Uruguai: Questionamento científico à indústria da celulose

Montevidéu, 14/07/2006 – Enquanto o governo do Uruguai concentra suas baterias em uma disputa em Haia com a Argentina pela instalação de duas fábricas de celulose no rio limítrofe, cientistas uruguaios apresentaram nesta terça-feira um informe no qual advertem sobre os efeitos nocivos do projeto. Os efluentes das duas unidades que se constrói em território uruguaio afetarão o processo reprodutivo dos peixes e causarão danos crônicos aos organismos aquáticos do Rio Uruguai. Além disso, para o funcionamento das fábricas se necessitará da extensão das áreas florestais no país, o que, por sua vez, pode diminuir o volume de água dos rios e provocar danos permanentes os solos, diz o documento.

O informe, intitulado “Síntese dos efeitos ambientais das fábricas de celulose e do modelo florestal do Uruguai”, foi elaborado por uma comissão de especialistas da Faculdade de Ciências da estatal Universidade da República, e enfatiza os impactos da indústria do papel. “Para as duas unidades prevê-se produzir 1,5 milhão de toneladas ao ano de pasta de celulose, para isso consumindo 4,5 milhões de toneladas de madeira por ano. Para isto serão necessários 300 mil hectares de áreas florestadas”, explicou o geógrafo Marcel Achkar ao apresentar oficialmente o estudo, embora parte dele já tivesse vazado para a imprensa na semana passada.

Entretanto, as áreas com potencial para reflorestamento no Uruguai, segundo suas características e disponibilidade atual, representam apenas 40% desses 300 mil hectares necessários, por isso se apelará para o uso de outras terras não aptas e hoje utilizadas para agricultura e pecuária, acrescentou. Após uma longa controvérsia que levou ao máximo a tensão entre Buenos Aires e Montevidéu, a chancelaria da Argentina apresentou em maio uma queixa no Tribunal Internacional de Justiça, com sede na cidade holandesa de Haia, contra a construção das fábricas, uma da empresa finlandesa Botnia e outra da espanhola Ence e de um porto na cidade uruguaia de Fray Bentos, na margem oriental do Rio Uruguai.

Buenos Aires apresenta preocupações ambientais para se opor à instalação das fábricas e pede ao tribunal “uma solução compatível com o ecossistema”. Os cientistas explicaram à IPS que decidiram apresentar o informe como “uma contribuição ao debate sobre um tema em que existe grande confusão e que é de máxima importância para o país”, e, ainda, considerando que “a lei orgânica da Universidade obriga a se pronunciar sobre grandes temas nacionais”. O trabalho foi elaborado com base em dados fornecidos por estudos em outros países divulgados em revistas especializadas internacionais, bem como em resultados de algumas pesquisas próprias da Universidade.

Alice Altesor, do Departamento de Ecologia, explicou que o modelo florestal incentivado pelas fábricas terá efeitos negativos no ar, na água e no solo do Uruguai. As florestas de eucalipto e pinho fornecem menos carbono ao ecossistema natural de pradarias nas quais foram implantadas as pastagens, enquanto consomem ate 50% mais de água, afetando rios e riachos, e, ainda, elevam a acidez do solo, além de deixá-lo sem outros nutrientes, afirmou. “Existem evidências documentadas sobre os efeitos negativos da substituição de pastagens naturais por plantações florestais”, disse Altesor.

O documento alerta que “muitas das mudanças químicas (acidificação, salinização, perda de nutrientes) são irreversíveis e comprometem seriamente a fertilidade e, portanto, o potencial produtivo dos solos”. Além disso, “as pastagens naturais abrigam 80% da diversidade de espécies vegetais do Uruguai e uma alta riqueza de fauna associada. A substituição da cobertura vegetal por uma única espécie leva a uma severa perda de informação referente ao ecossistema e à genética, bem com ao surgimento de espécies exóticas que se comportam como invasoras”, acrescenta.

Por sua vez, Néstor Mazzeo, docente de Mestrado de Ciências Ambientais da Universidade, se referiu aos efeitos concretos dos efluentes das fábricas no Rio Uruguai, com base em estudos de organismos expostos às emissões de fábricas similares em 18 locais diferentes da Suécia, Canadá e Estados Unidos. No processo de obtenção da polpa de celulose a partir da madeira são empregados, além de grande quantidade de água, várias substâncias químicas, como cloro ou dióxido de cloro, oxigênio ou peróxido de oxigênio e hipoclorito de sódio, que geram organoclorados (dioxinas e furanos), muito tóxicos, persistentes e com capacidade de acumulação em organismos animais.

“A composição química dos efluentes é extremamente heterogênea, e algo muito importante é que muitos compostos ainda não foram identificados. Se desconhece a natureza de muitos compostos presentes”, disse Mazzeo. “Uma resposta muito clara e um padrão geral que se observou é que 80% dos organismos aquáticos estudados sofreram um retardo em seu processo de maturação sexual”, apesar de um aumento geral de seu tamanho, acrescentou. Isto significa que “há uma boa disponibilidade de alimento, mas alguma coisa no ambiente impede que a parte da energia obtida por estes organismos possam ser destinadas às funções reprodutivas”, explicou, acrescentando que também pode ocorrer um problema de oxigenação para várias espécies.

Mazzeo destacou que os compostos perigosos, de baixa solubilidade e resistentes à degradação, foram constatados em efluentes de diferentes fábricas de celulose, desde as que usam o sistema Livre de Cloro Elementar (ECF), que libera menos organoclorados, até os que utilizam a tecnologia Totalmente Livre de Cloro (TCF). As empresas Ence e Botnia informam em seus respectivos estudos de impacto ambiental que empregaram um sistema de produção de celulose Kraft (processo químico que usa sulfato na digestão da madeira) com branqueamento ECF.

O documento inclui uma série de sugestões ao governo do presidente Tabaré Vázquez para seguir de perto o impacto das fábricas e aconselha maior tratamento dos efluentes do que os previstos nos planos das companhias para reduzir sua toxidade. O governo minimizou as conclusões do informe dizendo que se trata apenas de “uma recopilação de bibliografia”. Os dados incluídos no trabalho “se referem a experiências em outros lugares. É uma revisão bibliográfica com informação que não corresponde ao Uruguai. As condições do Rio Uruguai são diferentes das dos rios estudados, e as espécies analisadas também são diferentes das existentes aqui”, disse à IPS a diretora nacional de Meio Ambiente, Alicia Torres.

Por outro lado, a diretora disse que as recomendações que constam do estudo são “uma cópia das medidas adotadas pelo Ministério de Habitação, Ordenamento Territorial e Meio Ambiente diante destes projetos, e anunciadas em seu site na Internet. Torres se reuniu com os cientistas na segunda-feira e lhes expressou sua “surpresa pela oportunidade” do informe. Estima-se que este mês o tribunal de Haia possa se pronunciar sobre o primeiro pedido feito pela Argentina: a suspensão preventiva das obras das empresas Botnia e Ence.

Raúl Pierri

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