Futebol: Após a Copa, Zidane se torna um herói imigrante

Paris, 18/07/2006 – A posição do jogador Zinedine Zidane, de origem argelina, aumentou entre muitos imigrantes na França depois que derrubou o italiano Marco Materazzi com uma cabeçada na final da Copa do Mundo, em Berlim, no último dia 9. Para os que justificam essa atitude diante de supostos insultos racistas do jogador italiano não importa, inclusive, o fato de a expulsão de Zidane ter custado á França o título mundial (segundo jornalistas esportivos).

Zidane, jogador do Real Madrid, também conhecido pelo apelido de Zizou, já era um herói imigrante desde que liderou a seleção francesa rumo à vitória no Mundial de 1998. Muitos jornalistas o consideram o melhor jogador do mundo dos últimos 15 anos. “Zizou é meu herói”, disse Jimmy, de 18 anos, morador em Saint Denis, uma área de Paris de predomínio imigrante. “Punir as ofensas dos medíocres sempre foi tarefa dos homens de honra”, afirmou. Fred, outro rapaz do mesmo bairro, disse que “a cabeçada de Zidane o coloca à frente de outras estrelas do futebol”.

Os dois jovens de origem árabe insistiram em dizer que os insultos devem ser castigados com violência. “É uma questão de honra”, disse Jimmy. “Ainda mais se o italiano o insultou com comentários racistas”. Zidane é filho de bereberes argelinos radicados na França em meados dos anos 60. Nasceu em 1972 em La Castellane, distrito pobre de maioria imigrante da cidade de Marselha, no Mediterrâneo, onde o desemprego passa dos 50%. Sua expulsão na final da Copa do Mundo significou para muitos torcedores um final desonroso para sua carreira. Ele mesmo havia anunciado que a final contra a Itália seria o último jogo de sua vida esportiva.

O momento mais controvertido para Zidane chegou aos 109 minutos, quando Materazzi pronunciou um insulto que o público não pôde ouvir. Depois, o jogador italiano afirmou que o astro francês havia sido “extremamente arrogante” com ele, e que apenas havia feito um comentário do tipo dos que “são repetidos muitas vezes durante um jogo de futebol”. Entrevistado pela televisão francesa, Zidane não contou o que disse Materazzi. Apenas afirmou que o italiano proferiu “palavras muito insultantes, que me ofenderam no mais íntimo de meu ser”. Porém não esclareceu se foram comentários racistas. “Teria preferido que me batesse no rosto”, acrescentou o jogador francês.

Jornalistas e jogadores da França criticaram Zidane. O jornal esportivo L’Equipe lhe escreveu uma carta aberta na qual perguntaram: “Como vamos explicar seu ato aos nossos filhos, que tanto o admiram?”. A reação de Zizou foi considerada pouco profissional pelo zagueiro Anther Yahia, que joga no clube Nice e que, apesar de ter nascido na França, defende a seleção da Argélia, país de seus pais. “Há centenas de insultos por jogo, e nossa responsabilidade como profissional é permanecer calmo, não reagir. De outro modo, você perde e sua equipe também”, afirmou.

Mas em uma carta ao jornal Libération, a leitora Marie Umurerwa, que se identificou como “uma mãe”, descreveu o gesto de Zidane como “uma reação humana que me leva a admirá-lo mais do que nunca”. Entretanto não são apenas os imigrantes que o defendem. O professor universitário e músico de jazz, Francis Marmande, disse que “a brutalidade de Zidane o torna mais comovedor”. A diretora de teatro Claire Lasne escreveu no Libération que a cabeçada de Zidane “colocou a dignidade de nosso povo e a sua própria mais acima de um prêmio que é oferecido aos que permanecem tranqüilos” diante dos insultos. “Longa vida a Zidane!”, afirmou.

Três músicos parisienses se apressaram em gravar uma canção que em determinado trecho diz: “Zidane o acertou, Zidane o atacou, e nós nos divertimos muito”. A ampla divulgação nas rádios acelerou o sucesso desta música. “Quando escrevemos ‘Zidane acertou’ queríamos apenas consolar, a nós e aos nossos amigos, pela derrota diante da Itália, e fazer as pessoas dançarem”, disse à IPS Sébastien Lipszyc, um dos autores. “Se agora ganhamos dinheiro com a música, muito melhor”. Outras pessoas lembram outros momentos de violência que marcaram a carreira de Zizou. O documentário “Zidane, um retrato do século 21” termina com sua expulsão em uma partida do campeonato espanhol, onde defendeu até este ano o Real Madri.

Guy Lacombe, diretor técnico da escola de futebol onde Zidane estudou em meados dos anos 80, contou que, nessa época, era comum mandar que o jogador limpasse os banheiros da instituição como castigo por suas explosões de violência. “Zidane passou muitas semanas limpando banheiros”, lembrou. A ira que se apoderou do astro francês na final da Copa do Mundo revelou mais do jovem Zidane para Ayoub Argoubi, um rapaz de 17 anos de La Castellane, terral natal de seu ídolo. “A cabeçada em Materezzi mostra que, apesar de tudo o que passou desde sua juventude, continua sendo um dos nossos”.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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