Estados Unidos: À procura de inimigos

Washington, 09/05/2006 – Como se seus esforços para manter a cada vez mais polêmica ocupação do Iraque e para lançar ataques preventivos contra o Irã não fossem suficientes, os "falcões" no governo dos Estados Unidos agora promovem uma atitude desafiante também em relação à China e Rússia. A ansiedade desse grupo em conseguir novos e maiores inimigos se viu refletida nas duras declarações feitas pelo vice-presidente, Dick Cheney, sobre a Rússia na semana passada, nas quais acusou Moscou de se afastar da democracia e "chantagear" outros países com sua política energética.

A ofensiva verbal poderia ser parte de uma estratégia para amedrontar China e Rússia num momento em que os Estados Unidos e a União Européia parecem gozar de uma maior coincidência em assuntos de política internacional. As duas potências euro-asiáticas, inicialmente aliadas na "guerra mundial contra o terrorismo", agora são vistas por Washington como os maiores obstáculos para que o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas adote sanções contra o Irã, que é a atual prioridade do governo do presidente George W. Bush em matéria de política externa.

O Irã poderia ser castigado pelo Conselho por não ter suspendido seu plano de enriquecimento de urânio. Teerã argumenta que esse programa tem fins pacíficos, mas os Estados Unidos e outras potências da Europa suspeitam de que, na verdade, pretende fabricar armas atômicas. Os falcões em Washington acreditam que colocar China e Rússia na defensiva poderia servir para persuadi-los a avaliar sanções contra o Irã. Entretanto, também correm o risco de as duas potências reagirem com uma oposição mais forte aos planos estratégicos norte-americanos, especialmente quanto aos desejos de isolar Teerã e ganhar mais controle sobre o fluxo de petróleo e gás na Ásia central e no Cáucaso.

Além disso, poderiam gerar tensões com a UE, com as surgidas às vésperas da invasão norte-americana ao Iraque há três anos. A atual harmonia com a Europa poderia evaporar se Washington não atendesse os crescentes pedidos de seus aliados para que ofereça ao Irã garantias de segurança em troca de um verificável congelamento de seu plano de desenvolvimento nuclear. "Não vejo como criando inimizade com o presidente russo, Vladimir Putin, neste momento em particular possa fazer com que ele nos apóie na questão iraniana. Não acredito que os europeus considerem isso uma boa idéia neste momento", disse um conselheiro em política externa do Congresso norte-americano.

Os falcões (aliança de neoconservadores, nacionalistas agressivos e a direita cristão) são hostis aos processos multilaterais, em geral, e à ONU, em particular. Seus postulados sobre política exterior rejeitam o pragmatismo e formulam os conflitos em termos morais. Do outro lado estão os "realistas", aqueles que preferem a ação multilateral e dão prioridade ao fortalecimento das alianças tradicionais de Washington, especialmente a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

A postura da administração Bush em relação à China e Rússia endureceu no último ano por várias razões, incluindo o que parece ser uma estratégia conjunta de Pequim e Moscou para expulsar soldados norte-americanos das bases militares do Uzbequistão e em outras zonas da Ásia central. A Casa Branca também está descontente pela relação que China e Rússia mantêm com países que considera "hostis", entre eles Sudão e Bielorússia, bem como pela reticência das duas potências em responder às preocupações de Washington em assuntos bilaterais e pressionar o Irã e a Coréia do Norte para que concordem em negociar a respeito de seus respectivos planos de desenvolvimento nuclear.

Os líderes chineses ficaram descontentes quando a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, afirmou em março, durante uma viagem pelo sudeste asiático, que Pequim estava se convertendo em uma "força negativa" na Ásia. O cortejo diplomático que Washington faz ao Japão e à Índia para ganhá-los como aliados contra Pequim, no que chama de estratégia "rodeio", tampouco ajuda a promover a confiança. Nesse contexto, as gafes e os erros cometidos durante a visita feita há duas semanas à capital norte-americana pelo presidente chinês, Hu Jintao – desde ter tocado o hino de Taiwan até permitir o acesso à Casa Branca de um ativista do movimento espiritual Falun Gong, proscrito por Pequim – foram interpretados pelos líderes chineses como ações deliberadas de parte de um setor do governo Bush para envergonhar o mandatário asiático.

Além disso, a arremetida de Cheney contra a Rússia – possivelmente o maior ataque verbal norte-americano contra Moscou desde que assumiu a administração Bush em 2001 – parece sugerir que os falcões estão novamente em alta dentro da Casa Branca. Entre outras coisas, Cheney acusou Moscou de utilizar seu controle sobre recursos energéticos-chave como ferramenta para "intimidar ou chantagear" seus vizinhos, "afetando sua integridade territorial e interferindo nos movimentos democráticos" locais. O vice-presidente norte-americano disse tudo isso durante uma conferência da Otan e da UE na Lituânia, e apenas dois meses antes de Putin assumir a presidência do Grupo dos Oito países mais poderosos, na cidade russa de San Petesburgo.

"Quando se faz esse tipo de declaração, sempre se deve ter em mente qual será a reação da outra parte, e para mim é difícil imaginar que a Rússia simplesmente vá concordar com estas reprovações", disse o analista político russo Vyacheslav Nikonov ao jornal britânico Financial Times. De fato, é possível que a nova postura de Washington fortaleça os políticos de linha dura em Pequim e Moscou, o que dificultaria conseguir seu apoio no caso do Irã e na "guerra contra o terrorismo". Mas segundo o analista neoconservador Robert Kagan, os falcões estariam colocando em risco objetivos ainda mais importantes.

Em uma coluna no jornal The Washington Post publicada domingo, Kagan diz que o governo Bush compete contra essas potências, na realidade, por recursos energéticos essenciais. Kagan é casado com Victoria Nuland, ex-vice-conselheira em segurança nacional de Cheney e agora embaixadora dos Estados Unidos na Otan. "Até agora, a estratégia do Ocidente tem sido a de tentar integrar estas duas potências à ordem liberal internacional, para domesticá-las e fazê-las seguras para o liberalismo", escreveu Kagan, co-fundador do neoconservador Project for te New American Century (Projeto para o Novo Século Norte-americano) junto com o editor do semanário The Weekly Standard, William Kristol.

"Mas se China e Rússia vão ser sólidos pilares de autocracias nas próximas décadas, não se pode esperar que abracem a visão ocidental da inexorável evolução da humanidade para a democracia", acrescentou Kagan. O analista acusou Pequim e Moscou de proteger "uma liga informal de ditadores", na qual incluiu os governantes de Angola, Bielorússia, Birmânia, Irã, Sudão, Uzbequistão, Venezuela e Zimbábue, entre outros. "A questão aqui é que Estados Unidos e Europa decidirão fazer em resposta. Lamentavelmente, a rede terrorista Al Qaeda não é o único desafio a ser enfrentado hoje pelo liberalismo, e nem mesmo o maior", afirmou Kagan. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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