Pequim, 14/07/2006 – A China não se classificou para a Copa da Alemanha, mas foi invadida por tamanha febre futebolística que reverteu as inveteradas restrições governamentais às manifestações em via pública e concentrações de massa. A manifestação de jovens pró-democráticos de 1989 na praça Tiananmen de Pequim, cuja brutal repressão acabou com um número nunca determinado de vidas, levou o regime comunista a proibir as concentrações “ilegais” e mostrar enfado diante das celebrações espontâneas. Mas este ano Pequim parece ter cedido à emoção do acontecimento mais visto pela televisão do mundo, o que levou a um alívio das normas.
O melhor lugar de Pequim para se estar nas noites de verão, quando são transmitidas os jogos desde a Alemanha, é o Templo de Verão, no parque Ritan, onde há séculos os imperadores chineses celebravam rituais religiosos, inclusive sacrifícios ao deus do sol. Hoje, no lugar do altar imperial das oferendas existe uma tela gigante. Em volta, em um espaço circular, um bar aberto que vende cerveja. Milhares de fanáticos, velhos e jovens, homens e mulheres, se reúnem nesse lugar para compartilhar mesas, aplausos, vaias e risadas. Fazem cada um seu chute, cabeçada, gol. A multidão se multiplica quando o jogo é das seleções favoritas do público chinês.
“É tão divertido”. Me encanta a sensação de compartilhar o entusiasmo com outras pessoas”, disse Li Junxia, uma jovem de Pequim de 26 anos, que ficou sabendo da reunião futebolística no Templo do Sol por mensagem de texto recebida em seu celular. “A mensagem dizia: não fique sozinho em casa assistindo as partidas, venham torcer conosco”, contou Li, que ficou encantada com a transmissão. “Estava muito emocionada de ver os jogos em um templo imperial”. Por ser o futebol o esporte coletivo mais popular do país, as empresas organizadoras de eventos esportivos viram a oportunidade de transformar todo espaço público possível em um local para exibir jogos do Mundial.
Restaurantes e bares da capital chinesa se agitaram com a oportunidade de atrair mais clientes colocando uma televisão e ficando aberto até tarde. As seis horas de diferença entre China e Alemanha fazem com que os chineses vejam as partidas tarde da noite, o que transforma a experiência compartilhada de desfrutar uma partida entre seleções em uma festa que vara a noite. “A Copa do Mundo significa diversão e isto é algo que os chineses não tiveram por longos períodos de sua história”, disse o pesquisador He Jiahong, da Faculdade de Direito da Universidade Popular da China, em Pequim.
“Durante anos, os chineses viveram muito austeramente, sentindo o grande peso da história. O Mundial é uma oportunidade de puro lazer e de alívio. A população a está desfrutando”. O fato de a seleção da China não ter se classificado para a Copa do Mundo é decepcionante, mas tranqüilizou a polícia. Tradicionalmente, os jogos nos quais atuam chineses costumam causar grande alvoroço. Na final da Copa Asiática entre China e Japão, há dois anos, em que o Japão venceu a China por 3a 1, os torcedores chineses atiraram garrafas, gritaram obscenidades e queimaram bandeiras japonesas, o que deu lugar a uma violenta resposta policial.
Embora o sentimento antijaponês seja comum na China, a frustração dos torcedores foi atribuída a falta de desenvolvimento do futebol japonês, em comparação com o da Coréia do Sul e do Japão, o que lhe priva de vitórias esportivas. O maior país do mundo não pôde realizar o sonho de participar de uma Copa do Mundo da Fifa, apesar de ter gasto milhares de milhões de dólares para se converter em uma potência no futebol, ter jogadores de grande nível e fervorosos torcedores.
“Desta vez há menos nervosismo”, disse Gao Ran, dono de um bar. “Assistimos as partidas porque gostamos do esporte e de apostar, mas nunca nos alteramos nem sofremos tanto como quando a China perdeu em 2002 na Coréia do Sul”, acrescentou. A presença da China no mundial passado aconteceu após cinco tentativas consecutivas sem êxito, e foi considerada o legítimo ingresso de uma nação na glória esportiva. Milhares de pessoas viajaram à Coréia do Sul para ver os jogos nos estádios. Milhões mais ficaram em casa presos ao televisor, com um sentimento de orgulho nacional crescente que logo se transformou em angústia. A seleção chinesa perdeu as três partidas da primeira fase, contra Brasil, Costa Rica e Turquia, os outros integrantes do seu grupo. Desde então, luta para alcançar qualquer vitória significativa no futebol.
Por outro lado, uma série de escândalos protagonizados pelos organizadores do torneio nacional abalou a confiança do público. Os fanáticos se desgostaram pela inépcia da gestão governamental e com os juízes pouco confiáveis, e começaram a prestar mais atenção ás equipes de futebol européias e sul-americanas, cujo futebol consideram mais atraente. “Muitas pessoas na China ainda não despertaram do sonho de ser uma potência mundial no futebol”, lamentou o analista Xu Tao, do jornal China Economic Times. “Mas temos de estar contentes pelo fato de a Copa do Mundo estar se transformando no que deve ser: uma competição que favorece o lazer, o ócio e o respeito mútuo”, acrescentou.

