Argentina: Energia no limite

Buenos Aires, 09/10/2006 – Em uma corrida contra o tempo, o governo da Argentina impulsiona investimentos no setor energético para responder à crescente demanda e evitar um colapso que coloque um freio na atividade econômica. Com a geração elétrica quase no limite da capacidade instalada e um horizonte de esgotamento das reservas de gás e petróleo cada vez mais próximo, está ameaçado o ritmo de crescimento do produto interno bruto, que registra média de 8% ao ano desde 2003. O fantasma dos apagões e da racionalização do consumo de grandes usuários já rondou o governo em maio de 2004. Nessa oportunidade a causa principal da crise foi a escassez de gás natural, que obrigou a suspender as exportações do produto para o Chile.

Tanto em 2004 quanto agora, a razão é a incapacidade do sistema elétrico para enfrentar uma demanda em aumento. O gás fornece 53% da geração elétrica através de centrais térmicas. Outros 43% provêem de hidrelétricas e 4% das usinas nucleares. O Ministério do Planejamento Federal anunciou investimento de US$ 6,5 bilhões para centrais térmicas, hidrelétricas e atômicas, mas, teme-se que os resultados desse investimento não cheguem a tempo. De acordo com o titular da pasta, Julio De Vido, nas últimas semanas a demanda de eletricidade chegou cinco vezes a 17.300 megawatts, uma quantidade próxima da capacidade instalada de 23 mil megawatts, dos quais 18 mil são considerados “confiáveis” pelos técnicos, afirmou o ministro.

Em razão desse nível de consumo, o governo anunciou que a partir de novembro os grandes usuários (cerca de cinco mil empresas que representam 40% da demanda) deverão se auto-abastecer da energia que precisam, quando está superar seu consumo de 2005. Assim, a oferta elétrica se destinará de forma prioritária para garantir o fornecimento de consumidores residenciais, empresas médias e pequenas, entidades estatais e iluminação pública, e depois os grandes usuários. Está decisão, que causou mal-estar em algumas empresas, obrigará as indústrias a adquirir e por em funcionamento geradores próprios, ou contratar os serviços de novos geradores que forneçam o correspondente a esse consumo diferencial.

Com estas medidas e o próximo lançamento de um plano de educação para o consumo racional de energia, o governo do presidente Nestor Kirchner procura ganhar tempo até surgirem os primeiros frutos dos investimentos em andamento. O ministério sabe que para responder à realidade produtiva se deve incorporar ao sistema mil megawatts de capacidade instalada por ano. A escassez de gás em relação à demanda está elevando o consumo de diesel e óleo combustível para alimentar as centrais térmicas. Esses combustíveis são fornecidos ao mercado rural, que os utiliza nas máquinas agrícolas.

O ministro De Vido já anunciou que se trabalha para aumentar a cota da represa argentino-paraguaia de Yacyretá, no norte do país, e se começou a investir na finalização de Atucha II, uma central nucelar cuja construção está em andamento há muitos anos. Também há investimentos em Corpus, outra represa argentino-paraguaia, e em Garabí, uma hidrelétrica binacional como Brasil. Mas, em todos os casos se trata de projetos que poderão começar a render frutos nos próximos seis a 10 anos. No curto prazo será a colheita dos investimentos para construção de duas centrais térmicas de ciclo combinando, uma em Campana, na província de Buenos Aires, centro do país, e outra em Rosário, na província de Santa Fé, no nordeste.

Essas centrais deveriam começar a funcionar em 2008, mas, houve demoras nos últimos trâmites da licitação. E o tempo corre. Em conversa com a IPS o economista Alberto Muller, especialista em questões energéticas, explicou que a escassez de energia tem múltiplas causas, e que o Estado falha, sobretudo, na “falta de informação confiável” sobre reservas de hidrocarbonetos. Muller pertence ao Grupo Fênix, que coordena professores da Universidade de Buenos Aires que elaboram pesquisas propostas de política econômica para enfrentar os efeitos do modelo neoliberal aplicado neste país nos anos 90.

A Secretaria de Energia informou este mês que as reservas de gás (que permitiam garantir um horizonte de consumo de 35 anos antes da privatização do setor na década de 90) caíram de 10 para 8,6 anos, entre 2004 e 2005. As reservas de petróleo, asseguradas para os seguintes 13 anos no momento da privatização da empresa Yacimientos Petrolíferos Fiscales, caíram de 9,1% para 8,4% nesses mesmos anos. Essa mudança levou o governo a preparar um projeto de lei de fomento aos investimentos em exploração de hidrocarbonetos, uma iniciativa criticada pela oposição porque exime as empresas de pagar impostos.

O deputado de oposição Cláudio Lozano, da Força Porteña, acha melhor revogar os decretos que na década de 90 permitiram a livre disponibilidade de gás e petróleo para a exportação e propõe criar uma base de dados sobre as reservas. Lozano, economista da Central de Trabalhadores Argentinos, questionou a falta de controle público sobre as reservas de hidrocarbonetos. O governo acredita no que declaram as empresas que exploram os recursos, afirmou. Para Muller, é preciso melhorar o controle das reservas, investir na exploração e aumentar a capacidade instalada do sistema elétrico.

Nesse sentido, o governo está bem orientado, afirmou. “Se chegarmos a tempo com as centrais térmicas em andamento teremos um horizonte razoável para os próximos quatro anos”, afirmou. Mais difícil é, a seu ver, acelerar os investimentos em Atucha, Yacyetá e outras usinas. Nesses casos, será preciso esperar entre seis e 10 anos para ter resultados, explicou. Por outro lado, concordou com Lozano quanto à necessidade de conter as exportações de hidrocarbonetos. ‘Os chilenos não vão gostar, mas, na medida em que as reservas continuarem baixando não se pode pensar em continuar exportando”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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