Fórum Social Mundial: Esquentando os motores para o Fórum africano

Nairóbi, 09/10/2006 – A determinação do programa do próximo Fórum Social Mundial, marcado para janeiro, no Quênia, promete uma tarefa titânica devido à enorme quantidade de assuntos a serem tratados e às milhares de organizações cujas participações estão previstas. Por isso, os organizadores já começaram a trabalhar nessas diretrizes. O programa tentará integrar toda a informação fornecia antes de 30 de agosto pelas organizações participantes a respeito de seus objetivos e suas tarefas. É a primeira vez que uma nação da África é sede única do FSM.

O encontro anterior deste tipo no continente africano, realizado no ano passado em Bamako, fez parte do chamado fórum policêntrico, que teve seus capítulos realizados nas semanas seguintes em Caracas e Carachi. O Fórum Social Mundial teve origem com a convocação de várias organizações da sociedade civil do Brasil, em 221, para reunir seus colegas de todas as partes do mundo em Porto Alegre. As duas edições seguintes e a de 2005 voltaram à capital gaúcha. Em 2004, o FSM se trasladou para a cidade indiana de Mumbai, mas, a tendência agora é que aconteça em lugares distintos do mundo a cada ano e que de tempos em tempos retorne a Porto Alegre.

Um rápido olhar às propostas enviadas mostra um leque de interesses e atividades. Desde a enviada pelo Global Unification África, com sede em Adis-Abeba, no sentido de a União Africana apresentar soluções reais para os problemas do continente, até a inclusão dos direitos humanos e ambientais no sistema educacional da África do Sul, apresentada pela Unidade de Educação Ambiental e Sustentabilidade da Universidade de Rhodes. Mas, principalmente, o FSM é conhecido por rejeitar a globalização em curso, que coloca em risco as pessoas e o meio ambiente. A Carta de Princípios do Fórum Social Mundial diz que o movimento está aberto “a organizações e grupos da sociedade civil contrários ao neoliberalismo, ao domínio do capital no mundo e a qualquer forma de imperialismo. O neoliberalismo se refere à filosófica política e econômica que rechaça a intervenção do Estado na economia”, acrescenta o documento.

O lema oficial do FSM é “Outro mundo é possível”, no qual o capital global não exerça seu domínio. De fato, o Fórum Social Mundial foi criado em oposição ao Fórum Econômico Mundial, que acontece há 30 anos, também no início do ano e que reúne na cidade turística de Davos, na Suíça, empresários e políticos, considerados condutores da globalização. O FSM continua se considerando sua contraparte, apesar de nos últimos tempos também participarem de Davos representantes da sociedade civil acadêmicos e importantes figuras do cinema.

Os aspectos que provavelmente serão tratados no FSM de 2007 são a globalização e os outros aspectos relacionados, como as regras injustas do comércio e o perdão da dívida, mas, algumas pessoas também esperam que não falte a discussão sobre desemprego, especialmente entre os jovens. “O desemprego juvenil é uma bomba-relógio”, afirmou Venant Williams, coordenador do Fórum Social da Tanzânia, que reúne várias organizações desse país da África oriental. “É necessário que o fórum avalie quais políticas existem para melhorar o emprego remunerado para os jovens”, afirmou Williams, à IPS em entrevista através de correio eletrônico.

Estatísticas oficiais indicam que mais de três milhões de pessoas na Tanzânia estão desempregadas atualmente, a maioria entre 18 e 34 anos. A emigração do meio rural para o urbano contribuiu para aumentar o desemprego nas cidades, que tem como conseqüência o aumento da criminalidade e outros problemas sociais. Na vizinha Quênia a situação só e um pouco menos preocupante. “Desde que terminei a universidade, há cinco anos, não consigo trabalho. Quais estratégias a longo prazo nossos governos podem implementar para dar trabalhos a homens e mulheres jovens? As respostas sairão deste tipo de fórum”, disse Otieno Karisi à IPS.

Karisi espera ouvir conselhos específicos de como os jovens podem ter acesso mais facilmente aos empréstimos de instituições financeiras, pois as condições que impõem são inalcançáveis. A falta de capital impede que montem seus próprios negócios. No ano que vem, as repercussões do Fórum Social Mundial podem chegar a superar seu âmbito tradicional e, assim, as preocupações de gene como Karisi chegariam aos dirigentes políticos, que é a que pode dar andamento às novas iniciativas contra o desemprego bem como a outros assuntos. “É necessário construir pontes para atrair gente que não faz parte do FSM e, assim, debater e mantê-la informada de nossas posições”, disse Oduor Ong’wen, integrante comitê organizador do Fórum Social Mundial 2007.

Espera-se que cerca de 150 mil pessoas procedentes de todo o mundo participem do fórum de Nairóbi, de 20 a 25 de janeiro, que terá apoio das principais organizações humanitárias, como Oxfam, Médicos Sem Fronteiras e ActionAid Internacional. Deixando os problemas e desafios de lado, o FSM costuma ser um encontro onde se pode apreciar um caleidoscópio de culturas diferentes, imagens e sons. O de Nairóbi parece que manterá esta tradição. “A África é injustamente marginalizada. Só o que mantivemos é nossa cultura, e por isso muitos africanos irão participar; as diversas culturas serão uma forma de expressão”, disse Ong’wen. (IPS/Envolverde)

Joyce Mulama

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