Viena, 15/05/2006 – Quando os delegados das monarquias européias, entre setembro de 1814 e junho de 1815, discutiram nesta cidade o novo traçado do mapa de poder regional ao fim da hegemonia francesa pela derrota nas guerras napoleônicas, os resultados das negociações não foram evidentes de imediato. A paralisação nesses debates de Viena, então capital do império austro-húngaro, levou o diplomata Charles Joseph, também conhecido como duque de Ligne, a afirmar: "O congresso não avança; dança". No sábado, após o encerramento da IV Cúpula América Latina/Caribe-União Européia, que se realizou na capital da Áustria, o primeiro-ministro anfitrião, Wolfgang Schüssel, parafraseou o duque de Ligne, ao dizer que o mais importante da reunião foi que "todos puderam falar com todos". Nesse sentido, o encontro dos chefes de Estado e de governo dos 25 países-membros da UE e os 33 latino-americanos e caribenhos talvez não tenha conseguido avanços, mas propiciou o diálogo. De fato, as delegações governamentais participaram de aproximadamente 300 reuniões bilaterais, seja entre as duas regiões ou entre os próprios latino-americanos. Entre as últimas destacou-se a que foi mantida entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Evo Morales, da Bolívia, que contribuiu para reduzir as tensões entre os dois países provocada pela nacionalização dos hidrocarbonetos pelo governo boliviano no último dia 1º e que afeta principalmente a Petrobras.
A Bolívia, que tem a segunda maior reserva de gás da América do Sul, depois da Venezuela, e o Brasil, com a Petrobras sendo a principal operadora em território boliviano, são "grandes aliados como países, como presidentes, como governo", afirmou Morales. "Neste contexto, jamais poderão fazer com que nos enfrentemos", acrescentou em entrevista coletiva após reunião com Lula. Fontes próximas do presidente boliviano disseram à IPS que nesta semana serão iniciadas negociações diretas com seus vizinhos para fixar preços de venda do gás natural exportado pela Bolívia, que tem como principais clientes Brasil e, em seguida, a Argentina.
Por sua vez, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, que na véspera havia se manifestado "indignado" pelas expressões de Morales sobre a legalidade, ou não, em que atua a Petrobras, afirmou após o encontro entre os dois presidentes que os dois países vão "superar a página dos maus-entendidos". A atenção que Morales atraiu também se constituiu em outro êxito, pois mostra que a Europa se conscientiza das mudanças sociais, econômicas e geopolíticas que implicam para a América Latina a chegada ao governo da Bolívia de um indígena, o primeiro nesse país onde 60% de seus 9,2 milhões de habitantes se declaram descendente de algum povo originário. A população indígena, majoritária em vários países da região, continua sendo a principal vítima da pobreza e marginalização provocadas originalmente pela conquista européia, há mais de 500 anos.
Schüssel, que no sábado se reuniu com a presidente do Chile, Michelle Bachelet, enfatizou que na Cúpula "houve contatos muito intensos entre os membros da comunidade Andina de Nações (CAN)", que havia chegado à Viena dividida pelas contraditórias posições de seus governos sobre os tratados de livre comércio com os Estados Unidos.
Venezuela e Bolívia discordam radicalmente dos tratados assinados com Washington por Colômbia e Peru e do que o Equador negocia, todos eles integrantes da CAN, por entenderem que são incompatíveis com a integração latino-americana. Como outro resultado favorável da reunião de Viena, o chefe de governo austríaco mencionou "a obrigação que a UE se auto-impôs de duplicar o comércio com a América Latina no prazo de cinco anos", e sugeriu que este aumento pode criar até cem milhões de empregos dos dois lados do Atlântico. "Estes postos de trabalho beneficiaram os jovens", disse Schüssel.
Embora a cúpula tenha terminado oficialmente na sexta-feira, no sábado aconteceram reuniões bilaterais entre a UE com Chile e México, bem como o fizeram representantes de todas as regiões da América Latina e do Caribe. Tanto Bachelet quanto seu colega mexicano, Vicente Fox, enfatizaram nestes encontros bilaterais que os acordos de associação com a União Européia, vigentes desde 2000, com o México, e desde 2003 com o Chile, contribuíram para aumentar o intercâmbio comercial com a Europa, propiciando maior dinâmica em suas respectivas economias nacionais. Bachelet afirmou que o tratado com o bloco europeu "beneficia amplamente o povo chileno".
As exportações do Chile para a UE aumentaram 115% desde então, enquanto o investimento europeu nesse país superou os US$ 5 bilhões, que representam cerca de 60% dos capitais externos diretos que entraram nesse mesmo período, acrescentou a presidente chilena. O comércio do Chile com a União Européia chega atualmente a mais de US$ 10 bilhões, o que faz com que esse bloco seja seu sócio mais importante fora da América Latina, recordaram as duas partes. Resultados semelhantes de associação México-UE foram anunciados depois da reunião bilateral de sábado.
"Durante os cinco anos de aplicação do tratado, México e UE passaram a ser sócios comerciais preferenciais, fortes e estratégicos, tanto na América Latina quanto em nível internacional", afirmaram as duas delegações em declaração conjunta divulgada sábado. Estes dois acordos servirão com exemplo dos que começarão a ser negociados pela União Européia com a América Central e para o que está em processo com a CAN. Com relação à região do Caribe, a UE saudou a criação de um mercado único a partir de janeiro na região, "que constitui o primeiro componente (de integração) do mercado e da economia" nessa zona.
Além disso, a União Européia anunciou que estuda a criação de um Fundo de Desenvolvimento Regional, bem como a inclusão no programa de cooperação internacional destinado ao Caribe, de apoios específicos para o desenvolvimento do mercado único caribenho. A UE também anunciou a criação de um instrumento de assistência para atender os efeitos das catástrofes de origem natural que o Caribe sofre de maneira constante, como as provocadas por furacões, bem como para renovar seus esforços a fim de permitir melhor acesso ao seu mercado de produtos agrícolas dessa região, com açúcar e banana. (IPS/Envolverde)

