Palestina: Israel aponta para Haniyeh

Jerusalém, 14/07/2006 – O primeiro-ministro da Palestina, Ismail Haniyeh limitou suas aparições públicas desde que o soldado israelense Gilad Shalit foi seqüestrado por combatentes islâmicos na fronteiriça Faixa de Gaza, por termor de ser assassinado em represália pelo exército israelense. No dia 30 de junho apareceu brevemente em uma mesquita na costa da Faixa, onde acusou Israel de usar o seqüestro do soldado como pretexto para voltar a invadir Gaza e derrubar o governo palestino, controlado pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas). “Toda esta guerra é a demonstração de que existe um plano premeditado”, afirmou Haniyeh, acrescentando que Israel procura “seqüestrar” seu governo, numa referência à detenção de oito de seus ministros e 20 legisladores, acusados de pertencerem a uma “organização terrorista”.

O exército israelense lançou uma grande operação em Gaza – de onde havia se retirado no ano passado – e na Cisjordânia em resposta ao seqüestro de Shalit, no dia 24 de junho. Haniyeh enfrenta seu momento mais difícil desde que assumiu o cargo em março. Israel bombardeou seus escritórios em Gaza no domingo e ameaçou demandar seu sangue se o soldado seqüestrado for ferido. O primeiro-ministro procura convencer o mundo de que seu governo é legítimo, apesar de Estados Unidos e União Européia considerarem o Hamas uma organização terrorista, e pediu que seja reiniciada a assistência internacional à Autoridade Nacional Palestina.

Mas seus esforços foram frustrados depois da participação da ala militar do Hamas no seqüestro do soldado e da decisão desse movimento islâmico de integrar os pequenos grupos armados que lançam foguetes artesanais desde Gaza contra alvos israelenses. Ao contrário, estas ações consolidam a idéia entre os líderes ocidentais de que o Hamas é uma organização radical e violenta. O drama do seqüestro levou Haniyeh a uma encruzilhada: mostrar-se responsável e pragmático diante do mudo, mas por outro lado, não deseja ser visto como um traidor por seus próprios partidários.

Inicialmente, funcionários do governo do Hamas asseguraram que trabalhavam pela rápida libertação do soldado, mas agora mudaram o tom e insistem em que Israel deve antes libertar todos os presos palestinos de suas prisões. Haniyeh é muito consciente das manifestações em Gaza por parte das famílias dos cerca de oito mil prisioneiros palestinos em Israel, reverenciados por seu povo como líderes da luta pela libertação nacional. Os próprios presos enviaram mensagens pedindo que Shalit não recupere a liberdade até que sejam soltos. “O seqüestro criou uma dinâmica que fará muito difícil a libertação do soldado sem obter nada em troca”, disse à IPS o ex-ministro palestino do Planejamento, Ghassan Khatib.

“Para o Hamas, a operação militar foi um sucesso. Aumentou sua popularidade. Mas se libertarem o soldado sem nada em troca, toda a operação sairá pela culatra no campo político. Não importa a pressão de Israel: se não der algo em troca, não o libertarão”, acrescentou Khatib. Os grupos armados que têm o soldados divulgaram um comunicado na noite de sexta-feira exigindo a libertação de mil presos palestinos por Israel, bem como o fim da invasão de Gaza. Em resposta, o governo israelense anunciou que não negociaria a libertação de Shalit.

“O primeiro-ministro, Ehud Olmert, reiterou que não haverá nenhum acordo e alertou que ou Shalit é libertado ou o resgataremos”, disse o porta-voz da chancelaria israelense, Mark Regev. Nos primeiros dias depois do seqüestro, parecia ter surgido uma divisão dentro do Hamas. Enquanto os líderes políticos queriam acabar com o assunto, a ala militar insistia em pedir a libertação dos presos palestinos. Também parecer ter havia um braço-de-ferro entre Haniyeh, que promovia uma postura mais moderada para resolver a crise, e Khaled Meshal, a principal figura do Hamas fora dos territórios palestinos – radicado em Damasco – de quem Israel suspeita ter partido a ordem do seqüestro. Meshal insistiu em que o soldado só pode ser libertado em troca dos prisioneiros palestinos.

Haniyeh e o presidente palestino, Mahmoud Abbas, respectivos líderes dos partidos políticos da Palestina opostos ao Hamas e à Al Fatah, logo pareceram estar na mesma linha de pensamento, ansiosos para colocar um fim ao episódio do seqüestro e temendo as conseqüências de uma grande ofensiva israelense em Gaza. A proximidade entre os dois partidos já havia se refletido no acordo alcançado na semana passada em um documento que exorta à criação do Estado palestino com as fronteiras existentes antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Isto significava um reconhecimento implícito da existência de Israel por parte do Hamas.

O documento, severamente criticado por alguns membros radicais do Hamas, como Meshal, também exorta pela formação de um governo de unidade nacional. Desta maneira, Abbas e Haniyeh esperavam convencer o Ocidente para que levantasse suas sanções e reiniciasse sua ajuda. Israel minimizou o documento assinalando que se tratava de um assunto “interno” palestino e indicando que, embora chamada a deter os atentados dentro do Estado judeu, prometia continuar com a guerra nos territórios ocupados. Gahssan Khatib afirmou que a disposição do Hamas em aceitar o documento era um “movimento na direção correta. O Hamas deve ser estimulado a isto, talvez na forma de um reinício da assistência internacional”, afirmou.

Entretanto, um dia depois do documento ser assinado, representantes do governo liderado pelo Hamas começaram a pedir a libertação dos presos palestinos das prisões israelenses em troca do soldado seqüestrado. A mudança parece ser uma reação diante da crescente pressão do público palestino, especialmente das famílias dos prisioneiros. Porém, Khatib tem outra explicação. “O governo palestino tentava dissociar sua atividade da ala militar do Hamas, mas não conseguiu. Os israelenses e a comunidade internacional vêem o Hamas como o Hamas, sem fazer diferença entre as alas política e a militar”, acrescentou .

Peter Hirschberg

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