América Latina-UE: Cúpula de Viena a serviço das corporações

Viena, 09/05/2006 – Às vésperas da quarta Cúpula América Latina/Caribe-União Européia, que acontecerá na próxima sexta-feira, o bloco europeu aplica suas políticas de comércio e investimentos como agressivos instrumentos de dominação econômica a serviço de suas grandes corporações transnacionais, afirmaram analistas independentes. "A UE se esmera em aparecer como uma potência inclinada à paz mundial e ao desenvolvimento dos países do Sul, e como uma alternativa aos Estados Unidos", disse à IPS o especialista em política Stephen Schmalz, da Universidade de Marburgo (Alemanha) e estudioso das relações entre Europa e América Latina.

"Na realidade, a UE colocou em prática uma estratégia global voltada para a América Latina que consiste em forçar numerosos acordos de livre comércio e investimentos com as diferentes regiões do continente americano favoráveis às multinacionais européias", afirmou Schmalz. "Na cúpula em Viena, estes tratados ocuparão as principais discussões", acrescentou. Chefes de Estado e de governo de 60 países da Europa, América Latina e do Caribe se reunirão em Viena no próximo dia 12. Estas conferências começaram no Rio de Janeiro em 1999, prosseguiram em Madri em 2002 e em Guadalajara (México) em 2004.

Após conseguir a aprovação de acordos de associação com os governos do México e do Chile, a UE implementa tratados de livre comércio com a América Central, a Comunidade Andina de Nações (CAN, formada por Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela), bem como com o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Estes acordos estão baseados no Tratado de Livre Comércio da América do Norte (conhecido pela sigla em inglês Nafta), entre México, Estados Unidos e Canadá, que entrou em vigor dia 1º de janeiro de 1994, sobretudo nas limitações que impões aos Estados-membros para legislar em matéria de proteção do meio ambiente e dos direitos dos trabalhadores, segundo Schmalz. Tais limitações à soberania nacional na América Latina favorecem as multinacionais européias, ressaltou.

Além disso, os tratados de livre comércio prevêem a redução gradual das tarifas alfandegárias latino-americanas sobre produtos agrícolas e industriais, até seu desaparecimento total em poucos anos, em detrimento dos pequenos e médios produtores da região, afirmou o especialista. A comissária de Relações Exteriores e de Política Européia de Vizinhança, Benita Ferrero-Waldner, disse que a UE espera concretizar em Viena "o êxito dos dois acordos de associação com México e Chile, as negociações avançadas com o Mercosul (…) acordos de associação com a CAN e a América Central".

Em um documento de estratégia a propósito da cúpula de Viena, a Comissão Européia – órgão executivo da UE – também destaca a importância que se dá aos tratados bilaterais de livre comércio com as regiões andinas. "Durante os próximos anos, a Comissão trabalhará para estabelecer uma associação estratégica reforçada mediante uma rede de Acordos de Associação e de Livre Comércio da qual participem todos os países da região, e para aprofundar os acordos vigentes com México e Chile", diz o documento divulgado em dezembro de 2005. O documento acrescenta que "brevemente chegaremos ao final do ciclo com os futuros acordos de associação com as sub-regiões (Mercosul, CAN e América Central) e com o Acordo de Associação Econômica com os países do Caribe".

Segundo estatísticas européias oficiais, o comércio entre a UE e a América Latina em 2005 aumentou 13% em relação a 2004, beirando os US$ 150 bilhões, um recorde na história do intercâmbio bilateral. À primeira vista, a América Latina aparece como ganhadora nestes fluxos comerciais, com um superávit anual de quase US$ 100 bilhões, apesar de a UE continuar resistindo a pressões internacionais para abrir seus mercados a produtos agrícolas e também industriais procedentes dos países em desenvolvimento, especialmente dessa região americana. Na realidade, as exportações européias para a América Latina aumentaram em 13,7%, enquanto suas importações de produtos latino-americanos cresceram 12,4%.

Outros aspectos a serem tratados em Viena são a cooperação para o combate ao tráfico de drogas, ao crime organizado e o terrorismo, bem como em questões de migrações, ciência e tecnologia, e de energia, entre outros. Além da cúpula de chefes de Estado e de governo, estão previstas uma reunião de ministros de Assuntos Exteriores nesta quinta-feira, cúpulas sub-regionais no sábado, bem como o Fórum Empresarial, na sexta-feira, que reunirá diretores-gerais empresariais das duas regiões.

Para Olivier Hoedeman, membro do não-governamental Observatório Europeu das Multinacionais (CEO), um possível debate entre representantes de governos latino-americanos, como o da Bolívia, e de autoridades e empresários da Europa sobre a estatização de serviços públicos poderá ser um dos momentos fortes do fórum empresarial. O CEO observa e critica a expansão internacional das empresas privadas européias. "A nacionalização do gás na Bolívia constitui um duro golpe para algumas das multinacionais mais poderosas e influentes da Europa", disse Hoedeman à IPS. Entre outras companhias aparecem a francesa Total e a espanhola-argentina Repsol YPF. Hoedeman recordou que a Bolívia esteve à frente de debates similares sobre a estatização de outros serviços públicos na América Latina, como a água.

Hoedeman afirmou que a União Européia continua utilizando políticas de comércio e investimentos concebidas durante a década de 90, sem levar em conta as radicais mudanças políticas ocorridas no continente americano nos últimos 10 anos, motivados pelo descontentamento popular com os governos defensores de privatizações e de políticas econômicas neoliberais em geral, caracterizadas pela abertura às importações e o desmantelamento do Estado.

A UE é a principal fonte de sustentação do projeto de privatização dos serviços públicos nos países em desenvolvimento contido no chamado Acordo Geral sobre o Comércio e os Serviços, em discussão na Organização Mundial do Comércio há seis anos. "Este modelo apoiado pela União Européia segue a lógica das multinacionais da Europa, concebida há mais de 15 anos e que fracassou em sociedades dos países em desenvolvimento, como nos casos da água na Bolívia e Argentina", disse Hoedeman. O governo boliviano rescindiu em 2005 o contrato com a empresa francesa Suez Lyonnaise des Eaux, após protestos de moradores que reclamavam das tarifas altas e do mau serviço.

A Águas Argentinas, também controlada pela Suez, estava envolvida, desde 2002, em um litígio contra o Estado argentino pelo aumento de tarifas e por deixar de prestar diversos serviços de água potável e saneamento. O governo rescindiu seu contrato este ano. "Mas a União Européia parece não se dar conta deste fracasso e das mudanças políticas ocorridas na América Latina e insiste em defender a privatização e o neoliberalismo", acrescentou Hoedeman. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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