São Caetano (PE), 09/05/2006 – A música de Mozart transformou a pequena e pobre cidade de São Caetano, esquecida no interior de Pernambuco, quando há 13 anos sua orquestra de crianças começou a ganhar fama nacional e internacional. A Banda Sinfônica do Agreste, mais conhecida como "Meninos de São Caetano", embora já sejam adultos, se apresenta nos melhores teatros do Brasil e de vários países europeus desde meados dos anos 90. Constitui a parte mais visível de um projeto que também compreende a Fundação Música e Vida, na qual 200 crianças recebem ensino musical e reforço escolar.
O autor da façanha, Mozart Vieira, que tem como nome o sobrenome do famoso compositor austríaco Wolfgang Amadeus, em evidente indicação da paixão herdada de sua família. "Ele mudou minha vida e a mentalidade da minha família", disse à IPS Maria Lauciete da Silva, atraída ao coro formado pelo "maestro" Mozart há 22 anos. Hoje, aos 30, ela ensina oboé na Fundação, como recém-formada na universidade, e também dá aulas de canto a um grupo criado por uma empresa.
Filha de uma família pobre de camponeses, Lauciete teve de trabalhar para financiar seus estudos, que também incluíram graduação em língua portuguesa. "Sempre quis ser professora", contou, mas agora realiza sua vocação na música. Teve de vencer a resistência dos pais que "rejeitavam a música como profissão". Na cultura local, cabe às mulheres "o trabalho doméstico ou de ensino" como únicas alternativas. E a formação clássica "agravou o choque", mas pouco a pouco a família a aceitou e hoje um de seus irmãos estuda clarinete.
Lauciete é um dos 17 integrantes da banda atual, as primeiras crianças que agora já são maiores de 25 anos, são músicos reconhecidos, tocam ou ensinam em instituições de outras cidades e estudam em universidades, mas nos finais de semana se reúnem na Fundação para dar aula como voluntários e ensaiarem em conjunto. Outro exemplo é Íris Vieira do Nascimento, única mulher que toca trombeta em uma orquestra sinfônica brasileira. Ela conseguiu o primeiro lugar em um concurso para a Orquestra do Recife, contou com orgulho Mozart à IPS.
São estes músicos da primeira geração formada por ele os que garantem a maior parte dos recursos para a Fundação, contribuindo com o dinheiro conseguido pela orquestra ou por suas atividades individuais remuneradas. São discípulos fiéis e garantidores da iniciativa. "Posso sair para uma apresentação no exterior, mas volto para São Caetano", garante Lauciete. A banda inicial de 35 componentes foi reduzida à metade para facilitar as apresentações em locais distantes, ao baratear os custos de passagem e hotel, explicou o maestro. Seu sonho é que algum patrocínio ou outra fonte de recursos lhe permita garantir a sobrevivência e ampliação da Fundação. A sede tem capacidade para receber apenas 200 alunos, mas por anos se apresentam entre 400 e 500 candidatos, ressaltou.
Lauciete também desenha uma ajuda financeira permanente. "Não posso continuar como voluntária a vida toda" e, além disso, a Fundação poderia fornecer refeições aos alunos, quase todos muito pobres, afirma. A Fundação existe há 13 anos, estruturou a ação social e musical iniciada por Mozart Vieira em 1978, quando tinha 15 anos. Seu primeiro impulso, inspirado por um avô músico e filantropo, foi ajudar as crianças pobres da cidade, ao ver que quase diariamente eram enterrados "caixões de anjos" no cemitério vizinho. "Às vezes doava aos pobres alimentos que faltavam em minha casa", contou.
A idéia de empregar a música surgiu ao observar o interesse que ele despertava nas crianças mais rebeldes quando tocava violão. Formou um coral, tocava nos bairros pobres e, desde então, trabalha "de domingo a domingo" em seu projeto. Depois percebeu a necessidade de estudar mais para continuar ensinando, e freqüentou por 10 anos o Conservatório Musical do Recife e uma universidade distante onde se graduou em flauta transversa. Atualmente, cursa mestrado em direção orquestral. A Fundação Música e Vida está integrada ao Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e recebe dezenas de crianças cujas famílias recebem uma ajuda financeira do governo para tirar os filhos do trabalho e mantê-los na escola. "Se reconhece sua importância social", afirmou à IPS a secretária municipal de Assistência Social de São Caetano, Lúcia Marquim.
Esta iniciativa musical criou novas oportunidades de trabalho para a população mais pobre da cidade, além de "formar verdadeiros cidadãos", destacou Mozart Vieira. Muitos de seus ex-alunos hoje são músicos de bandas militares e outras instituições. Está em marcha também um processo para seu reconhecimento oficial como escola profissional de nível secundário pelo governo de Pernambuco, fato que abre novas possibilidades para financiar suas atividades. No momento, seu ensino é complementar, e exige-se dos alunos que sejam bons estudantes em escolas regulares.
A música melhora o desempenho escolar, afirmou Maria José dos Santos, de 17 anos, que estuda oboé com Lauciete e afirma "conhecer crianças endiabradas que se disciplinaram e ganharam interesse nas aulas". É "um trabalho impressionante, humanista", onde a música promove a "redenção das pessoas", definiu o cineasta Paulo Thiago, que decidiu fazer um filme sobre o trabalho do maestro Mozart. Será uma obra de ficção, mas "baseada em fatos reais", com o roteiro quase pronto e as filmagens previstas para o último trimestre deste ano.
Uma parte do filme tratará da ação "agressiva, violenta" que Mozart sofreu há 11 anos, acusado de ter promovido o seqüestro de um de seus alunos, que apareceu com sinais de violência e inconsciente por efeito de alguma droga. Essa foi uma reação dos "coronéis" da política local, temerosos da popularidade do maestro que viam como possível adversário, segundo o cineasta que investigou extensamente o caso. Thiago é autor de "Coisa mais linda", sobre o movimento musical da bossa nova.
Mozart enfrentou a resistência ao seu trabalho desde o início. "Era chamado de louco" e ninguém acreditava que pudesse ter sucesso, recorda José Fernandes da Silva, comerciante local, para quem "viver no nordeste é uma arte", por causa da pobreza e da falta de empregos. Mas os alunos "resgatados da lama" têm hoje capacitação para enfrentar a vida e uma casa onde viver, ao contrário do professor que habita uma casa cedida por seu pai, acrescentou. Silva, com membro da direção da Fundação, acompanhou a banda em uma recente viagem pela França. "Sem a música de Mozart jamais teria viajado ao exterior", admitiu. A música tornou São Caetano conhecida no Brasil e no mundo, atraindo turistas, lembrou Caetano Vieira, secretário de Cultura, Turismo e Esporte do município, anunciando que nos próximos dias receberá 60 franceses interessados em visitar a "cidade da música". (IPS/Envolverde)

