Washington, 15/05/2006 – Os Estados Unidos apresentam o conflito em razão do programa nuclear do Irã como um assunto de segurança nacional. Por isso, desenha uma ameaça nuclear iraniana em aberto desafio à comunidade internacional. Mas o conflito, segundo especialistas independentes dos dois países, responde, na realidade, a dois interesses contrários: o propósito do governo de George W. Bush de ampliar seu domínio no Oriente Médio, e o do Irã de ser reconhecido como potência regional. Agora se sabe que Teerã propôs a Washington, em abril de 2003, um diálogo sobre os assuntos que os separam: seu programa nuclear; seu apoio ao Partido de Deus (Hezbollah), do Líbano, e a outras organizações armadas anti-israelenses e sua hostilidade em relação ao Estado judeu.
O regime islâmico iraniano já tinha, então, o convencimento de que o governo Bush planejava avançar contra ele depois de provocar a queda do regime de Saddam Hussein no Iraque (1979-2003). O Irã ofereceu concessões concretas e relevantes em todos os assuntos em conflito. Mas Bush se recusou a responder à proposta de diálogo, levado pelo vice-presidente, Dick Cheney, e pelo secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. Portanto, o suposto desenvolvimento de armas nucleares não era a principal preocupação dos Estados Unidos em relação ao Irã. Na visão de Washington, importa mais negar legitimidade à República Islâmica do Irã do que impedir através da diplomacia que esse país fabrique bombas atômicas.
A real objeção para que o Irã se converta em uma potência nuclear é que enfraqueceria o "projeto norte-americano de transformar o Oriente Médio", admitiu em outubro o especialista Tom Donnelly, do centro acadêmico neoconservador American Enterprise Institute. Donnelly, subdiretor-executivo entre 1999 e 2002 do também neoconservador Projeto para o Novo Século Norte-americano (PNAC) e autor de "Reconstruir a defesa dos Estados Unidos", fez essa afirmação em um ensaio intitulado "Nos preparando para um Irã nuclear". Mas esse estudo contradiz a linha oficial do governo, segundo a qual o Irã é um Estado radical que ameaça afundar o Oriente Médio na guerra. O especialista considera, por outro lado, que o regime islâmico representa "a potência do statu quo" da região.
A invasão do Iraque "quase acabou por cercar completamente o Irã com forças militares norte-americanas", numa referência às já postadas na Turquia e no Afeganistão, ao mesmo tempo em que Teerã se via incapaz de conter a presença dos Estados Unidos na região, afirmou. Donnelly escreveu que um "Irã nuclear" é um problema, mas não tanto a ponto de usar suas armas ou entregá-las a organizações terroristas, mas pelo "efeito de contensão" que a posse desse arsenal "ameaça impor à estratégia de Washington" no Oriente Médio. O "maior perigo", segundo o especialista, é que os "realistas" (a ala da elite das relações exteriores norte-americanas contrária aos neoconservadores) procurem um "equilíbrio de poder" com um Irã nuclear, "minando a estratégia de libertação de Bush".
Então, o que está realmente em jogo no enfrentamento com o Irã, desde a perspectiva do governo Bush e de Donnelly, é a oportunidade de reordenar a hierarquia de poder no Oriente Médio tornando-a ainda mais favorável aos Estados Unidos, através da queda do regime islâmico em Teerã. Por sua vez, o Irã não admite seu real interesse em levar sua posição no enriquecimento de urânio ao nível de confronto com os Estados Unidos. Por outro lado, se concentra em fazer pronunciamentos públicos para ressaltar uma posição muito popular: que não renunciará ao seu direito à energia nuclear para uso civil.
Segundo observadores familiarizados com o pensamento da Revolução Islâmica, funcionários de segurança nacional iranianos ressaltam, em particular – e há muito tempo- a necessidade de normalizar as relações com os Estados Unidos de um modo que implique o reconhecimento do legítimo papel do regime na segurança do Golfo. Trita Parsi, especialista em política externa iraniana da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade John Hopkins, considerou, após entrevistar numerosos funcionários de segurança em Teerã o ano passado, que o regime "basicamente procura se reabilitar na ordem política da região".
A jornalista iraniana Najmeh Bozorgmehr, que trabalha no Instituto Brookins, concorda com essa visão. "O Irã quer negociar seu papel regional com os Estados Unidos", bem com remover as sanções contra o país e obter garantias de que ao será alvo de ataque, afirmou. O regime iraniano busca elementos que melhorem sua posição negociadora, e "o enriquecimento de urânio se mostra excelente para essa negociação", acrescentou. Depois que os Estados Unidos rejeitaram a oferta negociadora de 2003, a visão que prevalece em Teerã é que a de que conta com capacidade para causar alguma dor de cabeça a Washington a fim de atrair sua atenção, segundo Parsi.
Em uma análise que coincide com a de Donnelly, a recusa ao diálogo confirmou as suspeitas iranianas: o problema dos Estados Unidos não são as políticas do Irã, mas seu poder na região. O que Teerã busca, de acordo com os observadores, não são armas nucleares, mas um reconhecimento de seu status de potência do Golfo, o que só poderá obter através de um amplo acordo diplomático com Washington. Mas o propósito do governo Bush de garantir seu domínio sobre o Oriente Médio só poderá ser perseguido mediante a ameaça do uso da força, e, se isto falhar, com a guerra contra o Irã. (IPS/Envolverde)
(*) Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. "Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra do Vietnã" é seu último livro, publicado em junho de 2005.

