Desarmamento-Irã: Teerã também quer queda de braço

Washington, 14/07/2006 – O anúncio do Irã de que somente em agosto responderá à oferta do Ocidente para iniciar negociações formais sobre seu programa nuclear foi uma demonstração de solidez, mas também uma represália pela lentidão européia em responder às suas propostas em 2005. Ao se negar a dar uma resposta no prazo exigido, que vence nesta quinta-feira, Teerã deixa claro a Washington e ao grupo de países europeus que negociam sobre a questão nuclear – integrado por Alemanha, França e Grã-Bretanha, conhecido como UE-3 – que não se intimida diante de ameaças de sanções internacionais.

Os prazos próprios do Irã também parecem destinados a mostrar aos europeus e norte-americanos que pode e está disposto a participar da queda de braço política retardando respostas oficiais, com fez a UE-3 no ano passado. “Estudaremos a oferta, e se Deus quiser informaremos nossa opinião no final do (mês de) Mordad”, disse em um discurso na semana passada o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Esse mês no calendário iraniano coincide com o ocidental agosto. Dessa forma, Teerã atrasa sua resposta em quase dois meses depois do prazo estabelecido pelas seis potências, isto é, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia) mais Alemanha.

A firmeza iraniana deixou impaciente o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.“Não deveriam demorar tanto tempo para analisar um acordo razoável”, afirmou. Washington esperava ter uma resposta iraniana para a reunião de chanceleres do Grupo dos Oito países mais poderosos, prevista para esta quinta-feira em Moscou, segundo informou à agência de notícias Associated Press um funcionário do governo norte-americano. O Irã havia oferecido ao UE-3, em março do ano passado, iniciar negociações formais, mas o grupo europeu também demorou dois meses para responder.

Embora já mantenha uma suspensão voluntária de suas atividades de enriquecimento de urânio, naquela oportunidade o Irã propôs uma série de “garantias técnicas” para assegurar que seu programa nuclear não estivesse destinado à fabricação de armas atômicas, como temem as potências ocidentais. Assim, Teerã se comprometia a produzir apenas urânio levemente enriquecido e convertê-lo em barras de combustível para uso em reatores, limitar o uso das centrifugadoras na central de Natanz por um período relativamente longo de tempo e dar à Agência Internacional de Energia Atômica presença permanente em todos os locais onde trata o urânio.

A proposta foi formalmente apresentada pelo Irã em uma reunião de especialistas técnicos no dia 29 de abril de 2005. Um mês depois, em um encontro de ministros com a UE-3, Teerã solicitou uma resposta rápida. Mas os ministros europeus só responderam mais de dois meses depois com um pacote de medidas para implementar o chamado Acordo de Paris, de novembro de 2004, pelo qual o Irã havia se comprometido a suspender o enriquecimento de urânio. A demora européia desagradou os líderes do Irã, que a interpretaram como uma estratégia para esperar o resultado das eleições presidenciais nesse país no dia 25 de junho do ano passado.

Em círculos diplomáticos europeus e norte-americanos esperava-se que as eleições fossem ganhas pelo ex-presidente moderado Hashemi Rafsanjani (1989-1997), com que era mais factível obter um acordo. “Rafsanjani cooperará com os europeus para deter o enriquecimento de urânio”, caso seja eleito, havia adiantado um de seus mais próximos conselheiros, Mohammed Atrianfar, em uma entrevista para o independente Grupo Internacional de Crise, com sede em Bruxelas, no dia 27 de maio. Depois que foi eleito o conservador Ahmadinejad, o UE-3 ignorou a oferta de Teerã e respondeu com uma contraproposta: a suspensão definitiva de toda atividade de enriquecimento de urânio, e não fez concessões reais aos interesses iranianos.

Mas a atual demora de Teerã também denota uma crescente confiança em sua postura diante da disputa com Washington. Os líderes iranianos têm em conta que o governo Bush perdeu apoio interno por causa de sua política militarista no Oriente Médio. Também acreditam que Washington sabe de sua vulnerabilidade diante de possíveis represálias iranianas através do Iraque ou outros lugares do Oriente Médio após um eventual ataque norte-americano. Uma questão-chave na resposta que der Teerã à oferta européia é se poderá contar com China e Rússia para bloquear os esforços dos Estados Unidos dentro do Conselho de Segurança em favor da adoção de sanções internacionais.

(*) Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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