Futebol-Alemanha: Novo patriotismo sem culpas

Berlim, 20/06/2006 – Banderias negras vermelhas e douradas iluminam os rostos dos alemães. Também ondulam nos carros, e as pessoas idosas as colocam em suas jardineiras. Este tipo de comportamento seria considerado normal em qualquer país que participa da Copa do Mundo 2006 e que seja sede do torneio. Mas na Alemanha cria celeumas e debates, 61 anos depois da derrota na Segunda Guerra Mundial e da queda do regime nazista.

O orgulho nacional ainda é um assunto delicado neste país, a ponto de predominar certa fobia pelas grandes celebrações. Mas ao menos por ora, essa patologia se desfez, pelo menos até que no dia 9 de julho termine o Mundial organizado pela Fifa. Com os três milhões de turistas que terão visitado a Alemanha durante todo o mundial e os milhares de milhões que estarão diante das televisões em todo o mundo para apreciá-lo, este país desfruta a atenção que vem atraindo. Meio milhão de torcedores lotaram na noite do dia 14 o centro de Berlim depois da vitória da Alemanha sobre a Polônia por 1 a 0, se juntando em uma rua que teve o trânsito desviado para a instalação de enormes telões e numerosos pontos de venda de cerveja. Os torcedores alemães, bandeira na mão, aclamavam e abraçavam torcedores de outros países do mundo com canecas nas mãos.

"Nunca vi algo como isto", disse à IPS Christian, um fanático alemão de 32 anos, erguendo a voz para se fazer ouvir em meio aos ensurdecedores cantos. "De alguma forma é libertador que as pessoas possam agitar a bandeira sem culpas". Sessenta e um anos depois de derrotado o regime nazista, os alemães expressam com cautela seu orgulho nacional, segundo Paul Nolte, um historiador da Universidade Livre de Berlim, entrevistado pelo jornal Passauer Neue Presse. Mas neste Mundial o patriotismo está mais presente do que nunca, acrescentou Nolte, que deixou de lado as grandes emoções de 1990, quando a Alemanha Ocidental venceu a Itália na Copa em meio à vertiginosa esperança que despertava a reunificação.

"Há um novo e espontâneo patriotismo sem precedentes na longa história da Alemanha. A geração que teve problemas com todo símbolo nacionalista já não é quem define a agenda. Isto abre uma nova relação, quase lúdica, com a bandeira nacional", disse Nolte. Este "enfoque lúdico" representa o auge de empresas como a fábrica de bandeiras Dommer, com sede em Stuttgart, que já vendeu dez vezes mais a quantidade de bandeiras do que no torneio anterior. A bandeira da Alemanha "schwarz rot gold" (Negra, vermelha e dourada) não tem nenhuma relação com o regime nazista, que havia adotado a suástica negra em um círculo branco sobre um campo vermelho.

Mas a culpa herdada da guerra por muito tempo limitou as demonstrações patrióticas, mesmo em acontecimentos esportivos. Angela Merkel, chefe de governo, que cresceu com o nacionalismo fomentado na Alemanha comunista, reconheceu que está acontecendo uma mudança. "As pessoas agitam bandeiras sem ter de se justificar. Há 15 anos, as coisas eram diferentes. Nossa relação com nosso país se transformou em uma coisa linda, normal e não-arrogante", disse Merkel ao jornal Bild am Sonntag. Como é tradicional na Alemanha, o novo patriotismo desencadeou um renovado estudo de consciência entre os líderes de opinião dos meios de comunicação.

O orgulho é bom, mas, de que se trata este entusiasmo pelo alemão do qual as pessoas estão tão orgulhosas? Que retrato do país se deve transmitir ao mundo? A primeira tentativa para caracterizar a Alemanha na Copa do Mundo foi controvertida. Na cerimônia de abertura foi organizado um grande círculo formado por homens vestindo "lederhosen" (Calças de couro até o joelho), tradicional do Estado da Baviera, que há muito deixou de ser típico para um morador de Berlim, Hamburgo ou Frankfurt. Mesmo o jornal mais vendido, o Bild, não alheio ao nacionalismo, brincou com a apresentação: "O mundo entre ledeerhosen", escreveu, parodiando o lema do campeonato "Die Welt zu Gast bei Freunden" (O mundo entre amigos).

A revista Der Spiegel, de um perfil mais intelectual, censurou o espetáculo dos lederhosen por exagerar a imagem que norte-americanos e australianos têm dos alemães. "Nenhum alemão de fora da Baviera se reconheceu na confusão reinante no estádio", protestou. A discussão que a Copa do Mundo inspira continua outra sobre o escorregadio conceito de identidade nacional, aberta no começo do ano. Políticos alemães provocaram um exaltado debate sobre o que define um alemão quando tentaram conceber uma prova para os imigrantes com intenções de conseguir a nacionalidade alemã.

Por outro lado, ataques neonazistas e a violência desatada em escolas secundárias onde a maioria dos alunos é de estrangeiros obrigaram os políticos a enfrentar a realidade cosmopolita do país. O interesse popular por este tema está refletido no livro de Matthias Matussek intitulado "Nós, Alemanha: Por que os outros podem ter carinho por nós". Este volume, que alcançou um grande sucesso de vendas, explica as razões pelas quais este país não deve evitar as possibilidades do atual contexto mundial. Entretanto, o crescente orgulho de ser alemão deve ser vigiado. Desde a reunificação em 1990 houve violentas manifestações e agressões neonazistas.

Antes da Copa do Mundo começar, um influente ex-porta-voz do governo alertava os turistas não-brancos a evitar algumas zonas da Alemanha oriental, onde suas vidas correriam perigo. O diretor da Fundação Heinrich Boell (vinculada com o Partido Verde), Ralf Fuecks, disse que se deve diferenciar claramente o nacionalismo do novo patriotismo. "Fico chocado ver tanta gente jovem com bandeiras alemãs caminhando por Berlim", disse à IPS. Fuecks, de aproximadamente 50 anos, contou que a política e a moral de sua geração foram moldadas por sentimento de culpa. "Este novo patriotismo procede de gente mais jovem que não sente culpa nem vergonha. Podem se sentir orgulhosos de serem alemães, mas é importante lembrarem que isso tem tanto elementos positivos quanto obscuros. Simplesmente, não temos direito de esquecer", afirmou. (IPS/Envolverde)

Jess Smee

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *