Freetown, 14/07/2006 – Organizações de direitos humanos de Serra Leoa estão longe de uma unanimidade sobre o julgamento do ex-ditador liberiano Charles Taylor em Haia. Alguns preferiam que o processo se desenvolvesse no próprio país africano. O Tribunal Especial para Serra Leoa transferiu para a cidade holandesa o julgamento de Taylor, sobre quem pesam 11 acusações por crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante a guerra civil dos anos 90. O ex-ditador chegou terá-feira à Holanda procedente de Freetown, capital de Serra Leoa.
Esse tribunal especial continuará conduzindo o julgamento de Taylor, que está preso no centro de detenção do Tribunal Penal Internacional na localidade holandesa de Scheveningen, perto de Haia, sob custódia do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. “Para nós, está claro que Charles Taylor continua concentrando um apoio maciço” na África ocidental, disse na terça-feira à IPS, em Freetown, um diplomata britânico. “Temos de colaborar com a paz que custou tanto aqui, em lugar de contribuir para sua falência”. O ex-presidente foi acusado quando ainda ocupava a presidência da Libéria de assassinatos indiscriminados, recrutamento de crianças-soldado, agressão sexual e ataque a funcionários da ONU em Serra Leoa.
Em agosto de 2003, diante da pressão internacional e da renovada guerra civil que havia levado os rebeldes às portas da capita liberiana, Monróvia, Taylor aceitou isolar-se na Nigéria, onde ficou por três anos. Em março passado foi levado a Freetown e colocado sob custódia do Tribunal Especial de Serra Leoa. Taylor é acusado de ser o maior responsável pelas atrocidades cometidas nesse país no final do século XX. O tribunal examinará especificamente sobre que ocorreu a partir de 30 de novembro de 1996.
Nesse dia foi assinado o falido acordo de paz entre o governo e a Frente Unida Revolucionária (FRU) que em março de 1991 iniciara o conflito matando, violando e mutilando milhares de civis durante a guerra, que durou 11 anos. Os combatentes da FRU ficaram conhecidos por amputar as extremidades de suas vítimas. Os rebeldes entraram em Serra Leoa a partir da Libéria supostamente apoiados por Taylor, a quem se acusa de lhes ter fornecido armas em troca dos chamados “diamantes sangrentos”. Suas atividades também teriam ameaçado a segurança das vizinhas Guiné e Costa do Marfim.
“É bom que Taylor seja levado a Haia para ser julgado. Tem muito poder e se o julgamento acontecer aqui seus simpatizantes podem ressurgir e voltar para nos liquidar”, afirmou Lamin Jusu-Jaka, presidente da Associação de Amputados de Serra Leoa, que perdeu os braços após ser atacado por rebeldes armados com machados. Um porta-voz do governo que pediu para não ser identificado concordou com Jusu-Jaka. “Isto é um alívio. Pelo menos, a população de Serra Leoa e de toda a região agora poderá dormir em paz”, disse o funcionário. Mas nem todos compartilham desta opinião.
“As vítimas da guerra, vale dizer toda a população de Serra Leoa, estaria encantada se Taylor fosse julgado aqui”, afirmou John Caulker, da organização de direitos humanos Fórum of Conscience, com sede em Freetown. “Foi acusado aqui e os supostos crimes foram cometidos aqui. Sua transferência impediu que as pessoas vissem como se julga publicamente seu torturador número um”. O Tribunal Especial para Serra Leoa, com sede em Freetown, começou suas operações em 2003.
Até o momento, são 11 os acusados. Entre eles figuram líderes da FRU, combatentes da Força de Defesa Civil – milícias alinhadas com o governo na guerra civil – e três comandantes do Conselho Revolucionário das Forças Armadas, a junta militar que derrubou presidente Ahmad Tejan Kabbah em 1997. Não se conhece a data de início do julgamento de Taylor, que se declarou inocente das acusações na única aparição que fez perante o tribunal de Freetown. Funcionários do Tribunal Especial de Serra Leoa e várias centenas de testemunhas viajarão até Haia para que o julgamento possa acontecer.Se o ex-presidente for considerado culpado permanecerá em uma prisão da Grã-Bretanha.
O governo de Taylor na Libéria também se caracterizou pela violência reinante. Ele venceu as eleições presidenciais em 1997 depois de lançar uma guerra contra seu antecessor, Samuel Doe, a qual fez mais de 150 mil vítimas fatais. Em dezembro de 1989, o ex-presidente, junto com a Frente Nacional Patriótica de Libéria entrou no país desde a Costa do Marfim e acabou controlando várias porções do território desse país. A guerra civil na Libéria se caracterizou pela grande quantidade de violações de direitos humanos, que prosseguiram no governo de Taylor.

