Trabalho: Derrota do governo francês será sentida nas urnas

Paris, 12/04/2006 – A retirada da já promulgada lei trabalhista por parte do presidente da França, Jacques Chirac, marca um grande retrocesso para o governante partido direitista União por um Movimento Popular (UMP). O governo se encolheu atrás dos protestos de estudantes, professores universitários, sindicatos e partidos de oposição. A derrota supõe um grande golpe para a UMP no processo rumo às eleições presidenciais previstas para o começo do próximo ano.

Chirac anunciou que a lei, que prevê um Contrato de Primeiro Emprego (CPE) mais flexível que o usual, seria substituída por um novo pacote de medidas para melhorar a integração de jovens no mercado profissional sem afetar seu direito à segurança. O presidente havia promulgado a lei dez dias antes, e, ao mesmo tempo, pediu aos empregadores que ainda não a aplicassem. Agora, simplesmente, a anulou. A anulação ocorre após dois meses de manifestações maciças, as maiores em uma década. O líder do sindicato de professores da França, Gerard Aschieri, qualificou o retrocesso do governo de "inegável triunfo do movimento social".

O primeiro-ministro, Dominique de Villepin, promoveu a aprovação da lei no Parlamento sem consultar os sindicatos. Villepin também se negou a eliminar ou modificar o CPE, apesar do evidente descontentamento popular. A oposição considerou que o CPE facilitava as demissões tanto quanto a contratação de pessoal jovem. Este tipo de contrato incluía um período de testes de dois anos para os menores de 26 anos. Durante esse prazo, os empregadores poderiam demiti-los sem aviso prévio nem explicação. Villepin havia argumentado que seu plano tinha a intenção de ajudar os jovens a encontrar trabalho. O desemprego entre menores de 26 anos na França chega a 20%.

No início do mês, o próprio Chirac havia reconhecido falhas na lei, ao anunciar que a promulgaria, e pediu uma redução do período de testes do CPE de dois anos para um. Então, soube-se também que Villepin havia ameaçado renunciar se o projeto voltasse ao Parlamento para sua emenda. Uma pesquisa do instituto Ipsos indicou, em meio ao processo, que 47% dos entrevistados queriam a anulação total da lei, enquanto 45% aprovavam sua reforma.

Os protestos incluíram manifestações maciças, bem como a total paralisação da educação, do transporte por trem, do trânsito de veículos nas ruas, além prejudicar o transporte aéreo. Todas estes protestos contaram com apoio da maioria absoluta dos franceses, segundo pesquisas. O protesto se justificava porque "os jovens que buscam emprego se converteram na única variável de ajuste do mercado de trabalho", disse à IPS o pesquisador François Dubet, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. Os jovens começaram a temer uma "degradação programada de seu status social" com a aplicação da lei, acrescentou.

Por outro lado, os jovens pertencentes a comunidades de imigrantes que enfrentam a discriminação racial têm ainda menos possibilidades de encontrar um emprego digno do que os de ascendência francesa, segundo Dubet. Agora, são os jovens de classe média os que temem a segregação emergente de normas trabalhistas neoliberais, pois o CPE institucionalizava a universalização da insegurança no emprego, acrescentou. Analsitas consideram que as possibilides de Villepin disputar a presidência em 2007 se reduziram por sua defesa do CPE. O colunista do jornal esquerdista Liberation, Antoine Gaudemar, advertiu que o primeiro-ministro deveria renunciar, ao mesmo tempo em que acusou Chirac de provocar uma crise institucional ao promulgar a lei e depois "jogá-la no lixo".

A UMP, que conta com outros possíveis candidatos a presidente, como o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, poderia sentir as conseqüências da derrota da lei trabalhista, pela oposição estudantil e sindical ao CPE, que incidirá, ao que parece, no processo eleitoral. O governo havia provocado uma crise semelhante em 1995. depois de tentar uma redução radical dos benefícios da assistência social e das pensões, o governo de Chirac teve de ceder aos protestos sindicais.

Menos de dois anos depois, o partido de Chirac perdeu as eleições parlamentares e o chefe de Estado teve de compartilhar o poder com um chefe de governo do Partido Socialista, Leonel Jospin, que manteve a maioria no Poder Legislativo até 2002. "Como em 1995, esta crise deixará marcas profundas, porque constitui um enorme caos pelo qual Chirac, Villepin e Sarkozy têm total responsabilidade", disse o atual líder do Partido Socialista, François Hollande. "Agora, depende de nós propor as respostas adequadas aos problemas da sociedade francesa", concluiu. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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