Berlim, 14/07/2006 – O patriotismo alemão que estava reprimido depois das culpas em decorrência da Segunda Guerra Mundial aflorou durante a Copa do Mundo, surpreendendo analistas e o público em geral. Bandeiras nas cores vermelha, negra e amarela, durante muito tempo consideradas tabu, como reminiscência da era nazista, ondularam na cálida brisa de verão deste Mundial entre 9 de junho e domingo passado. Os jogadores da seleção alemã cantaram a viva voz um hino nacional antes apenas murmurado.
Até a chanceler (chefe de governo), Angela Merkel, habitualmente pouco entusiasta em relação ao futebol, de um salto se punha de pé sorrindo de orelha a orelha quando a Alemanha marcava seus gols. Mas o que mais surpreendeu os analistas locais foi como a tendência de ver a metade do copo vazio se desfez da noite para o dia. Os usualmente lacônicos comerciantes berlinenses repentinamente começaram a fazer brincadeiras, e os desconhecidos nas ruas esboçavam um sorriso.
“Que a Alemanha possa apresentar uma organização sólida não é nenhuma novidade. Mas o que não se esperava era essa atmosfera grandiosa”, disse á IPS Leonard Novy, analista político da Fundação Bertelsmann, que reúne especialistas alemães dedicados a promover reformas sociais. “O espetáculo não esteve dominado pela Fifa ou pelos patrocinadores, como alguns haviam prognosticado. Era o homem da rua que estava celebrando”, acrescentou.
Políticos e analistas saudaram o fato de, pela primeira vez, os alemães se unirem aos festejos agitando bandeiras e cantando canções patrióticas, atividade que durante muito tempo haviam provocado culpas e exames de consciência. Cerca de 60 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a nova geração se sente menos responsável pelos crimes do nacionalismo nazista, com o que os analistas consideram uma aproximação mais “normal” ao patriotismo. E a Copa do Mundo foi uma perfeita válvula de escape para o novo orgulho.
As comemorações públicas fizeram maravilhas pela imagem da Alemanha no exterior. Na Grã-Bretanha, durante muito tempo os estereótipos nazistas e os fatos ocorridos na guerra ofuscaram a percepção popular da Alemanha. Mas agora as pessoas têm uma “imagem nova e positiva” de seu vizinho europeu, disse o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, ao jornal alemão de maior vendagem, o Bild am Sonntag. Por sua vez, o presidente alemão, Horst Köhler, afirmou que o acontecimento esportivo fez muito pelo país, tanto em nível nacional quanto internacional. “Não ganhamos a Copa do Mundo, mas ela nos deu tanto. Os visitantes e os telespectadores estrangeiros viram um país alegre, confiável e hospitaleiro”, disse aos líderes mundiais que no domingo assistiram a final do Mundial em Berlim. “Creio que este festival do futebol também nos deu, como alemães, uma nova janela para nós mesmos e nosso país”, acrescentou Köhler.
Felizmente, não houve sinais de violência de extrema direita, um problema muito debatido nos meses que antecederam o início do torneio. Durante a competição foi cancelada uma manifestação neonazista prevista para acontecer na cidade de Munique. Em contrapartida, as ruas se transformaram em uma reunião multicolorida. Famílias turcas e árabes enfeitaram suas janelas com a bandeira alemã e uniram-se aos festejos que aconteciam depois dos jogos, gritando “Alemanha” das janelas dos carros, sem deixar de tocar a buzina. E, apesar de milhões de torcedores de todo o mundo chegarem à Alemanha, o acontecimento foi pacífico.
Uma imagem duradoura do Mundial, transmitida para todo o mundo, foram as heterogêneas hordas de fanáticos eufóricos sob o Portão de Brandemburgo, outrora símbolo da Guerra Fria (1945-1989) e da divisão da Alemanha. “Em Berlim, houve um clima excepcional”, disse à IPS Heike, uma admiradora do futebol, empurrando um carrinho ainda enfeitado com uma bandeira negra, vermelha e amarela, um dia depois da partida da seleção alemã em uma das semi-finais. “Havia um enorme sentimento de unidade e felicidade nas ruas”, afirmou Heike, acrescentando que a vitória da Alemanha diante de Portugal, por 3 a 1, que deu aos alemães o terceiro lugar na Copa do Mundo, foi tão bom quanto se tivessem ganho o Mundial.
A equipe alemã, durante muito tempo ridicularizada, foi uma das maiores surpresas da competição. Desafiando os maus presságios, que previam sua derrota na primeira fase, travou uma vigorosa batalha. O novelista Günter Grass, ávido torcedor, destacou que o entusiasmo dos jogadores contagiou toda a nação. “O público dentro e fora dos estádios reagiu a uma equipe jovem que, segundo os padrões alemães, jogou de maneira nova e surpreendente, partindo para o ataque”, disse o ganhador do Prêmio Nobel em uma entrevista ao jornal Süddeutsch Zeitung. “Sua unidade foi transmitida ao público”, acrescentou. Boa parte do sucesso da seleção foi atribuída ao seu ativo treinador, Jürgen Klinsmann.
Sua incontida energia e sua negativa em sucumbir ante a pressão dos meios de comunicação, lhe valeram muitos admiradores, apesar de também ter havido pedidos para que deixasse o comando da seleção. Tamanho é o novo status de herói que o jornal Die Welt escreveu que Angela Merkel deveria aprender uma ou duas lições com ele. Entretanto é necessário mais do que um êxito futebolístico para impulsionar a gestão de Merkel. A Alemanha sofre um alto desemprego, um lento crescimento econômico e dívidas insustentáveis. Assim, o período de lua de mel do governo de centro-direita parece ter acabado.
Enquanto a Copa do Mundo atraia a atenção, Merkel enfrentou algumas de suas semanas mais complicadas. Surgiram cisões em sua “grande coalizão”, foi aprovada a maior alta de impostos da história alemã e os políticos entraram em conflito diante do problema sobre como deixar menos caro o complexo sistema de saúde. “Internacionalmente, tanto na União Européia quanto nos Estados Unidos, Merkel é muito bem vista. O problema é que deve tentar ter um êxito semelhante na política nacional”, disse Novy, da Fundação Bertelsmann.
Para muitos alemães, a Copa do Mundo foi uma oportuna distração. Enquanto os editoriais dos jornais expressavam preocupação quanto á necessidade de se apertar mais o cinto e pelas reformas, o público se dedicava ao futebol que aparecia nas primeiras páginas e em apostar para o próximo jogo. “Obrigado aos rapazes alemães por um momento grandioso”, dizia um cartaz feito à mão que era agitado durante o jogo de sábado. “Pena que tudo chegue ao fim”.

