Irã: EUA, cão que late…

Washington, 14/07/2006 – Em cada declaração sobre o Irã, os funcionários do governo dos Estados Unidos repetem que o presidente George W. Bush “não descarta nenhuma opção”, deixando a porta aberta a um possível ataque militar. Entretanto, uma pouco destacada passagem do documento oficial sobre a estratégia de segurança nacional norte-americana sugere que o presidente já teria decidido não usar a força militar para obrigar o governo iraniano a suspender seu controvertido programa de desenvolvimento atômico. Por outro lado, Washington prevê concentrar seus esforços em pressionar por transformações internas em Teerã, convencido de que isso levará a uma mudança em sua política nuclear.

A cobertura jornalística da apresentação, dia 16 de março, da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos se deteve particularmente na doutrina de política externa preventiva. Mas uma leitura cuidadosa do documento revela que sua mensagem verdadeira, ignorada pela imprensa, é que a Casa Branca se convenceu de que o Irã não cederá em seu plano nuclear e a única saída e propiciar uma “mudança de regime”. O documento coloca em um segundo plano a preocupação com o programa nuclear iraniano. Teerã assegura que o plano tem fins pacíficos, mas as potências ocidentais, lideradas pelos Estados Unidos, suspeitam que o objetivo seja fabricar armas de destruição em massa.

“Os Estados Unidos têm maiores preocupações sobre o Irã. O regime desse país patrocina o terrorismo, ameaça Israel, busca frustrar a paz no Oriente Médio, mina a democracia no Iraque e nega as aspirações de seu povo pela liberdade”, diz o documento. “A questão nuclear e nossas outras preocupações, em última instância, só poderão ser resolvidas se o regime iraniano tomar a decisão estratégica de mudar suas políticas, abrir-se e dar liberdade ao seu povo. Este é o objetivo final da política norte-americana”, destaca. Esta declaração cuidadosamente elaborada reconhece a “mudança de regime” como a principal meta de Washington.

O conselheiro para segurança da Casa Branca, Stephen J. Hadley, ao falar no Instituto de Paz no mesmo dia em que foi apresentado o documento, disse que a estratégia consiste em “manter unida a comunidade internacional e fazer com que o Irã mude sua política sobre a questão nuclear, sobre seu apoio ao terrorismo e sobre o tratamento dado ao seu povo. O que eu disse e o que diz este documento é que necessitamos que os regimes mudem suas políticas”, acrescentou. O que tanto o documento de Washington quanto as declarações de Hadley sugerem é evidente: o objetivo é conseguir uma mudança interna no Irã, que, por sua vez, derive em uma mudança na política nuclear, então, não há necessidade de uma ofensiva militar, que, do contrário, criaria obstáculos à transformação política.

Uma matéria do jornalista David Sanger publicada pelo jornal The New York Times no dia 19 de março, citando um funcionário de Washington, também forneceu indícios de que a administração Bush não usará a força contra o Irã. “A realidade é que a maioria de nós pensa que os iranianos irão fabricar uma arma ou desenvolver a tecnologia para fazer isso, cedo ou tarde”, disse o funcionário, e acrescentou que os mais otimistas consideram que Teerã levará “10 ou 20 anos” para conseguir isso. A longa e infrutífera campanha da secretária de Estado, Condoleezza Rice, para que os outros quatro membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (China, França, Grã-Bretanha e Rússia) apóiem sanções contra o Irã, abrindo, assim, a porta para um ataque, tem somente a finalidade de tornar mais crível a ameaça.

Porém o governo Bush nada fez para indicar que realmente prevê usar uma resolução do Conselho como plataforma para um ataque preventivo. No dia 30 de abril, após uma reunião sobre a questão iraniana entre os chanceleres da União Européia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o chefe da diplomacia do bloco europeu, Javier Solana, disse que “ninguém havia considerado a possibilidade de uma solução militar” ou de formar uma “coalizão de dispostos” como ocorreu no Iraque em 2003. As únicas sanções multilaterais contra o Irã mencionadas por funcionários de Bush se referem a “isolar” esse país cortando relações ONU.

Os Estados Unidos não podem fazer mais nada por si só para isolar o Irã, pois não têm relações diplomáticas com seu governo há 27 anos e adotou sanções econômicas em 1995. De todo modo, ainda que as potências apoiassem sua iniciativa, passariam meses antes que as sanções entrassem em vigor e muito mais até se ver quais resultados dariam, se é que existiriam. Por outro lado, os cientistas iranianos seguiriam com o enriquecimento de urânio. Apesar da evidência do êxito iraniano na primeira etapa de seu programa nuclear, Rice continua expressando confiança em que a ameaça de isolamento econômico e diplomático terá efeitos devastadores em Teerã. “Não creio que os iranianos possam tolerar o grau de isolamento que sofrerão se não fizerem a escolha certa”, afirmou no dia 31 de maio em uma entrevista na televisão. (IPS/Envolverde)

* Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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