Venezuela-Rússia: Fuzil Kalashnikov se tropicaliza

Caracas, 14/07/2006 – O governo da Venezuela reorienta a busca por fornecedores de armamento por causa do veto imposto por Washington a esses negócios de Caracas. Agora, a nova sócia é a Rússia. Mas a diversificação de fontes de abastecimento bélico vigora desde o começo do século XX neste país sul-americano. Com o distanciamento político com os Estados Unidos e a proibição de Washington de vender armas para os venezuelanos, Caracas anunciou na semana passada que planeja converter a Rússia em sua sócia para fabricar fuzis Kalashnikov AK-103 e de peças para aviões de combate Sukhoi. A possibilidade de, com esta associação, a Venezuela ingressar em uma corrida armamentista é rejeitada pelo presidente da Companhia Anônima Venezuelana de Indústrias Militares, general Gustavo Ochoa Méndez.

O militar afirma que o compromisso da Venezuela com a paz está selado na Constituição, que “não fala em ir a outros países para invadir, nem de vender a terceiros as armas que fabrica no país”. Mas o último informe do Instituto Internacional de Estocolmo para a Pesquisa sobre a Paz, publicado este mês, afirma que o aumento da renda procedente do petróleo se traduziu na Venezuela em um aumento dos gastos militares no ano passado, e que este país se converteu no terceiro da América Latina que mais aumentou esses gastos, depois de Brasil e Chile.

Entretanto, os recursos destinados ao setor militar continuam sendo muito baixos em comparação com Chile e Colômbia – os maiores compradores de armas da região su-americana – e “até modestos”, disse à IPS o general da reserva e analista Alberto Muller Rojas. Este ano chegaram à Venezuela cerca de 30 mil fuzis Kalashnikov russos e os primeiros helicópteros também desse país. Caracas pretende comprar até 40 helicópteros russos MI-17 e MI-35, dos quais já chegaram três, enquanto que para os 80 mil homens de sua Força Armada foram comprados 100 mil fuzis AK-103, a última geração dos Kalashnikov, por US$ 400 milhões.

Também encomendou à Espanha 10 aviões de transporte C-295, dois de vigilância CN-235, quatro barcos-patrulha costeiros e quatro de navegação oceânica, num total de US$ dois bilhões. Caracas também propôs ao Brasil comprar 20 aviões Super-Tucano para treinamento militar e vigilância de fronteira. Para o analista político e sociólogo Alberto Garrido, a relação militar entre Caracas e Moscou faz parte de uma “aliança multipolar formada por Rússia, China e Irã” para enfrentar a pressão norte-americana, na qual a Rússia se converte em provedora de armas para a Venezuela.

Entretanto, Garrido considera que a associação para compra e fabricação de armamento não tem grande importância, embora seja preocupante que armas leves como os Kalashnikov acabem indo para mãos diferentes das da Força Armada venezuelana e acabem não sendo utilizadas para a defesa nacional. Esta associação estratégica é uma “modalidade inovadora” na fabricação de armas venezuelanas, segundo Müller Rojas, porque nunca antes este país se associou para a transferência de tecnologia na área militar, e seus antecedentes em fabricação de armamento foram com tecnologia própria, como no caso do primeiro veículo militar desenvolvido nos anos 60 denominado Sargento.

A nova estratégia defensiva supõe a ampliação da Força Armada em, pelo menos, 10 vezes seu tamanho, agora em 80 mil efetivos – entre Exército, Força Aérea, Marinha e Guarda Nacional – o que demorará de cinco a dez anos, segundo estimativas governamentais. O projeto de associação com a Rússia para fabricar fuzis AK-103 e peças de reposição para os Sukhoi, que a Venezuela vai comprar proximamente, será assinado durante a visita do presidente Hugo Chávez a Moscou em julho. Segundo declarações do embaixador venezuelano na Rússia, Aléxis Navarro, não se descarta a compra de 24 aviões de combate este ano.

Para a fabricação do Kalashnikov e de munições serão construídas duas fábricas no Estado agroindustrial de Aragua ao custo de US$ 300 milhões. O projeto vai gerar 800 empregos diretos e cinco mil indiretos, segundo as autoridades. Desde o início do século XX, quando foram reorganizadas as forças armadas sob a presidência do general Cipriano Castro (1899-1908), a Venezuela assumiu como política a multiplicidade de fontes para seu abastecimento de material bélico. Por esta razão, a decisão de Washington do dia 15 de maio de proibir a venda de armas para esse país, alegando que “não coopera suficientemente na luta contra o terrorismo”, não afetou muito o sistema de renovação do parque de armamentos, pois, apesar da proximidade histórica com os Estados Unidos, apenas 25% deste é de origem norte-americana.

Em janeiro, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, qualificou de “absurda” a decisão de Washington de vetar a venda para a Venezuela de 25 aviões Super-Tucano com tecnologia norte-americana, no valor de US$ 200 milhões. Amorim disse na época que “a Venezuela não é uma ameaça militar para ninguém”. “Seria conveniente abrir um debate nacional, porque não creio que esse seja um problema apenas nosso, dos militares. Ali deve haver uma participação muito mais ativa na discussão destes temas, porque a defesa do país, tal como considera a própria Constituição, é de responsabilidade de todos os cidadãos”, disse Rojas à IPS. Por sua vez, Garrido considera que um eventual enfrentamento militar entre Estados Unidos e Venezuela depende de este país suspender, ou não, suas vendas de petróleo para o mercado norte-americano, pois já “está tudo pronto para que o confronto ocorra”.

Ana Carolina Griffin

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