Nações Unidas, 20/06/2006 – A designação oficial do indiano Shashi Tharoor como candidato da Índia ao cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas irritou seu vizinho e rival Paquistão, que poderia propor sua própria candidatura. Tharoor, subsecretário-geral da ONU para Comunicações e Informação Pública, se converteu no último dia 15 em um dos quatro candidatos asiáticos a suceder Kofi Annan, que deixará o cargo no dia 31 de dezembro após dez anos na chefia da organização. O novo candidato é o novo indiano de maior hierarquia no sistema das Nações Unidas, onde trabalha desde 1978.
Tharoor tem doutorado na Escola Fletcher de Direito e Diplomacia da Universidade Tufts (EUA) e é autor de vários livros, entre eles a sátira política "A grande novela indiana". A lista de candidatos asiáticos se completa com Jayantha Dhanapala, de Sri Lanka; o vice-primeiro-ministro tailandês Surakiart Sathirathai, e o chanceler sul-coreano, Bhan Ki-Moon. Fontes políticas indicaram que o Paquistão poderia designar seu próprio candidato para irritar a Índia.
Sem confirmar essa possibilidade, o embaixador paquistanês na ONU, Munir Akram, afirmou que, ao pretender a secretaria geral, "a Índia renuncia à sua pretensão de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança" das Nações Unidas. O jornal Daily News %26 Analysis, de Mumbai (ex-Bombaim), especulou na edição de sábado que o candidato paquistanês poderia ser o próprio Akram ou a alta funcionária da ONU, Nafis Sadik, a enviada especial da Annan para HIV/aids.
Pela tradição da ONU, e que não consta de sua Carta, as grandes potências políticas e econômicas não podem aspirar a secretaria geral, o que deixa, teoricamente, fora do jogo Estados Unidos, Japão, Índia, China, Alemanha, França, Rússia e Grã-Bretanha. Como conseqüências, os secretários-gerais anteriores foram o norueguês Trygve Lie, o sueco Dag Hammarskjold, o birmanês U Thant, o austríaco Kurt Waldheim, o peruano Javier Pérez de Cuéllar e o egípcio Boutros Boutros-Ghali, que foi sucedido por Annan, de Gana. Porém se trata de uma tradição que pode ser quebrada, pois não está escrita.
A tradição também indica que o Conselho de Segurança, de 15 membros – cinco deles (China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia) com direito a veto sobre suas decisões- recomendam o candidato que usualmente é aprovado pela Assembléia Geral, que reúne os 191 Estados que integram a ONU. No mês passado, o diplomata aposentado T. P. Sreenivasan, que foi embaixador da Índia nos Estados Unidos e nas Nações Unidas, previu que Tharoor seria candidato e traçou um cenário possível que, até agora, foi cumprido. "O dilema para a Índia não é encontrar um candidato adequado. Trata-se da incompatibilidade entre aspirar à secretaria geral e, ao mesmo tempo, um lugar permanente no Conselho de Segurança, escreveu Sreenivasan.
"Mas desde que isso não parece constar entre as possibilidades, não deveríamos renunciar á opção de apresentar um candidato a secretário-geral", disse, referindo-se à obtenção de um posto permanente e com direito a veto no Conselho. Como a Índia seduziu os Estados Unidos na negociação de um acordo de cooperação nuclear que consolidou seu papel de possuidor de armas nucleares – e, o que é mais importante, com suas críticas às ambições nucleares do Irã – "não parece possível que Washington vete um indiano", previu Sreenivasan. Mas o fator desconhecido é o veto chinês.
Embora a China reafirme seu apoio para que o cargo seja ocupado por um asiático, poderia se mostrar reticente a que seja um indiano, devido ao forte vínculo entre Nova Délhi e Washington, que vê na potência do sul da Ásia um contrapeso militar e político frente a Pequim. Um simples veto pode condenar uma candidatura ao fracasso. Quando Boutros Boutros-Ghali se apresentou para um segundo mandato como secretário-geral no final de 1996, perdeu a eleição apesar de ter obtido 14 dos 15 votos do Conselho de Segurança. O veto dos Estados Unidos acabou com suas possibilidades de reeleição.
A Índia também poderia sofrer um contratempo como o de 1996, quando competiu com o Japão por uma cadeira rotativa no Conselho de Segurança. A votação foi esmagadora contra suas aspirações: 142 países apoiaram Tóquio e apenas 40 votaram em Nova Délhi. Segundo os padrões da ONU, foi um desastre político monumental. A votação foi secreta, o que permitiu à maioria dos países que havia garantido seu apoio, inclusive por escrito, quebrar a promessa. O Japão, por sua vez, usou seu poder econômico para seduzir os governos. Esta potência nuclear e política da Ásia meridional se redimiu quando foi eleita este ano para integrar o Conselho de Direitos Humanos, com 173 votos, mais do que os outros candidatos asiáticos: Bangladesh (160), Paquistão (149) e Sri Lanka (123). "É justiça poética que a maior democracia do mundo tenha a maior quantidade de votos", disse, na oportunidade, o embaixador da Índia na ONU, Nirupam Sen. (IPS/Envolverde)

