Glasgow, 14/07/2006 – O terrorismo é alvo de profundas discrepâncias dentro da sociedade civil, que vieram à luz na sexta Assembléia da Aliança Mundial pela Participação Cidadã Civicus, iniciada quinta-feira em Glasgow, na Escócia. Estava previsto que seria assim. Não há uma visão única a respeito, do mesmo modo que não existe uma única sociedade civil. Existem diferenças entre organizações religiosas e laicas, entre as grandes e as pequenas, entre as do Norte industrializado e as do Sul em desenvolvimento, entre as árabes e as demais, disse Yuri Dzhibladze, presidente do não-governamental Centro para o Desenvolvimento da Democracia e Direitos Humanos, da Rússia.
“Pode-se ver as diferenças de opinião no destaque que as organizações da sociedade civil dão ao terrorismo e ao antiterrorismo. Aos que argumentamos que as medidas antiterroristas são tão perigosas quanto o próprio terrorismo, nos dizem que não temos nenhum interesse em combatê-lo”, explicou Dzhibladze. A ênfase que muitas organizações dão aos perigos associados à luta contra o terrorismo está fazendo com que percam apoio público. “Em muitos países, a população se preocupa dada vez mais com o terrorismo. Cada vez apóiam mais as medidas governamentais, em lugar de ouvir as organizações da sociedade civil que sugerem que o governo não faz corretamente seu trabalho”, disse Dzhibladze. “Por outro lado, os governos estão conseguindo convencer as pessoas de que fazem corretamente as coisas”, afirmou.
Na Rússia, as organizações não-governamentais conseguem enfrentar leis que pretendem limitar seu raio de ação. “ No entanto, o governo desatou um escândalo de espionagem que sugeriu que muitas ONGs eram financiadas por agências de inteligência”, afirmou Dzhibladze. “Seu trabalho começou a se relacionar diretamente com assuntos de segurança. Isto foi muito ruim. Muita gente que não sabia nada sobre elas agora acredita que representam uma ameaça”, acrescentou. As organizações da sociedade civil pretendem debater “até que ponto os esforços para combater o terrorismo e a legislação estão obstruindo a democracia”. Os especialistas marcaram as diferenças, sobre este flagelo, existente entre a sociedade civil e os governos.
Desta conferência em Glasgow participam representantes de mais de 700 organizações da sociedade civil, associações, fundações, privadas e outros grupos de aproximadamente 90 países que integram a rede Civicus. “Alcançar um equilíbrio sensato e socialmente aceito entre segurança e liberdade” é objeto de “um debate muito exigente e cheio de nuances”, explicou o consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Geoff Prewitt. “Dificilmente são encontradas soluções simples, pois as respostas dependem muito do contexto. A maioria das vezes se regem pela emoção, história, cultura, sistemas de valores e outras interações humanas complexas”, acrescentou.
A esse respeito, Prewitt esclareceu à IPS que estava dando seu ponto de vista pessoal e não o da Organização das Nações Unidas. O consultor do Pnud afirmou que as “agressões bilaterais” reduzem o espaço para instituições como a ONU. “Todo país ou território que abrigue “terroristas suspeitos” está sujeito a um ataque do acusador. Não se considera necessário contar com apoio das Nações Unidas, embora o mais surpreendente seja que os líderes ocidentais não levam em conta seu próprio eleitorado”. A guerra no Iraque que ignorou a opinião pública foi um exemplo disso, afirmou. A sociedade civil se viu diretamente afetada pela mudança de cenário.
“A fronteira, antes visível, entre os esforços para o desenvolvimento e as preocupações geopolíticas, se apaga cada vez mais. A Cruz Vermelha Internacional, a ONU e outras organizações semelhantes são vítimas de violentos ataques e sua neutralidade em zonas de conflito é prejudicada”. Os doadores não estão respondendo proporcionalmente às necessidades das populações em termos das verdadeiras necessidades assistenciais. “Nossas contribuições em dinheiro se politizaram e polarizaram”, acrescentou. Ministros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tem entre seus 30 membros todos os países do Norte industrial, “ampliaram seus critérios de ajuda ao desenvolvimento para incluir atividades relacionadas com a segurança às custas dos esforços centrados em combater a pobreza”.
As organizações da sociedade civil são forçadas a se comprometer com “seus sócios, atividades e posturas”, segundo Prewitt. “Cada vez estão mais reticentes em formar associações amplas, devido à legislação antiterrorista que pode provocar o congelamento de seus fundos”, acrescentou. Diante dessa pressão, as organizações da sociedade civil estão oferecendo uma variedade de respostas. Nos muitos fóruns mundiais destas organizações não se conseguiu alcançar um ponto de vista comum ou um consenso para as ações a serem adotadas em matéria de terrorismo. Alguns participantes têm a esperança de que esta assembléia da sociedade civil defina as medidas concretas a seguir. Mas ninguém se surpreenderá se isto não ocorrer.

