China: Uma potência mais sedutora para a África do que os EUA

Pequim, 14/07/2006 – A viagem do primeiro-ministro Wen Jiabao pela África esta semana tem o objetivo de assegurar o abastecimento de petróleo e produtos básicos para a China e, também, garantir a influência da potência asiática nesse continente e em todo o Sul em desenvolvimento. Os meios de comunicação oficiais chineses prevêem que a viagem de Wen terá êxito. A China – explicam – se mostra como uma potência ascendente sem intenções de explorar outros países em busca de vantagens, nem de misturar política com economia. Diplomatas chineses valorizam o papel de Pequim na África e sua aspiração em ajudar os países do continente e exibir seus êxitos das duas últimas décadas como um modelo de desenvolvimento para os países pobres.

Após sua viagem de oito dias pela África, que começou no sábado passado, Wen terá visitado Egito, Gana, República do Congo, Angola, África do Sul, Tanzânia e Uganda. Há menos de dois meses, o presidente chinês, Hu Jintao, visitou Marrocos, Nigéria e Quênia. Além disso, dentro de cinco meses acontecerá na China um fórum de cooperação de alto nível. Esta intensa atividade diplomática revela a fome da China por energia e matérias-primas, que a levou a colaborar com alguns regimes indigestos da África e de outros continentes. Este mês, a Anistia Internacional acusou Pequim de incentivar os conflitos e as violações de direitos humanos ao vender armas para regimes repressivos como os do Sudão e Zimbábue em troca de petróleo e minerais.

A China se defende. “É tendencioso ou equivocado dizer que nossos crescentes vínculos com a África são apenas por causa do petróleo”, disse o vice-chanceler, He Yafei, na semana passada na conferência de imprensa. “A intenção da cooperação sino-africana é o benefício recíproco, que á particularmente importante para o desenvolvimento dos países africanos”, afirmou. Por sua vez, Wen disse na segunda-feira, em Brazzaville, que seu país carece de “interesses egoístas” em relação à África, e que deseja ajudar no “desenvolvimento autônomo” do continente. “A China desenvolve suas relações com a África sob os princípios do benefício mútuo e de não-ingerência nos assuntos internos do continente”, disse Wen, depois de conversar com o presidente da República do Congo, Denis Sassou-Nguesso.

No começo da viagem, a política de não-ingerência como um de seus leitmotiv foi destacada pelo jornal China Daily. “A China oferece assistência técnica e financeira sem condicionamentos aos mais necessitados da África”, afirmou um editorial do jornal no último dia 18. Pequim “incentiva os países africanos a desenvolverem sua economia através do comércio e do investimento em infra-estrutura e instituições sociais, sem ditar-lhes reformas políticas e econômicas”. Para um diplomata ocidental em Pequim, “isto se lê com uma refutação direta aos Estados Unidos e às potências ocidentais. Esta é uma das primeiras vezes que Pequim articulou tão abertamente suas prioridades diplomáticas na África, e sua intenção é de se apresentar como uma potência mundial mais atraente do que Washington”.

Pesquisadores em Pequim enfatizam que a viagem de Wen ilustra a mudança gradual da China desde priorizar seu vínculo com as outras potências mundiais até construir um capital político com os países em desenvolvimento. A mudança ficou em evidência desde a investidura de Hu Jintao como presidente em 2002. Seu antecessor, Jiang Zemin, procurava consolidar as relações com os Estados Unidos como pré-requisito para o desenvolvimento econômico chinês. “A primeira visita de um presidente chinês à África este ano e agora a do primeiro-ministro demonstram que o vínculo sino-africano ocupa os primeiros lugares entre as prioridades diplomáticas de Pequim”, disse o pesquisador Wang Yingying, do Instituto de Estudos Internacionais.

Como parte das tratativas para garantir fontes de energia e recursos minerais, a China oferece aos países africanos assistência econômica e técnica, empréstimos sem juros e créditos preferenciais. Empresas chinesas participam da construção de estradas, hospitais, obras sanitárias, palácios e recintos esportivos. Cerca de 900 projetos de investimento são financiados com dinheiro chinês. O crescente interesse político e econômico no continente é acompanhado de um pujante comércio bilateral. O intercâmbio entre China e África quase duplicou desde 2000, passando de US$ 10,6 bilhões para US$ 38,7 bilhões no ano passado.

O petróleo é a fonte de energia do crescente compromisso chinês com a África. Pequim gasta milhares de milhões de dólares para assegurar direitos de exploração de petróleo na Nigéria, Sudão e Angola. Também assinou numerosos acordos de exploração com vários países africanos, como República do Congo e Etiópia. A África representa 25% das importações de petróleo feitas pela China, que tem a intenção de aumentá-las para diversificar seus fornecedores, majoritariamente do Oriente Médio.

Angola, que está na agenda da viagem de Wen, é o segundo vendedor de petróleo para a China, para quem vendeu no ano passado US$ 6,580 bilhões. Para garantir o abastecimento, Pequim ofereceu US$ 3 bilhões em crédito para ajudar a reparar a infra-estrutura angolana, devastada pela prolongada guerra civil. Países como República do Congo e África do Sul, que carecem de recursos petrolíferos,mas de todo modo, estão na agenda da viagem, possuem cobre e alumínio, produtos dos quais a China também necessita.

Antoaneta Bezlova

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