Saúde: Um ano para a prevenção da aids

Johannesburgo, 17/04/2006 – A União Africana (UA) e agências da Organização das Nações Unidas pretendem consagrar este ano à prevenção do HIV/aids, "para mudar o curso do vírus e da história". Dos cinco milhões de pessoas que contraíram o vírus da deficiência imunológica humana no ano passado, 3,2 milhões moram na África subsaariana, segundo o Programa Conjunto das Nações para o HIV/aids (Onusida). Mais de 60% dos portadores do vírus causador da aids de todo o mundo (isto é, pouco menos de 26 milhões) vivem nesta região, que representa 20% da população mundial.

O Ano para Acelerar o Acesso da Prevenção do HIV foi lançado na terça-feira, simultaneamente em Johannesburgo, Adis Abeba, Ouagadougou e Cartum, com a intenção de que o continente intensifique e melhore seus esforços para prevenir a infecção. "É inconcebível que a cada dia quase duas mil crianças contraiam o vírus devido à gravidez, ao parto ou à amamentação, a maioria na África subsaariana, e que cada dia cerca de seis mil pessoas entre 14 e 24 anos sejam infectadas", disse o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no lançamento da campanha. "Este ano apresenta uma oportunidade de mudar o curso do vírus e da história", acrescentou a agência.

Para a campanha estão previstos projetos educativos, de intercâmbio de informação, publicidade, especialmente sobre o uso correto do preservativo, e iniciativas para impedir a transmissão do HIV de mãe para filho. No lançamento da campanha em Johannesburgo, participaram a ministra da Saúde da África do Sul, Manto Tshabalala-Msimang, e a cantora Angelique Kidjo, de Benin, embaixadora da Boa Vontade do Unicef. "Devemos identificar os fatores da propagação do HIV na região e realizar esforços conjuntos para resolvê-los", disse Tshabalala-Msimang. "Entre esses fatores estão pobreza, subdesenvolvimento e desigualdade de gênero, o que torna as mulheres mais vulneráveis à infecção e ao impacto da aids", acrescentou.

A prevalência do HIV na população adulta da África do Sul chega a 21,4%. Este país adotou a estratégia ABC (sigla em inglês para abstinência antes do casamento, fidelidade e uso de camisinha). "Com a distribuição maciça de 300 milhões de preservativos ao ano, nossa mensagem se concentrará no uso correto e consistente dos meios de prevenção que o governo fornece gratuitamente", disse a ministra. Nos próximos dois anos, acrescentou, seu governo destinará US$ 33 milhões à campanha de prevenção à aids.

O governo sul-africano foi acusado de responder com lentidão à pandemia. Ativistas mostram preocupação pela falta de liderança do presidente Thabo Mbeki e da ministra da Saúde na luta contra o HIV, e pediram que seja acelerado o ritmo de entrega de medicamentos anti-retrovirais, os mais eficazes para impedir o desenvolvimento da aids. A África austral é a região mais afetada do continente. Mais de um terço dos infectados no ano passado moram ali, o que elevou o total para 15 milhões. Os governos e a sociedade civil da região enfrentam antigas tradições para frear a propagação da aids. "Em Malavi vigoram ritos tradicionais de iniciação. As meninas são obrigadas a manter relações sexuais com homens mais velhos para provar sua feminilidade. A prática aumenta o risco de infecção", disse Maureen Kumwenda, ativista antiaids que assistiu a cerimônia em Johannesburgo.

"Alguns pais enviam suas filhas em busca de dinheiro com a prostituição", acrescentou. O desemprego é um fator agravante. "Os estudantes que concluíram o secundário e não podem ir para uma universidade desenvolvem maus comportamentos", disse a ativista. Kumwenda propôs capacitação para esses jovens em matérias como tecnologia da informação para aumentar suas possibilidades de arrumar emprego.

A prevalência do HIV na população adulta de Malavi é de 14,2%, segundo a Onusida. O Zimbábue é o único país da África austral em que o ritmo de infecção diminuiu. O Unicef informou, em outubro, que a prevalência entre mulheres grávidas caiu de 24,6% para 21,3% entre 2002 e 2004. Além disso, toda a infecção adulta caiu para 20,1%. De todo modo, a situação da saúde continua sendo má no Zimbábue. Três bebês são infectados com HIV a cada hora e uma criança morre com aids a cada 20 minutos, segundo o Unicef.

Por sua vez, Kidjo exortou a que se ponha fim à violência contra as mulheres e se eduque a sociedade para que assumam o controle de suas vidas. "Vários pesquisadores demonstraram que as pessoas com instrução têm menos possibilidade de contrair aids", disse a cantora. "Porém, não é suficiente manter as crianças na escola. Também devem estar a salvo dos que abusam delas", acrescentou. Outros ativistas advertiram que a campanha de prevenção deve estar combinada com boa alimentação e remédios anti-retrovirais para as mães, com a finalidade de evitar crianças órfãs. Mais de 12 milhões de meninas e meninos perderam seus país devido à pandemia, informou a Onusida. (IPS/Envolverde)

Moyiga Nduru

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