Futebol: Imigrantes turcos torcem pela seleção alemã

Berlim, 14/07/2006 – Uma bandeira da Alemanha do tamanho de uma grande toalha tremula na fachada de uma padaria de Anadou, um dos muitos pontos de encontro dos imigrantes turcos no centro de Berlim. Parcialmente escondida atrás da bandeira com as faixas negra, vermelha e dourada da bandeira da Alemanha surge, muito menor, a bandeira turca. “Torcemos todos pela Alemanha”, disse o dono da padaria, Bayram, que, apesar de ter chegado no país há 30 anos, fala apenas alemão. Homens, em volta de mesas sob a tremulante bandeira alemã, conversam e bebem café ao sol. Bayram, como muitos de seus compatriotas, tem a esperança de algum voltar ao seu país. Mas não ambiciona um passaporte alemão e passa a maior parte do tempo entre turcos.

Quanto à Copa do Mundo da Fifa 2006, está 100% a favor da seleção dirigida por Jürgen Klinsman. Na Alemanha vivem mais de dois milhões de turcos, a maior comunidade de imigrantes neste país onde quase 9% dos 82 milhões de habitantes são estrangeiros. Como muitos imigrantes, os turcos chegaram em busca de trabalho depois do auge econômico posterior à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Muitos se estabeleceram definitivamente a Alemanha, ao mesmo tempo que formavam uma comunidade sólida. Mesmo depois da terceira e quarta gerações, os alemães de origem turca mantêm fortes vínculos com seu país de origem. Consideram-se mais turcos do que alemães.

Na medida em que avança o Mundial, muitos turcos torcem aos gritos pelo país que os recebeu, especialmente porque a Turquia ficou fora da Copa. Em Kreuzberg, um bairro de Berlim chamado de Pequena Istambul, por sua grande população turca, a febre pelo futebol é contagiosa. No movimentado mercado turco que se instala em suas ruas duas vezes por semana, a bandeira “schwarz-rot-gold” (negra-vermelha-dourada) cobre os locais de venda de especiarias e azeitonas. As comemorações de sábado em todo o país pela vitória alemã diante da Suécia por 2 a 0 se tornaram multiculturais.

Minutos depois de encerrada a partida, os imigrantes, incluindo mulheres com véu, se incorporaram aos veículos enfeitados com a bandeira alemã – muitas vezes junto com a bandeira turca ou de outros países árabes – que circularam pelas ruas das cidades, com seus ocupantes gritando e fazendo soar as buzinas. Com as minorias apoiando a equipe nacional de futebol, vive-se um incomum sentimento de unidade em uma nação que, como outras na Europa, luta para integrar os imigrantes. A unidade que se vive é uma mudança bem-vinda na Alemanha, onde a integração de imigrantes este ano tem sido um assunto candente, avivado pela violência desatada em um centro de ensino secundário com maioria de estudantes estrangeiros.

Também deixou uma dolorosa lembrança o caso do “assassinato por honra” cometido por um turco que matou sua irmã por levar um estilo de vida muito ocidental para seu gosto. A resposta dos imigrantes diante da Copa do Mundo foi bem recebida depois da ameaça de violência racista que colocou uma nuvem negra sobre a organização do torneio. “Nos pegou de surpresa”, disse Eren Unsal, a porta-voz da TBB, uma organização da comunidade turca. “É um sinal positivo haver tanta solidariedade com a seleção nacional de futebol. É uma mensagem forte a respeito da identificação das pessoas com a Alemanha”, afirmou.

Os turcos que vivem em Berlim ficaram aliviados pelo fato de a Alemanha não ter de enfrentar a Turquia no Mundial. Esse encontro poderia provocar uma quebra na lealdade de muitos alemães de origem turca, sem mencionar a possível dor de cabeça que esse jogo daria à polícia na manutenção da segurança, acrescentou Unsal. A seleção alemã não refletiu nos últimos anos o grande peso que tem a comunidade turca neste país, à exceção do ex-integrante da seleção Mehme Scholl, filho de pai turco, jogador do Bayern Munich.

O fato chama a atenção por causa da diversidade de origens entre os jogadores da equipe alemã. Quase um quarto deles é de descendentes de estrangeiros, da Suíça, Gana e Polônia, de onde procede seu atacante, Miroslav Klose. Muitos destacados jogadores de origem turca, que poderiam ter a cidadania alemã, preferiram jogar pela Turquia, em parte pela política da Associação de Futebol Turco para atrair jogadores que atuam na Europa e, também em parte, pela ampla discriminação no futebol alemão, disse uma organização de imigrantes. Eren Unsal espera que a seleção da Alemanha inclua no futuro jogadores turcos, porque seria um modelo de conduta de extrema importância para esta comunidade.

Organizações não-governamentais e especialistas em imigração têm dúvidas quanto ao esporte ser a única forma de se conseguir progressos nas novas sociedades. “Ao jogar futebol, os imigrantes podem expressar sua idiossincrasias simplesmente e conhecer outras pessoas. O futebol alivia as tensões da vida cotidiana e ajuda a construir pontes”, afirmou em um comunicado de imprensa a organização Floodlight, que luta contra o racismo no futebol. Esta entidade integra a rede pan-européia Futebol Contra o Racismo na Europa (Fare) que, junto com a Fifa e os organizadores da Copa do Mundo da Alemanha, gestionam projetos anti-racistas dentro e fora dos estádios.

Essa rede aborda a discriminação de raíz, coordena atividades esportivas com jovens alemães de origem estrangeira. No transcurso do Mundial mantém uma linha telefônica direta para que os torcedores denunciem casos de racismo e distribuem 35 mil revistas para os torcedores. No momento, os organizadores estão impressionados e aliviados pela tranqüilidade com que transcorre o campeonato, mas a experiência demonstra que a harmonia vivida durante este tipo de torneio é de curta duração.

No Mundial de 1998, realizado na França, a etnicamente mista e vencedora seleção francesa fez com que se falassem dos progressos e da grande aceitação da realidade multicultural da sociedade francesa. Entretanto, as esperanças se desvaneceram rapidamente diante do endurecimento das leis de imigração e da violência desatada nos subúrbios de Paris, no outono passado, revelando a tensão racial subjacente. Unsal teme que a euforia multicultural seja muito boa para durar. “É difícil que a Copa do Mundo provoque melhorias a longo prazo”, afirmou. “Agora, o ambiente é muito bom, mas lamentavelmente, são necessárias apenas algumas faíscas para que tudo mude de um dia para outro”, acrescentou.

Jess Smee

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