Berlim, 14/07/2006 – Da grande quantidade de pedestres e turistas que cruzam o centro de Berlim, a emblemática capital da Alemanha, ouve-se permanentemente a mesma pergunta: “Estamos no leste ou oeste?”. “Este era o lado comunista?”. Para surpresa dos que se sentem atraídos pela história singular desta cidade, restam poucos sinais do Muro de Berlim, outrora uma extensa parede de 160 quilômetros que começou a ser construída em 1964, em plena Guerra Fria, e seguramente a mais famosa construção de todos os tempos da capital alemã. Os políticos de todas as tendências decidiram devolver algo da presença do muro. Nas últimas duas semanas surgiram propostas para conservar pedaços de concreto do muro e criar um memorial adequado a um infame capítulo da história desta cidade.
Até agora, os restos dispersos do Muro são alvo de uma grande falta de coordenação, e como todos os assuntos da história alemã, esta situação provocou acalorados debates. Não foi à toa que, após prolongadas discussões, somente no ano passado se conseguiu terminar o controvertido Memorial do Holocausto (um labirinto de enormes blocos de granito, um passeio desde os edifícios governamentais). Mas agora, quase 17 anos depois da queda do Muro, um projeto do comissário de Cultura da cidade, Thomas Flierl, conseguiu a aprovação das duas câmaras do parlamento. “A intenção é tornar visível e tangível a divisão de Berlim para as futuras gerações”, escreveu, referindo-se ao projetado monumento.
O projeto prevê construir um memorial em um ponto central, na Bernauer Strasse, local de muitas tentativas espetaculares de fugas de moradores do Leste e onde aconteceram as primeiras mortes. Nos 28 anos de existência do Muro de Berlim, cerca de 200 pessoas foram assassinadas quando tentavam cruzar essa barreira de concreto e arame farpado, enquanto milhares conseguiram passar para o lado ocidental. Em um parque abandonado perto de Bernauer Strasse, será construído um memorial de 45 mil metros quadrados que abrigará histórias individuais e biografias dos que foram afetados pelo Muro, disse a responsável pelo projeto, Maria Nooke.
“Aqui poderemos mostrar como o Muro prejudicou a vida cotidiana das pessoas”, disse em uma apresentação antes de a Câmara de Representantes debater o assunto. “Agora, estamos tratando de ver como faremos para que as emoções sejam acessíveis a outras pessoas”. Foram construídos dois muros de aço de sete metros de altura, ao longo de 70 metros da antiga divisão. Olhando-se detidamente através de suas fendas, pode-se ver a comovedora faixa da morte vazia. O prefeito de Berlim, Klaus Wowereit, declarou que a construção é crucial para a cidade. “Esta é a única forma pela qual o valor e a importância da democracia e da liberdade poderão ficar ancorados na consciência das pessoas”, disse à imprensa.
O projeto conseguiu amplo apoio, incluindo de políticos de esquerda e direita e das vítimas do regime comunista oriental, com exceção de algumas queixas de políticos conservadores. Flierl, em uma conferência na Universidade Técnica de Berlim, justificou a demora em adotar um projeto pelas profundas emoções que o Muro desperta. “A primeira etapa, a da raiva e de quebrar o muro, foi psicologicamente muito importante”, afirmou, referindo-se à reação dos alemães do Leste e do Oeste, que destruíram o Muro com as ferramentas que tinham à mão como símbolo da repressão e divisão.
“Agora, passou o tempo e estamos em uma fase diferente, a de recordar o passado. Agora, podemos tratar os restos do Muro com uma nova perspectiva”, afirmou Flierl. Essa “nova perspectiva” se refere a sete obras distintas nas quais se inclui uma mostra na entrada da estação do metrô do Portão de Brandenburgo, e um pavilhão de informação no “posto de controle Charlie”, para realçar as implicações internacionais que teve a Cortina de Ferro. Em Berlim, onde o turismo aumentou nos últimos anos, os visitantes se juntam no posto de controle Charlie, a antiga passagem fronteiriça entre os setores norte-americanos e soviéticos de Berlim durante a Guerra Fria.
Atualmente, a concorrida passagem está abarrotada de turistas e vendedores de lembranças que oferece desde qualquer objeto de interesse do exército russo até miniaturas dos automóveis Trabant, fabricados pela desaparecida República Democrática da Alemanha. Políticos berlinenses mantiveram intensos debates com a chefe do Museu Posto de Controle Charlie, Alexandra Hildebrandt, que no ano passado reconstruiu um bloco do Muro de Berlim, mas não em seu lugar original. Sua atuação, finalmente desautorizada, provocou controvérsias e reclamações no sentido de se erguer um autêntico memorial do Muro.
Flierl destacou que seu projeto pretende refletir o mais fielmente possível a história. Embora tenha se negado a recriar as torres de vigia, destacou que pretende evitar uma “reconstrução trivial do Muro ao estilo hollywoodiano”. O plano, cuja finalização está prevista para o prazo de cinco anos, ainda não venceu todos os obstáculos. A maior dúvida tem a ver com seu financiamento. O orçamento previsto chega a US$ 51 milhões, dos quais até agora só está garantido um quarto. Berlim tem muitas dívidas, e os políticos alemães estão se esforçando para economizar em todas as áreas.
No entanto, Torsten Wöhlert, responsável pela área de Conhecimento, Desenvolvimento e Cultura do Departamento de Relações Públicas do Senado, acredita que os fundos aparecerão, agora que o projeto conta com amplo apoio. “Temos dinheiro para começar e temos tempo para conseguir o restante”, disse à IPS. “Agora, fica claro que esta é uma prioridade política, e existe uma férrea vontade para que isto funcione”, acrescentou.

