Havana, 14/07/2006 – A decaída indústria açucareira cubana pode começar a se recuperar no próximo ano, segundo especialistas, depois de um programa de investimentos aplicado ao setor para superar as duas safras mais baixas dos últimos cem anos. Os analistas do setor estimam que o rendimento da colheita finalizada no final de junho esteja em torno de 1,2 milhão de toneladas desse produto cru base 96 (qualidade padrão), cem mil toneladas a menos do que a safra anterior de 2004-2005. Tais produções não aproveitaram a alta dos preços do açúcar no mercado mundial, que atualmente estão, em média, em 17 centavos por libra (454 gramas), e apenas são suficientes para cobrir a demanda , de 700 mil toneladas, e a venda para a China, de aproximadamente 400 mil toneladas.
“Se a colheita do ano passado foi baixa, com esta se chegou ao fundo”, disse à IPS um especialista cubano que pediu para não ser identificado. Nos dois casos se desconhecem dados oficiais, embora não se descarte que o presidente Fidel Castro informe a esse respeito no próximo dia 26. Esta data, que marca o aniversário do assalto ao quartel Moncada, liderado pelo próprio Castro em 1953, é tradicionalmente celebrada com um ato maciço no qual o mandatário cubano costuma informar sobre a situação do país e seu contexto internacional. Em 2002, a indústria açucareira foi submetida a uma drástica reestruturação, com o fechamento de 70 dos 156 engenhos existentes no país, e Castro chegou a qualificá-la de “ruína” para o Estado diante dos baixos preços do produto no mercado internacional.
O ajuste inclui a destinação de aproximadamente 60% das terras plantadas com cana para outros cultivos e a migração de mais de cem mil trabalhadores, de um total de 400 mil, para outras tarefas ou sua incorporação a programas de estudo e capacitação. A colheita deste ano começou em janeiro e se prolongou até junho, contrariando a decisão inicial de não estendê-la mais além de abril. Além disso, dos 42 engenhos previstos para operar nessa fase, dois foram paralisados por insuficiência e 22 descumpriram o plano de produção. De acordo com especialistas, janeiro e fevereiro são os meses de maior rendimento na fabricação de açúcar, portanto, consideraram acertado e oportuno iniciar a safra no primeiro mês do ano, quando a cana está “em seu período de maior maturidade”.
Por outro lado, esse bimestre apresentou boas condições climáticas, com baixas temperaturas e pouca chuva, o que favoreceu a quantidade de sacarose na cana e a possibilidade de obter maior rendimento industrial e, conseqüentemente, mais açúcar. Porém, conspiraram contra a falta de peças de reposição para máquinas agrícolas, fertilizantes, herbicidas e outros itens imprescindíveis. “Perderam-se dois meses onde historicamente são obtidos os melhores rendimentos industriais”, afirmou a fonte consultada. Essa situação melhorou, em parte, depois de uma reunião entre Castro e diretores do setor, no dia 14 de fevereiro, depois da qual se decidiu revitalizar a indústria do açúcar mediante investimentos para o urgente fornecimento de recursos.
“O cenário que se avista para a safra 2006-2007 é mais animador e estimulante”, afirmam meios próximos ao setor açucareiro, os quais mencionaram, entre outros fatos positivos, a aplicação de fertilizantes e herbicidas nos cultivos de cana-de-açúcar. Essas fontes também consideraram muito favoráveis as chuvas que caem quase diariamente em todo o território cubano desde maio e o aumento em 30% das áreas semeadas. Embora a época das grandes safras não volte mais (entre 1980 e 1991 foram registradas produções entre seis milhões e oito milhões de toneladas de açúcar) com a revitalização do setor se pretende obter cerca de três milhões de toneladas nas próximas colheitas.
Por outro lado, uma disponibilidade maior de cana é imprescindível para os planos cubanos de aumentar até 500 milhões de litros anuais sua produção de álcool, para aproveitar o auge do etanol combustível. Luis Gálvez, diretor do governamental Instituto Cubano de pesquisas dos Derivados da Cana-de-Açúcar, confirmou à IPS que estão projetados investimentos entre US$ 100 milhões e US$ 150 milhões para instalar sete novas destilarias e modernizar 11 das já existentes.
O diretor garantiu que não está prevista a associação com capital estrangeiro nesse programa, embora tenha admitido alguma assessoria por parte do Brasil, que, junto com os Estados Unidos, concentra mais de 75% da produção mundial de etanol combustível. Não são poucos os analistas que coincidem em que para sair de seu estado crítico a indústria açucareira de Cuba requer necessariamente recursos financeiros que possam proceder de investimentos estrangeiros. A indústria da cana estatal esteve aberta a investimentos estrangeiros há uma década, mas somente no setor dos derivados.

