Acampamento de Ruweishid, Jordânia, 14/07/2006 – É conhecida como Terra de Ninguém. Trata-se de uma pequena faixa de deserto na fronteira entre Jordânia e Iraque e que não é reivindicada por nenhum dos países. Ali, milhares de refugiados curdos esperam a hora de conseguir um lar. Quando milhares de refugiados curdos do Irã abandonaram seu país de origem depois do triunfo, em 1979, da Revolução Islâmica, conseguiram instalar-se em Kellar, no norte do Iraque. Nem todos eram civis que fugiam da repressão iraniana. Alguns simpatizavam com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), organização rebelde dos curdos da Turquia, e parte deles participava da filial desse grupo no Irã.
Como temiam represálias de agentes iranianos por suas atividades, afastaram-se da fronteira Irã-Iraque em 1982, rumo ao acampamento de refugiados de Al Tash, nos arredores da cidade iraquiana de Ramadi. “Somos um grupo de moradores e simpatizantes de partidos e organizações iranianas contrário ao governo do Irã”, disse à IPS um desses refugiados, Azad Gvanmiri. “Somos refugiados há 27 anos, e há um ano e meio fugimos porque tememos ser atacados pelo regime islâmico iraniano. Não somos livres. Estamos entre dois países que nos rechaçam. Não nos deixam entrar na Jordânia. O Acnur nos diz que não é problema seu, que depende da Jordânia, mas o governo jordaniano diz que o problema é do Acnur”, acrescentou.
Sadr, um curdo-iraniano que conseguiu chegar à Jordânia em 2003, lembrou a vida em Al Tash. “Éramos mais de 10 mil pessoas e o acampamento estava cercado por arame farpado. O governo iraquiano nos deu documentos de identidade que diziam que não tínhamos direito de nos afastar de Ramadi. Durante todos esses anos não tivermos instalações, escolas formais ou serviços de saúde. E infelizmente nenhuma organização nos ajudou”, afirmou. Na medida em que a guerra avançava, muitos fugiram do Iraque e conseguiram refúgio no acampamento de Ruweishid, em território jordaniano, onde aguardam para seguir a outros países, especialmente da Europa. Os que ficaram não tiveram tanta sorte.
Depois do segundo ataque contra a cidade de Faluja em 2004, a vida ficou mais difícil nessa região da província de Al-Anbar, na fronteira com a Jordânia. Duas centenas de curdos iranianos do acampamento de Al Tash abandonaram o Iraque em busca do apoio de amigos e familiares da Jordânia. Mas, o governo desse país não deixou que entrassem, entendendo que já estava no máximo de suas possibilidades: para os palestinos, inclusive, as fronteiras jordanianas já estavam fechadas, e tiveram que optar pela Síria. Os curdos puderam abandonar o Iraque, mas estão presos nesta região fronteiriça conhecida como Terra de Ninguém.
Com apenas 20 anos, Khabat Muhammadi é o líder e porta-voz dos residentes do acampamento. “Em 11 de janeiro saímos daqui para nos reunirmos com funcionários do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Não temos alimento, o ambiente está ruim. Temos muitos problemas, mas não nos receberam”, disse à IPS. Há quase um ano e meio os refugiados na Terra de Ninguém esperam pela oportunidade de encontrar uma vida em paz, à margem da guerra e do caos no Iraque e em seu país natal. Todos os dias, meninos e meninas do acampamento – quase a metade de sua população – se dirigem à estrada entre Amã e Bagdá para pedir água e comida aos caminhoneiros.
Os dirigentes do assentamento tentaram enviar adultos para essa tarefa, mas os motoristas só demonstravam compaixão com as crianças. “Se eu fosse até os caminhoneiros iraquianos, não me dariam nem um pouco de água para beber”, disse Gvanmiri. Mas as crianças, muitas vezes, nem mesmo pedem. Simplesmente, pegam água ou combustível dos caminhões. “Às vezes os motoristas as repreendem”, contou Muhammadi. As crianças do acampamento da Terra de Ninguém erstão por toda a parte. Cinqüenta e um por cento dos refugiados ali têm menos de 18 anos, e vivem mais na estrada. Houve sete partos. Um dos bebês morreu, pois a mãe sangrou muito.
O Acnur manteve reiterados contatos com a população do acampamento para resolver sua situação, mas não apresentou nenhuma solução que os refugiados considerassem aceitável. Esta semana, um representante da agência e o governo do Curdistão iraquiano visitaram o acampamento da Terra de Ninguém para oferecer aos habitantes um lugar para se assentarem com seus compatriotas do norte do Iraque. Os refugiados não aceitaram. Muitos recordam seus familiares caçados no Curdistão iraquiano por agentes do regime do aiatolá Ruhollah Khomeini, o arquiteto da Revolução Islâmica iraniana. “Eu tinha três anos quando mataram meu pai em 1986, em Suleimaniyah”, contou um homem que se identificou como Barzan.
O Acnur não respondeu às mensagens de e-mail enviadas pela IPS perguntando sobre os curdos na Terra de Ninguém. Os refugiados dizem acreditar que esta agência da ONU os trata como refugiados econômicos, quando são refugiados políticos. “Os batizamos de Acampamentos dos Órfãos da Comunidade Internacional”, disse Gvanmiri. “Queremos ter nossos direitos reconhecidos. Não podemos viver no Iraque durante 27 anos sem direitos legais nem identidade, porque somos as vítimas. Nosso problema não é a fome, é político. Somos humanos e deveríamos viver todos como humanos debaixo do céu”, afirmou.
Os refugiados na Terra de Ninguém ficam sem opções. Já ameaçaram com uma greve de fome caso o governo jordaniano continue negando-lhes refúgio, e assim, o Acnur continua negando-se a intervir em seu favor. “Não podemos continuar vivendo assim”, disse Khabat Muhammadi. “Isto é como uma prisão. Não podemos viver outros 27 anos na Terra de Ninguém”. (IPS/Envolverde)

