Saúde-França: Passagens aéreas contra epidemias no Sul

Paris, 14/07/2006 – Prevê-se uma arrecadação de aproximadamente US$ 1,3 bilhão para o fundo internacional destinado a financiar a luta contra doenças em países pobres, através de um imposto sobre as passagens aéreas, já implementado pela França para vôos domésticos e internacionais. O dinheiro procedente desse imposto, que entrou em vigor este mês na França, irá para o Unitaid, uma operação internacional para comprar medicamentos, lançada em junho para combater doenças como a síndrome da deficiência imunológica adquirida (aids), malária e tuberculose.

Atualmente, quem utiliza avião paga entre pouco mais de um dólar e US$ 51, dependendo do destino e da classe em que viajam. Espera-se que o imposto solidário, tal como é chamado, reúna US$ 200 milhões por ano somente na França. Este tributo especial, proposto inicialmente pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Jacques Chirac, também será cobrado por Chile, Chipre, Congo, Gabão, Costa do Marfim, Grã-Bretanha, Jordânia, Luxemburgo, Madagascar, Maurício, Nicarágua e Noruega.

A Comissão Européia, órgão executivo da União Européia, estima que em lugar do US$ 1,3 bilhão que seriam arrecadados com os países já comprometidos, se poderia chegar com este imposto a mais de US$ 10 bilhões por ano se essa cobrança fosse adotada em todo o mundo. “Nosso objetivo é fazer com que mais países adotem este imposto solidário sobre as passagens aéreas, com a perspectiva de conseguir, pelo menos, um bilhão de euros (cerca de US$ 1,3 bilhão)”, disse à IPS o chanceler francês, Philippe Douste Blazy. “A vantagem deste imposto é que significa uma pequena quantia de dinheiro comparada com o custo das passagens, e pode ser implementado pelos países sem afetar sua competitividade”, explicou.

Muitos especialistas em desenvolvimento aplaudiram a medida. “A idéia de um financiamento inovador para o desenvolvimento agora é um assunto que integra a agenda dos principais fóruns internacionais e que conseguiu amplo apoio da comunidade internacional”, disse à IPS a ativista franco-norte-americana Susan George, do Transnational Institute, de Amsterdã. O imposto se baseia no modelo desenvolvido por James Tobin, ganhador do Nobe de Economia em 1981, para gravar as transações internacionais no mercado de divisas e, assim, financiar o desenvolvimento.

Esses tributos podem ser aprovados em escala nacional, mas os especialistas argumentam que se o querem impor efetivamente é necessária a cooperação multilateral. Desde que Tobin apresentou pela primeira vez a idéia em um documento muito influente, publicado em 1978 e intitulado “Uma proposta de reforma monetária internacional”, o debate passou a centrar-se no “financiamento inovador para o desenvolvimento”. Estão sendo discutidos novos mecanismos de financiamento para tentar cumprir os oito Objetivos de Desenvolvimento para o Milênio, aprovados na Cúpula da Organização das Nações Unidas, em setembro de 2000, e que incluem combate à pobreza extrema, à fome, ao analfabetismo e às enfermidades, entre outros aspectos, com prazo até 2015.

O imposto solidário visa especialmente a saúde. O Unitaid, criado pelos governos do Brasil, Chile, França e Noruega, utilizará o dinheiro para comprar medicamentos contra aids, malária e tuberculose, as três doenças mais letais nos países em desenvolvimento. A aids mata cerca de três milhões de pessoas por ano, incluindo 570 mil menores de 15 anos. Aproximadamente, outros cinco milhões morrem vítimas da malária e da tuberculose. A maioria das vítimas é de meninos, meninas e jovens do mundo em desenvolvimento, especialmente da África subsaariana.

Blazy disse que o Unitaid se centrará nas terapias anti-retrovirais para o tratamento do vírus da imunodeficiência humana (HIV), causador da aids, e em novos medicamentos para combater a malária. “O exemplo das vacinas na Global Alliance for Vaccines and Iimmunisation (Gavi) mostra como, quando a indústria se envolve, é possível obter volume e qualidade de produção apropriadas e a um custo acessível para os países do Sul”. O preço dos tratamentos para enfrentar as enfermidades constitui o principal obstáculo a ser vencido, dizem os ativistas.

“As novas terapias anti-retrovirais agora custam cerca de US$ 13 mil por pessoa ao ano”, disse à IPS o porta-voz da Act Up Paris, associação francesa de informação sobre a aids. “O Unitaid e o imposto solidário não devem permanecer como iniciativas marginais e vazias. Devemos lutar para mobilizar a vontade política em toda a Europa e América do Norte”, afirmou. O ex-presidente norte-americano Bill Clinton (1993-2001) saudou a criação do Unitaid qualificando-o de “uma iniciativa audaciosa”. O projeto conta com apoio de vários esportistas de renome, como os ex-jogadores de futebol Pelé e George Weah, da Libéria, e Samuel Etoo, do clube Barcelona.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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