Pequim, 14/07/2006 – O governo da China mostra uma incomum cautela diante das gestões da oposição de Taiwan pela destituição do presidente Chen Shui-Bian, apesar de sua aberta independência. Desde que Chen assumiu o poder em 2000, altos funcionários de Pequim não escondem o desejo de que caia, devido à sua atitude provocadora em relação à China, que considera Taiwan uma província renegada. O opositor Partido Nacionalista (Kuomitang), que se inclina por melhorar as relações com a China, realiza uma cruzada para desacreditar Chen perante a opinião pública taiwanesa, e para isso esgrimem escândalos financeiros envolvendo sua família.
Como conseqüência dessa campanha contra um presidente cheio de problemas, o parlamento começou na quarta-feira a considerar sua destituição. Agora que o destino político de Chen está em perigo, Pequim não demonstra um regozijo. A imprensa oficial chinesa, acostumada a expressar seu descontentamento com os governos da ilha, desta vez não deu grande atenção à agitação política em Taiwan. Observadores atribuem essa atitude à possibilidade de que a eventual destituição de Chen por corrupção estabeleça um precedente na política chinesa, algo que Pequim gostaria de evitar.
China e Taiwan se separaram em 1949, quando triunfou no continente a revolução comunista liderada por Mao Zedong. As derrotadas forças nacionalistas de Chiang Kai-shek, fundador do Kuomitang, fugiram para a ilha, onde instalaram um governo no exílio. Depois de meio século de uma virtual independência de Taiwan, nunca declarada formalmente, a China continua a considerá-la parte de seu território. A democracia floresceu em Taiwan, com eleições disputadas e cidadãos comprometidos, o que a distancia da China e de seu regime de partido único.
Para maior preocupação de Pequim, os chineses do continente também se conscientizam das liberdades democráticas que gozam os taiwaneses, através da Internet ou graças à eliminação de restrições para cruzar o estreito de Formosa, que separa a ilha do continente. “É patético que mesmo uma democracia do tipo da dos Estados Unidos não consiga evitar que os dirigentes chineses sejam corruptos”, lamentava um internauta do popular site chinês netease.com, ao saber do escândalo que cerca Chen. O caso coincide com as crescentes acusações de desonestidade contra funcionários chineses, e que pendem como uma ameaça sobre o Partido Comunista e seus dirigentes.
Os escândalos que nos últimos meses envolveram importantes figuras do regime evidenciam o fracasso do regime no cumprimento de seus compromissos contra a corrupção. O vice-prefeito de Pequim, Liu Zhihua, responsável pela infra-estrutura na capital com vistas às Olimpíadas de 2008, foi repentinamente destituído este mês por “seu comportamento corrupto e desonesto”, sem que fossem dados maiores detalhes. As autoridades proibiram a imprensa, dirigida pelo governo, de informar além dos breves despachos da agência oficial de notícias Xinhua. Mas o caso teve ampla repercussão na imprensa de Taiwan, ao mesmo tempo em que a população discutia acaloradamente as acusações contra a família de Chen.
O genro do presidente, Chao Chien-ming, foi detido e é investigado por abuso de poder, após ser publicamente acusado por um legislador. A mulher do presidente, Wu Shu-chen, também foi acusada por legisladores da oposição por aceitar de uma loja de departamento, em troca de favores políticos, vales para compras no valor de US$ 153 mil. Também um importante colaborador de Chen foi acusado de corrupção. O presidente não foi acusado diretamente. Chen destacou, em um discurso pela televisão na semana passada, seu compromisso com Taiwan, e se negou a renunciar a menos que se comprovem as acusações contra sua família. O presidente também qualificou de “imorais” as acusações contra sua mulher e disse que não abandonará os deveres impostos por seu cargo.
Nesta terça-feira, o parlamento votará a convocação de um referendo para que a população decida se Chen deve deixar a presidência dois anos antes do final de seu segundo mandato. A Constituição da ilha proíbe um terceiro mandato consecutivo. É pouco provável que a iniciativa prospere no parlamento, pois o Kuomitang e seu aliado, a União de Solidariedade de Taiwan, não reúnem os dois terços dos votos necessários no parlamento para impor essa decisão. Observadores da China consideram que o governo de Chen tem os dias contados, ainda que não vá para frente a iniciativa do Kuomitang, pois o escândalo abrirá uma avalanche de questionamentos. Estes analistas apontam menos as acusações de corrupção do que o fracasso do presidente como líder político.
“Veja os números: desde que Chen chegou ao poder se desculpou 13 vezes com a população. Independentemente do que fizer agora e de se declarar inocente, terá muita dificuldade para acalmar a ira popular”, afirmou Sun Shengliang, do Instituto de Estudos de Pesquisa de Taiwan da Academia de Ciências Sociais da China. Em Taiwan, se acusa Chen de deixar tensas as relações com os Estados Unidos e desestabilizar o difícil equilíbrio que por décadas se manteve com a China, pois propõe a formalização da independência da ilha. Alguns chineses resgatam aspectos positivos do escândalo de corrupção em Taiwan. “Os taiwaneses têm de estar contentes consigo mesmos. Isto é um sinal de que a democracia para eles está funcionando muito bem e de que têm uma imprensa independente”, escreveu outro internauta.

