Faluja, Iraque, 14/07/2006 – Mais de um ano e meio depois da ofensiva militar dos Estados Unidos contra esta cidade iraquiana seus moradores ainda sofrem devido à falta de emprego, pela lentidão dos planos de reconstrução e em virtude da contínua violência. Em novembro de 2004, as forças dos Estados Unidos lançaram a operação Fúria Fantasma contra Faluja, destruindo 70% dos edifícios, casas e comércios e matando entre quatro mil e seis mil pessoas, segundo a organização não-governamental Centro de Estudos para os Direitos Humanos e a Democracia, com sede nesta cidade.
A IPS constatou que a população continua sob rígidas medidas de segurança, com sistemas de vigilância através de leitura a laser de retina e impressões digitais, entre outros controles. A cidade é uma ilha. Nem mesmo os habitantes dos povoados locais, como Karma, Habbaniya e Khalidiya, sob jurisdição administrativa de Faluja, estão autorizados a entrar nela. A todos os que desejam entrar é pedida uma credencial, que só é obtida por funcionários do governo nascidas na própria cidade, empresários, alguns jornalistas e mercenários contratados pelo exército norte-americano. Outros podem entrar até o principal posto de vigilância na zona oeste e outros centros de vigilância considerados de “segunda classe”.
Logo que se passa pelo principal posto de vigilância, a primeira coisa que se vê são as casas destruídas no distrito de al Askari. Praticamente todas as moradias dessa zona foram derrubadas ou sofreram graves danos. “Não pude reconstruir minha casa porque é muito caro hoje em dia”, disse à IPS Walid, um ex-soldado iraquiano de 48 anos. Com pesar, contou como construiu seu lar há seis anos, que logo foi destruído no ataque norte-americano. As forças de ocupação “nos pagaram 70% da compensação, mas diante do desemprego, gastamos a maior parte em comida e remédios. Agora, todos esperam os 30% que faltam”, afirmou. A história de Walid é muito semelhante à de centenas de pessoas que perderam suas casas nos bombardeios de novembro de 2004.
Em frente ao Rio Eufrates fica o Hospital Geral de Faluja. Construído em 1964, foi ocupado por soldados dos Estados Unidos durante a ofensiva e, portanto, esteve fora de funcionamento. Médicos do hospital falaram com a IPS, com a condição de preservar o anonimato.”É mais um armazém do que um hospital, e não temos orgulho de trabalhar aqui”, disse um deles. “Há uma horrível falta de insumos médicos e equipamentos, e no Ministério da Saúde não se preocupam muito em solucionar o problema”, afirmou outro. Quando a IPS mencionou os projetos para construir outro hospital na cidade, um dos medicos disse, com ironia, que os moradores de Faluja estarão todos mortos antes que esses planos se concretizem.
Durante as entrevistas feitas pela IPS no hospital, pacientes e outros funcionários se aproximaram para denunciar a “falta de tudo”. Entretanto, destacaram o trabalho de algumas organizações não-governamentais locais e internacionais. Os moradores de Faluja lutam diariamente para sobreviver aos bombardeios, ao desemprego e à falta de suprimentos. Em uma loja de alimentos, se vê outra parte da história. Haji Majeed al Jumaily, de 64 anos, era um ferreiro até suas mãos ficarem fracas. Pergunta mais de uma vez ao comerciante quanto custa determinado produto, e repete: “Só tenho dois mil dinares (menos de US$ 1,5) e não sei o que comprar. Tudo está muito caro, e tenho de alimentar minha família. Somos nove pessoas”.
Haiji contou à IPS que dois de seus filhos morreram por disparos feitos ao acaso por membros do novo exército iraquiano há dois anos. “Agora, tenho de cuidar de suas mulheres e seis filhos, além da minha própria esposa e de mim”, disse. O mercado estava abarrotado de mercadorias, mas a pobreza era evidente. A maioria tinha pouco dinheiro para comprar alguma coisa. “O desemprego em Faluja é um grande problema a ser resolvido”. A situação financeira entrou em colapso e as pessoas não sabem o que fazer. O cerco (pelas forças norte-americanas) agravam este problema”, disse à IPS o advogado Jassim Al Muhammadi.
Ali Ahmed, estudante de 17 anos, interrompe e acrescenta: “Não precisamos de comunicados de imprensa nesta cidade. O que precisamos, na verdade, é uma solução para o eterno problema: os norte-americanos e os iraquianos no poder que nos acusam de terrorismo, que mataram milhares de nós e, agora, falam de reconstrução. São ladrões que só se preocupam com o que podem tirar das fortunas iraquianas. Apenas diga a eles que nos deixem em paz e que não queremos sua reconstrução fraudulenta”, afirmou. Ahmed assegurou que os soldados dos Estados Unidos matam e detêm as pessoas por qualquer motivo.
O prefeito de Faluja não esteve disponível para uma entrevista. Em sua última aparição na televisão, no último dia 14, anunciou sua renúncia. “Os norte-americanos não cumpriram as promessas que me fizeram e, por isso, devo renunciar”, afirmou. De acordo com um relatório sobre a cidade divulgado no dia 21 de maio pela Rede Integrada de Informação Regional das Nações Unidas, “ainda há lentos progressos em assuntos humanitários”. O estudo diz que dois terços dos moradores que haviam fugido por causa do ataque norte-americano de 2004 retornaram à cidade, mas 15% continuam em seus arredores, “vivendo em escolas e edifícios governamentais abandonados. Aproximadamente, 65 mil pessoas continuam vivendo como refugiados”, informou Bassel Mahmoud, diretor dos projetos de reconstrução.

