Irã-EUA: Entre a guerra psicológica e a real

Washington, 12/04/2006 – Três anos depois da queda do Iraque, a capital dos Estados Unidos é uma onda só de boatos sobre a aparente intenção do governo de George W. Bush de atacar o Irã, talvez, com armas nucleares. Nos últimos dias, o jornal The Washington Post e o londrino The Sunday Times, bem como os semanários The New Yorker e The Forward – principal publicação da comunidade judaica norte-americana – divulgaram longos informes sobre planos de ataque aéreo contra até 400 objetivos nucleares e militares iranianos. O mais espetacular foi a reportagem do The New Yorker, escrita pelo veterano jornalista investigador Seymour Hersh, o primeiro a informar há dois anos sobre os abusos contra prisioneiros na prisão de Abu Ghraib, em Bagdá.

Sua nova matéria, de 6.300 palavras e intitulada "Os planos iranianos", se baseia fundamentalmente em fontes anônimas alheias ao governo. Hersh afirmou que forças de combate norte-americanas já entraram no Irã para recolher informação e manter contatos entre "grupos antigovernamentais de minorias étnicas". O The Washington Post não pôde confirmar esse dado. A notícia do The New Yorker indica também que as gestões de altos oficiais militares para que o governo eliminasse os planos de contingência para o uso de armas nucleares contra alvos específicos fossem ignoradas pelas autoridades civis do Departamento de Defesa. Ao contrário dos outros informes, o de Hersh indica que os ataques poderiam ocorrer a qualquer momento. Outros meios de comunicação consideraram difícil que uma operação desse porte fosse ordenada antes das eleições legislativas de novembro nos Estados Unidos. "Os funcionários governamentais dizem que o presidente Bush está decidido a negar ao regime iraniano a oportunidade de iniciar um programa-piloto, previsto para esta primavera (boreal), de enriquecimento de urânio", escreveu o jornalista. Entrevistado pela rede de televisão a cabo CNN na segunda-feira, Hersh insistiu em que o plano de ataque encontra-se em uma fase "operacional".

Sem desmentir especificamente nenhuma das afirmações de Hersh, o próprio Bush advertiu na segunda-feira que os últimos informes constituíam uma "especulação selvagem" e que seu governo estava comprometido com as soluções "diplomáticas". Ao mesmo tempo, o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, insistiu em que a força militar continuava sendo uma opção para Washington. A repentina série de informes jornalísticos detalhados deixa no ar a pergunta se o governo Bush realmente planeja um ataque – se não iminente, então para logo depois de concluído o período presidencial, 20 de janeiro de 2009, com afirma o The Sunday Times – ou se está embarcando em uma guerra psicológica.

O objetivo de uma conflagração "fria" seria persuadir os governos da Europa, entre outros aliados dos Estados Unidos menos inclinados à guerra com o Irã, que haverá ações caso Teerã não concorde com as demandas de Washington. Não há consenso na resposta à pergunta sobre as intenções do governo norte-americano. Para alguns especialistas, os benefícios de um ataque seriam muito minimizados por seus custos: desde um levante xiita de inspiração iraniana no Iraque até ataques com mísseis contra campos de petróleo da Arábia Saudita, passando por um aumento dos preços do petróleo, e sem mencionar o aumento do sentimento antinorte-americano na Europa e no mundo árabe.

"Embora possam ser temerários com a segurança dos Estados Unidos", os últimos informes e ameaças desde Washington "têm realismo e sangue frio em termos de poder político", disse o especialista em assuntos iranianos Gary Sick, da Universidade de Columbia. Para ele, as últimas notícias são um sinal intimidador dirigido ao Irã. "Uma das ferramentas de negociação mais forte dos Estados Unidos é a crença generalizada de que o Irã é irracional e capaz das ações mais irresponsáveis. Esses são seus antecedentes, e não há necessidade de inventá-los", disse o especialista. "Se podem expor essa reputação para manter desequilibrado o Irã ou qualquer outro, melhor", acrescentou, mas, mesmo que essa análise seja correta, "sempre há um grande risco de cálculo errado e acidentes".

O ex-funcionário da Agência Central de Inteligência (CIA) Graham Fuller, hoje especialista em Oriente Médio do centro acadêmico Rand Corporation, concorda com a avaliação de Sick. Entrevistado por Forward, Fuller considerou que a última série de informes jornalísticos deixava em evidência "a fineza do aparato de desinformação e do arsenal psicológico dos Estados Unidos (talvez, também da Grã-Bretanha) contra o Irã", estas táticas "estão se intensificado, talvez em razão da frustração de que uma guerra real, de fato, não está mais entre as opções", acrescentou. Outros analistas não consideram que o governo esteja jogando.

"Durante meses, foi dito aos pesquisadores que nenhum alto funcionário político ou militar considerava seriamente um ataque contra o Iraque", disse Joseph Cirincion, especialista em proliferação de armas nucleares do Fundo Carnegie para a Paz Internacional. "Mudei de opinião nas últimas semanas", acrescentou. "Em parte, porque fui convencido por colegas com fortes vínculos com o Pentágono e a Casa Branca para que os quais alguns altos funcionários já têm a idéia de atacar o Irã".

"Me preocupa que, há vários meses, o governo deu força a versões sobre uma grande dose de bombardeios contra o setor nuclear do Irã, sem pesar suficientemente as possíveis conseqüências de tal ação", afirmou à The Forward o especialista Wayne White, que até 2005 foi o principal analista de assuntos do Oriente Médio do Departamento de Estado. Os que mais defendem a opção militar contra o Irã são os mesmos elementos belicistas, nacionalistas e pró-israelenses dentro e fora do governo que incentivaram a invasão do Iraque em 2003.

Em discursos feitos no mês passado no Comitê Norte-americano-israelense de Assuntos Públicos (AOPAC), o vice-presidente Dick Cheney, advertiu que, mantido seu programa nuclear, o Irã enfrentaria "conseqüências significativas", que foram elevadas pelo embaixador junto á ONU, John Bolton, à categoria de "conseqüências tangíveis e dolorosas". Em declarações ao The Sunday Times, o ex-chefe dos assessores civis do Pentágono e ideólogo do ramo neoconservador do Partido Republicano, Richard Perle, considerou que destruir o programa nuclear iraniano seria muito mais fácil do que se pensa.

"O ataque estaria concluído antes mesmo que alguém se inteirasse do ocorrido", garantiu Perle. Bastaria uma dúzia de aviões bombardeiros B-2 em uma única noite, acrescentou. "O governo fala muito a sério", afirmou outro ideólogo neoconservador, Michael Rubin. "Há certos indivíduos dentro e fora do governo que não vacilariam um segundo em recomendar um bombardeio contra o Iraque", acrescentou Sick. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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