Dadaab, Quênia, 14/07/2006 – No dia 20 de março último, o marido e um filho de Aaliya Omar Alas foram assassinados em sua aldeia na Somália. Nesse mesmo dia se perdeu de outro filho e quatro filhas, os quais aguarda desesperada no Quênia. “Estou triste porque perdi meu marido e filho. Não sei onde estão os outros. Nos separamos quando fugíamos”, contou á IPS no acampamento de refugiados de Ifo, no distrito queniano de Garissa, onde chegou em abril. O de Ifo é um dos três acampamentos existentes nas cercanias da cidade de Dadaab no árido nordeste do Quênia. Agora, Alas espera notícias de seus filhos sobrevivenrtes. “Rezo para que um bom samaritano me traga meus filhos. Ouvi dizer que vêm para Garissa. Se vierem, não tenho nada para dar a eles, mas pelo menos estaremos juntos”, disse.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) calculou que cerca de 10 mil somalianos conseguiram chegar aos acampamentos nos arredores de Dadaab entre janeiro e maio deste ano, devido ao recrudescimento da violência em seu país. Em junho chegaram, aproximadamente, mais 500. A população dos acampamentos supera as 130 mil pessoas, na maioria somalianos. “Necessitamos de mais dinheiro para enfrentar a chegada de novos refugiados. Se amanhã tivermos outra grande onda, talvez não possamos lhes dar o necessário”, disse à IPS Niaz Ahmad, funcionário de campo do Acnur em Dadaab.
“Construímos banheiros e abrigos provisórios, mas não temos lona suficiente para construir mais barracas”, acrescentou. As barracas provisórias têm um destroçado teto de plástico, papelão e tela velha. “De noite faz muito frio. Através dos buracos da barraca entram muitos mosquitos. É perigoso para o bebê, mas o que podemos fazer?”, diz Dahira Maalim Abdi. O rosto de sua neta de seis meses está cheio de picadas. A malária é endêmica na região. Até o momento, não há informação sobre nenhum foco de doença. A insuficiência de recursos e a superpopulação dos acampamentos aumenta as possibilidades de que isso ocorra, disse a representante do Acnur, Nemia Temporal.
Esta agência da Organização das Nações Unidas solicitou US$ 2,5 milhões para melhorar as condições de salubridade, abrigos adequados, alimentos e outras necessidades para os novos refugiados da Somália. Nas últimas semanas, mais de 300 pessoas foram assassinadas nesse país da África oriental, outras 1.500 foram feridas e 17 mil tiveram de abandonar suas casas nesta última etapa do conflito, segundo a ONU. O ressurgimento da violência começou quando dirigentes da Aliança para a Restauração da Paz e o Antiterrorismo, aparentemente financiada pelos Estados Unidos, manifestaram sua oposição aos tribunais islâmicos criados para restaurar a ordem em Mogadíscio, a capital da Somália.
No início deste mês, integrantes da União dos Tribunais Islâmicos assumiram o controle da cidade. Depois da queda da ditadura de Muhammad Siad Barre, em 1991, a capital e vastas zonas do país ficaram afundadas no caos. Os militantes islâmicos também tomaram o controle da cidade de Jowhar, ao norte de Mogadíscio, outro ex-bastião da insurgência. O governo interino somaliano começou a funcionar em 2004, mas sem muito apoio. A insegurança na capital mantém os legisladores fora da capital. Atualmente, realizam seu trabalho na cidade de Baidoa.
O governo e os líderes da União dos Tribunais Islâmicos reunidos em Cartum decidiram no último dia 22 pelo fim das hostilidades e se reconheceram mutuamente. O pacto contou com a intermediação da Liga Árabe. Espera-se que outra reunião dos dois lados para o dia 15 do mês que vem. Depois, foi informado que Hassan Dahir Aweys, opositor ao presidente somaliano, Abdullahi Yusuf, foi designado no sábado para presidir um conselho – também criado no fim de semana – que vai assessorar a União. Aparentemente, Aweys teria proibido sua entrada nos Estados Unidos por supostos vínculos com o terrorismo.
Alguns observadores disseram que os líderes das facções que não formaram parte das conversações de Cartum poderiam fazer perigar os acordos e criar mais confusão na Somália. Isto poderia aumentar a quantidade de pessoas refugiadas nos países vizinhos, incluindo crianças como Said Mohamed Abdullahi, de 8 anos. “Escapei da última guerra civil. Não vou à escola, mas ia quando estava na Somália”, contou à IPS. “Espero que a guerra acabe logo para que possa voltar à escola e terminar meus estudos. Quero ser engenheiro”, acrescentou.

