América Latina: Todos atrás da meta de fome zero

Santiago, 19/05/2006 – Apesar da enorme produção alimentar da América Latina e do Caribe, há muita fome na região. Mas cada nação terá de traçar seu próprio plano para combatê-la, pois as dimensões do problema e os avanços alcançados variam consideravelmente de país para país. Com vistas ao cumprimento do Primeiro Objetivo do Milênio, de reduzir à metade a proporção da população que passa fome até 2015, 28 países da América Latina e do Caribe, participantes da Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), estabeleceram erradicar a fome até 2025.

Para alcançar o compromisso assumido pelas nações da região reunidas há um mês na Venezuela, é necessária a aprovação de leis de segurança alimentar e implementar políticas específicas, alertou o Escritório Regional da FAO. ?O principal desafio dos países é criar políticas sociais específicas para combater a fome, programas localizados territorialmente, que criem oportunidades de geração de emprego e renda para os mais pobres?, disse à IPS José Graziano da Silva, chefe do escritório regional, com sede em Santiago do Chile.

?Para isso é necessário dimensionar a população faminta, ver onde está. Muitos países ainda não têm estatísticas, números. Criar um plano é muito importante?, acrescentou o especialista, que no dia 17 apresentou as conclusões da 29ª Conferência Regional da FAO, realizada em Caracas, Venezuela, entre 24 e 28 de abril. Graziano destacou a grande participação de autoridades governamentais na reunião que acontece a cada dois anos para revisar as atividades realizadas e formular recomendações, sugestões e desafios aos governos em matéria agrícola, florestal e pesqueira.

Vinte e oito países de um total de 33 (não compareceram Guiana, Antígua e Barbuda, Paraguai, Belize e Barbuda) estabeleceram erradicar a desnutrição até 2025, segundo a proposta apresentada pelos governos do Brasil e da Guatemala durante a Cúpula Latino-americana sobre Fome Crônica, realizada na Guatemala em setembro passado. De acordo com os últimos dados da FAO, na América Latina e no Caribe há 53 milhões de desnutridos, equivalentes a 10% da população, com enormes diferenças entre países.

Enquanto em sete nações da região a desnutrição flutua acima de 21% da população, em outras fica abaixo de 9%. Paradoxalmente, a América Latina e o Caribe são a principal região produtora de alimentos do mundo. O escritório regional foi encarregado pelos países de promover, a partir do segundo semestre deste ano, um programa focado em três aspectos fundamentais: melhoria do acesso a alimentos, aumento da produção e da produtividade da agricultura familiar, e impulso de políticas de segurança alimentar urbana.

Em sua primeira ação, a entidade recomendou aos 28 países que adotem as 19 ?Diretrizes Voluntárias? que a FAO aprovou em 2004, que ? apoiarão a realização progressiva do direito a uma alimentação adequada no contexto da segurança alimentar nacional?. A organização considera que estas orientações deveriam estar contidas em leis de segurança alimentar, que estabeleçam constitucionalmente o direito à alimentação em cada país, matéria em que a Guatemala está à frente. No dia 6 de abril de 2005, o Congresso guatemalteco promulgou a Lei de Segurança Alimentar, que estabeleceu o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e a Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional da Presidência. Atualmente, o Congresso brasileiro discute um projeto semelhante.

Na América Latina e no Caribe, a principal causa da desnutrição é o insuficiente acesso aos alimentos: boa parte de sua população não tem dinheiro suficiente para comprá-los ou não tem recursos necessários para produzi-los em um sistema de auto-consumo. Entre 1992 e 2002, o número de desnutridos na região caiu de 59,5 milhões para 52,9 milhões de pessoas, isto é, baixou de 13% para 10% da população total. Mas este avanço não é suficiente e a tendência decrescente parece paralisada, o que pode impedir que muitos países alcancem o Primeiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio.

Se for mantida a curva atual, a desnutrição na região afetará 40 milhões de pessoas entre 2015 e 31,2 milhões em 2025. A América Central e o Caribe seriam as regiões com os piores índices e haveria nove países que não alcançariam a Primeira Meta do Milênio. Se for examinado o progresso na redução da fome na última década e as possibilidades de erradicá-la em 2025, pode-se classificar os países em quatro grupos. O primeiro inclui Argentina, Costa Rica, Cuba, Chile, Equador e Uruguai, que estão em condições de atingir esse objetivo se mantiverem os atuais esforços e recursos.

Mais atrás estão os países que precisam de esforços adicionais aos planos e projetos atualmente em curso, entre eles Brasil, México, El Salvador, Jamaica, Trinidad e Tobago, Guiana e Suriname. O terceiro grupo, integrado por Bolívia, Colômbia, Paraguai, Peru e Venezuela têm ?necessidades médias de investimento?, segundo a FAO. E, por fim, estão os países que exigem esforços e investimentos maciços para alcançar a meta de erradicar a fome até 2025, entre os quais se destacam Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá, República Dominicana e Haiti.

Segundo Graziano, o momento político da região é desfavorável. ?Estamos passando por mudanças em muitos países, sendo que em 2007, 15 vão mudar de presidente. Mas o que vimos até agora é que os novos governos estão dando uma ênfase muito maior ao combate à fome e à pobreza extrema. Embora com algumas dificuldades, está crescendo a integração latino-americana?, afirmou. De todo modo, acrescentou que não basta o compromisso político, sendo necessários programas concretos que, entre outras coisas, deveriam desenvolver a capacidade local para tornar sustentáveis as mudanças internas dos países. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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