Nova Délhi, 14/07/2006 – A Índia começa lentamente a se recuperar da comoção causada pelos devastadores atentados terroristas na cidade de Mumbai e a se perguntar sobre os possíveis motivos por trás da tragédia. Pelo menos 200 pessoas morreram e outras 700 ficaram feridas na terça-feira na capital financeira do país ao explodirem sete bombas coordenadas, em trens e estações lotadas no período da tarde, o de maior movimento. Muitos compararam esses atentados, por sua magnitude e características, com os cometidos em março de 2004 em Madri, quando morreram 192 pessoas. Os da capital espanhola foram os piores ataques terroristas na história da Europa.
Os espanhóis responderam a isso derrotando nas urnas o candidato do primeiro-ministro Jose María Aznar (1996-2004), estreito aliado do presidente norte-americano George W. Bush em sua “guerra contra o terrorismo”, e colocaram no poder o socialista José Luis Rodríguez Zapatero, que rapidamente retirou as tropas espanholas do Iraque. Entretanto, a Índia não parece disposta a propiciar uma mudança política semelhante, mas os atentados de Mumbai despertaram muitas dúvidas entre a população local.
Algumas das perguntas que surgem são: Estes ataques bem articulados e coordenados supõem uma séria ameaça à estrutura social indiana e à sua democracia? Quem realizou estes atentados e quais motivos teve? Como a Índia deveria responder a esta violência sem perder sua democracia e suas obrigações constitucionais de defender os direitos humanos? E, não menos importante, qual será o impacto provável dos ataques no processo de diálogo com o Paquistão? Nova Délhi responsabiliza sistematicamente as milícias islâmicas apoiadas por Islamabad pelos atentados cometidos na Índia nos últimos anos.
Esta última pergunta poderia ser mais fácil de responder do que as anteriores. “Não vemos nenhuma dificuldade na próxima rodada de conversações bilaterais. O Paquistão foi um dos primeiros países a condenar os ataques em Mumbai. Nenhum dedo foi levantado contra Islamabad por parte dos funcionários indianos”, disse à IPS um representante do Alto Comissariado do Paquistão em Nova Délhi. “Cremos que os dois países estão realmente comprometidos em sua aproximação há dois anos e não permitirão que nenhum caso de violência faça naufragar o importante processo de paz”, acrescentou. Embora as agências de inteligência indianas não descartem a participação de elementos “hostis” dentro dos serviços secretos paquistaneses nos casos de terrorismo contra a Índia, também reconhecem que o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, combate duramente os extremistas islâmicos tanto em seu país quando no vizinho Afeganistão.
Os atentados de terça-feira foram os piores já cometidos na Índia, seguidos pelos do dia 12 de março de 1993, também em Mumbai, que causaram a morte de 257 pessoas. Estes ataques foram considerados uma “retribuição” de extremistas islâmicos à demolição de uma mesquita do século XVI e à discriminação sofrida pelos muçulmanos indianos. Já os atentados da última terça-feira foram diferentes. As vítimas não pertenciam a uma categoria em particular, mas simplesmente eram parte dos quatro milhões de pessoas que utilizam o sistema de trens urbanos da cidade.
“Esta sua característica aleatória faz com que a violência seja especialmente temida. Ela te intimida e o deixa extremamente vulnerável. Porém, mais além disso, não supõe nenhum desafio para o sistema político nem para a democracia”, afirmou o especialista em política Achuin Vanaik, da Universidade de Nova Délhi. Nos últimos tempos, o terrorismo não conseguiu criar na Índia a sensação de uma crise, nem ameaçou a estabilidade do governo e nem estimulou a violência entre hindus e muçulmanos. O público indiano simplesmente resiste à provocação. Isto se deve à maturidade da cidadania indiana e a sua afirmação do pluralismo social, mais do que à forma como o governo maneja o problema do terrorismo.
O tratamento dado pelo governo a atentados passados “esteve marcado pela falta de inteligência, investigações desordenadas e ausência de interrogatórios das testemunhas”, disse Nitya Ramakrishnan, advogado de Nova Délhi e defensor das liberdades civis. “O Estado não conseguiu reunir a informação necessária para processar os culpados em nenhum dos casos, nem para criar uma base de dados sobre os diferentes grupos e seus vínculos. Dificilmente existirá algum caso em que um suposto terrorista tenha sido julgado com a adequada evidência”, afirmou. O fato de nenhum grupo ter assumido os atentados estimula ainda mais as especulações em todos os setores da sociedade. O governo e a imprensa falam de organizações islâmicas como Lashkar-e-Toiba (Soldados de Deus), originária do Paquistão, ou o Movimento de Estudantes Islâmicos da Índia, mas sem apresentar nenhuma evidência.
A esquerda e a direita na Índia tiveram reações diversas aos ataques. Os partidos esquerdistas, que apóiam o governo do primeiro-ministro Manmohan Singh, e o caráter secular do Estado, pediram moderação e solicitaram aos cidadãos para que não respondam com violência contra os muçulmanos. Por outro lado, os partidos direitistas, como o pró-hindu Bharatiya Janata, que lidera a oposição, acusou o governo de “ignorar” a segurança nacional e pediu a adoção de severas medidas de segurança, com a Lei de Prevenção ao Terrorismo. “As leis draconianas apenas deixariam vulneráveis os direitos fundamentais dos cidadãos e desvalorizariam a democracia”, alertou Vanaik. “Isto seria trágico. As restrições das liberdades apenas brutalizarão as pessoas comuns e estimularão a irresponsabilidade oficial, o abandono do dever e o abuso de poder. Essas medidas desviam a atenção do muito mais grave dano causado pelos excessos do Estado na população”, ressaltou.

