ao projeto de lei impulsionado pelo governante Partido Republicano e aprovado na Câmara de Representantes, segundo o qual entre dez e 12 milhões de imigrantes ilegais seriam considerados criminosos, bem como os que os empregam ou dão qualquer tipo de ajuda a eles. O Comitê de Assuntos Judiciais da Câmara de Representantes, presidido pelo republicano James Sensenbrenner (filho), conseguiu que o plenário aprovasse, em janeiro, esse projeto, que inclui completar um gigante muro ao longo da fronteira com o México e aumentar as penas para crimes migratórios, com condenações mínimas obrigatórias para quem fomentar a imigração ilegal e para os imigrantes já deportados que reingressarem no país.
Enquanto isso, republicanos e o Partido Democrata estiveram prestes a acertar no Senado outro projeto estabelecendo uma via para legalização dos trabalhadores imigrantes que já residem no país. Os que vivem nos Estados Unidos por mais de cinco anos poderiam obter residência e o direito de postular a cidadania. Os que estão entre dois e cinco anos poderiam aspirar um visto de trabalho temporário, mas teriam de voltar ao seu país de origem e seguir o mesmo procedimento que qualquer um que busque entrar legalmente nos Estados Unidos.
A proposta, que tomou por base um projeto aprovado em março pelo Comitê de Assuntos Judiciais do Senado, inclui medidas para reforçar a segurança fronteiriça e um novo programa de trabalhadores convidados (com visto de trabalho temporário sem direito de pedir residência). Na semana passada, republicanos e democratas avançaram quase até um acordo sobre o assunto, mas o mesmo ficou truncado por discordâncias de última hora na redação do projeto, conhecido como "HR 4437".
As manifestações foram organizadas por uma coalizão de grupos defensores dos direitos dos imigrantes, organizações estudantis e religiosas e sindicatos, e também contaram com a participação de inúmeros legisladores e políticos democratas. "As pessoas em Washington devem saber que os Estados Unidos não podem viver sem vocês", disse aos manifestantes o representante democrata Charles Ragnel. "Eles têm de saber que toda as pessoas têm direito a viver dignamente neste país. Têm de recordar que seus pais e suas mães também foram imigrantes", disse a legisladora Nina Lowey, se referindo aos imigrantes do partido governante em Washington. "Estão equivocados e, ainda por cima, são imorais", acrescentou.
Outros que discursaram pediram mudanças radicais na política migratória, incluindo a possibilidade de obter a cidadania em lugar do limitado programa temporário do trabalhador convidado proposto pelo governo de George W. Bush, bem como contemplar a reunificação familiar e o direito à sindicalização. Segundo estimativas oficiais, há mais de 11 milhões de imigrantes ilegais trabalhando atualmente nos Estados Unidos. A imensa maioria é obrigada a trabalhar mais de 12 horas por dia por salários de US$ 5 a hora, e vivem no medo permanente de serem presos e deportados.
Os defensores dos direitos dos imigrantes acreditam que se o projeto da câmara baixa se impuser no Senado, se estaria legalizando a economia informal e expandindo uma subclasse trabalhadora. Também consideram que a proposta do trabalhador convidado não é mais que uma extensão da lei de imigração de 1986, que ataca os trabalhadores de forma indireta castigando quem os contrata sabendo que não têm documentos legais. "Agora, é pior", disse a respeito uma sindicalista norte-americana de origem asiática, Jei Fong. "Esta lei não ataca a raiz do problema. Não se pode criminalizar os trabalhadores. Eles vêm para cá por que são obrigados" acrescentou.
Maxine Wolfe, procedente de uma família de imigrantes poloneses em Nova York, concorda com Fong. "Somos todos ilegais nos Estados Unidos, menos os indígenas", podia-se ler no cartaz carregado por Wolfe. "É horrível. Este país foi construído por imigrantes. Deveríamos abrir os braços para estas pessoas", ressaltou Wolfe. Alguns participantes das manifestações disseram apoiar o projeto acordado no Comitê de Assuntos Judiciais do Senado no mês passado. "Começa-se a centrar em nosso falido sistema de imigração", disse Joan Maruskin, da Church World Service, agência ecumênica de ajuda humanitária e para o desenvolvimento, com sede em Washington. "Ocupa-se da atrasada questão familiar, de modo que as famílias de imigrantes possam se reunificar", disse. Outros organizadores das concentrações não concordam.
As políticas externa e interna do governo Bush têm muito em comum, afirmou Hany Khalil, do grupo contra a guerra Unidos pela Paz e a Justiça, organizador de várias manifestações, especialmente contra a guerra no Iraque. "Ambas têm como premissas a agressão, a intolerância e a manipulação do medo das pessoas", afirmou. "Somos plenamente conscientes de que este é um importante ano eleitoral", acrescentou Leslei Cagan, coordenadora do grupo, se referindo às eleições legislativas de novembro. "Nenhum candidato poderá deixar de lado estes assuntos. Faremos todo o possível para acabar com a guerra no Iraque, conseguir a volta de nossos soldados e defender os direitos dos imigrantes". Esta organização já planeja, junto com outras, uma manifestação em defesa dos direitos dos imigrantes e pela paz no próximo dia 27. (IPS/Envolverde)

