Ásia: Mísseis da Coréia do Norte sacodem a região

Tóquio, 14/07/2006 – Os testes com mísseis feitos na semana passada pela Coréia do Norte sacudiram toda a região Ásia-Pacífico e desataram uma nova crise que vai durar longo tempo, alertam analistas da região. “No Japão, a reação contra a Coréia do Norte é muito forte. A China chama a dar uma resposta mais suave. A situação é muito delicada e dependerá da iminente reação na Organização das Nações Unidas”, esta é sombria análise do professor Masao Okonogi, especialista em assuntos norte-coreanos da Universidade de Keio (Japão). Okonogi destacou a enorme preocupação no Japão, pela notícia de que os norte-coreanos haviam lançado sete mísseis ao mar entre terça-feira e quarta-feira.

O mal-estar japonês em relação à Coréia do Norte já era grande antes desses testes. Tóquio ainda protesta junto a Pyongyang pelo seqüestro de 13 cidadãos japoneses nos anos 70 e 80 para usá-los no treinamento de espiões norte-coreanos. Agora, o governo do primeiro-ministro Junichiro Koizumi lidera um chamado internacional pela adoção de medidas severas contra Pyongyang, como impedir a descida em portos japoneses da tripulação de navios norte-coreanos e interromper a viagem de funcionários japoneses à Coréia do Norte.

Mas é improvável que a proibição de ingresso ao “Man Gyong Bong-92”, um ferry norte-coreano dedicado ao transporte de passageiros e mercadorias, gere problemas a Pynongyang, e teria valor puramente simbólico, segundo observadores. “O governo norte-coreano tem de ser castigado pelo Japão e pelos Estados Unidos”, disse Kaoru Sakata, uma dona de casa de 53 anos, que comprou todas as edições-extras dos jornais japoneses sobre testes com mísseis da semana passada. O Japão lidera gestões no Conselho de Segurança da ONU para punir a Coréia do Norte, e para isso procura se aproximar mais de Washington.

“Os membros do Conselho, especialmente os permanentes (China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia), deveriam evitar fazer algo que leve os norte-coreanos a pensarem que têm adeptos”, disse Sinzo Abe, principal secretário do gabinete japonês, perante uma audiência internacional, na quinta-feira. Abe, um conservador, se referia à iniciativa japonesa de apresentar um projeto de resolução no Conselho de Segurança castigando a Coréia do Norte pelos testes e qualificá-los de “inaceitáveis”. Okonogi disse à IPS que se não for aprovada a resolução (sobre a qual China e Rússia já se mostram reticentes) a Coréia do Norte se sentirá mais forte e agravarão as já problemáticas relações na Ásia oriental.

Song II Ho, embaixador da Coréia do Norte encarregado da normalização diplomática com o Japão, disse na semana passada a jornalistas em Pyongyang que, embora Tóquio tenha anunciado sanções, “está em seu interesse freá-las”. Kim Myong Chol, norte-coreano residente no Japão que preside o Centro de Paz Coreano-Norte-Americano e que visita freqüentemente os Estados Unidos, disse à imprensa que a “Coréia do Norte não duvidará em atacar novamente se for provocada por Estados Unidos ou Japão”. Kim falou sobre possíveis respostas com armas nucleares se Washington embarcar em uma escalada armamentista em torno da Coréia do Norte, e acrescentou que as sanções japonesas sejam uma “provocação”.

Informes de imprensa também indicam que os norte-coreanos preparam um segundo lançamento de mísseis intercontinentais Taepodong-2. O especialista norte-americano em temas da Coréia do Norte, Bradly Martin, explicou que a belicosidade de Pyongyang é similar aos passos prévios dados pela direção stalinista da antiga União Soviética para usar os testes com mísseis como estratégia para iniciar conversações com os Estados Unidos. Martin destacou que os testes da semana passada foram feitos no contexto de uma questão com Washington, que impôs sanções contra um banco de Macau sobre o qual recaem suspeitas de lavagem de dinheiro para a Coréia do Norte.

Também há informes de que os testes pretendiam causar indignação e temor no Japão para forçar este país a impor sanções e congelar as relações bilaterais, a fim de, assim, deixar em suspenso a polêmica dos seqüestros. “O objetivo era apenas criar tensão e confusão, e obrigar Tóquio e Washington a irem à mesa de negociações”, disse à imprensa japonesa Baek Seung Joo, diretor de uma equipe de pesquisadores sobre assuntos norte-coreanos no Instituto Coreano para Análise de Defesa, com sede em Seul. Ainda falta ver se este objetivo será alcançado. Mas, como dizem os analistas, os testes com mísseis definitivamente indignaram os japoneses, que insistem em que se deve fazer algo urgente para conter a ameaça norte-coreana.

O influente periódico Yomiuri criticou a ONU em um editorial publicado sexta-feira por não haver uma resolução contra a Coréia do Norte quando disparou um míssil de teste em agosto de 1988, destacando que, desde então, o país continuou com seu plano de desenvolvimento nuclear. “O problema para o Japão é que outros países não levam a ameaça norte-coreana tão a sério”, disse o jornal, que criticou os Estados Unidos por não tomarem medidas mais severas. Também chamou o Japão a “preparar um meio efetivo para se defender”.

Suvendrini Kakuchi

Suvendrini Kakuchi is a Sri Lankan journalist based in Japan and covering Japan-Asia relations for more than two decades. Her focus is building understanding and respect between diverse populations in Asia based on equality and collaboration.

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