Chile: Parlamento lidera ofensiva contra a Endesa

Santiago, 07/10/2006 – As duas câmaras do Congresso do Chile exigem que o governo controle as operações das centrais hidrelétricas, ao mesmo tempo em que se apressam para investigar se a empresa espanhola Endesa teve alguma culpa nas inundações registradas há algumas semanas nas regiões centro e sul do país. “Os senadores da oitava região do Bío-Bío estão convencidos da responsabilidade da Endesa nas inundações dos dias 11 e 12 de julho, porque é a quarta ou quinta vez que isto ocorre” em muitos anos, ainda mais com o grande caudal de águas registrado, disse à IPS Mariano Ruiz-Esquide, do co-governante Partido Democrata-Cristão, designado para levar o assunto ao Poder Executivo.

Legisladores de todos os setores pediram ao governo de Michelle Bachelet que adote medidas para enfrentar os transbordamentos de rios e reduzir seus efeitos na população, para que não se repita a dramática situação vivida no último temporal que atingiu uma vasta região que vai desde a quinta até a décima região, e que deixou 25 pessoas mortas e mais de 25 mil desabrigados. Segundo Ruiz-Esquide, é necessário elaborar uma “nova legislação para o manejo das empresas hidrelétricas instaladas na pré-cordilheira (dos Andes)”, a qual deveria estabelecer parâmetros para operar as cotas das represas, “já que as companhias costumam acumular água até o topo para não perder dinheiro”.

A nova normativa também teria que especificar com que antecipação as empresas devem informar as autoridades que abrirão as represas e também como serão medidos eventuais danos e responsabilidades que possam ocorrer neste tipo de operação, comentou-se na sessão especial de quarta-feira no Senado. Além disso, a Câmara de Deputados formou esta semana uma comissão para investigar se houve irregularidades na abertura das comportas da hidrelétrica Pnague, instalada pela Endesa no Rio Bío-Bío, na zona da cordilheira da oitiva região.

A comissão da Câmara baixa também quer saber sobre eventuais prejuízos causados pela empresa a pessoas e agricultores dessa região, que fica ao sul de Santiago. O território sofreu o transbordamento do Bío-Bío, uma das maiores bacias do país com 24 mil quilômetros quadrados, o que provocou o alagamento de numerosas casas e plantações, interrupção de estradas e queda de pontes. Durante o temporal, o rio atingiu um caudal de 15 mil metros cúbicos por segundo, enquanto o normal é em torno de 900 metros cúbicos/segundo.

Um dos casos mais dramáticos foi vivido por um casal da localidade de Nacimiento, 549 quilômetros ao sul de Santiago, já que a repentina cheia arrastou suas duas filhas gêmeas de 11 anos, que morreram afogadas. A família, que também perdeu sua casa, plantações e animais domésticos, culpa diretamente pela tragédia a Endesa e suas centrais Pangue e Ralco. Apesar de o governo ter reconhecido a responsabilidade que lhe cabia ao permitir a construção de casas em bacias de rios e ladeiras de montanhas, as acusações se centraram de imediato na Endesa Chile, filial da firma espanhola de mesmo nome, pela abertura das comportas de suas represas.

O presidente do não-governamental Instituto de Ecologia Política, Manuel Baquedano, elogiou as medidas tomadas pelo Parlamento, mas acredita que este demorou muito para enfrentar um problema evidente. “O país não tem regulado o manejo das represas”, disse o ambientalista à IPS. A seu ver, é necessário que as empresas assumam todos os impactos que possam ser causados por suas centrais antes de começar a construção. Para isso, devem instalar defesas fluviais para proteger os aldeões das bacias e habilitar um sistema de informação sobre sua operação.

Como Ruiz-Esquide, Baquedano quer que sejam estabelecidas as responsabilidades pelas inundações registradas até agora, o que poderia incluir processos penais considerando que há mortes. Renato Galán, prefeito de Hualqui, localidade da oitava região a 532 quilômetros ao sul de Santiago, afirmou à IPS que a “Endesa está chantageando o governo chileno, porque sabe que o país precisa de energia”, procurando explicar de alguma maneira a passiva atitude assumida pelas autoridades nacionais até agora. Galán criticou especialmente o Ministério de Obras Públicas e a Direção Geral de Águas (DGA) por “defender a construção de novas hidrelétricas, às custas de um desenvolvimento sustentável e mais eqüitativo”.

Durante a sessão do Senado alguns legisladores também reprovaram o ministro de Obras pPblicas, Eduardo Bitrán, por “defender a Endesa e a represa Pangue”. Hualqui, com 20 mil habitantes, é uma das localidades mais prejudicadas com a construção das centrais Ralco e Pangue, já que há sete anos suportam o transbordamento dos rios. Isso os levou a apresentar um recurso de proteção, que foi rejeitado pelo Tribunal de Apelações da cidade de Concepción, e uma demanda por dano ambiental, que atualmente está no Supremo Tribunal de Justiça, na qual depositam suas esperanças.

Segundo Galán, o município não aspira indenizações, mas que a empresa construa defensas fluviais para deter o avanço das águas sobre os povoados. Mas não descarta levar o conflito a algum organismo internacional. Por sua vez, os moradores não ficaram atrás. Moradores de Los Ángeles, Santa Bárbara e Hualqui apresentaram no dia 25 de julho três recursos de proteção contra a central Pangue, pela abertura de suas comportas, e contra a DGA, os quais foram acolhidos pelo Tribunal de Apelações de Concepción.

Por outro lado, em uma carta enviada ao jornal El Mercúrio nesse mesmo dia, o gerente de Comunicações da Endesa, Renato Fernández, negou alguma responsabilidade da empresa nos alagamentos, dizendo que “as centrais procederam adequadamente na operação de seus equipamentos, ajustando-se estritamente aos procedimentos estabelecidos para esse tipo de circunstância”. Fernández atribuiu a tragédia a um “fenômeno climático extraordinário e incomum” registrado na região, considerando que caíram 400 milímetros de chuva em apenas 48 horas.

Entretanto, o presidente do Instituto de Ecologia Política garantiu que esse organismo alertou a empresa, antes que iniciasse a construção das centrais, “que haveria importantes mudanças climáticas nos próximos anos no país”, para os quais era preciso se preparar. Da mesma forma, na sexta região a central Rapel, também da Endesa, abriu suas comportas várias vezes durante as noites do temporal, causando graves problemas aos agricultores da zona de Navidad, 168 quilômetros ao sul de Santiago.

O deputado da Democracia Cristã Juan Carlos Latorre disse estar convicto da responsabilidade da Endesa, “porque no caso da central Rapel, todo a água que baixa pelo Rio Rapel tem sua origem na represa. Aqui não há outra possibilidade que não seja o manejo abusivo das comportas”, destacou. Latorre exigiu que a Endesa compense as famílias que tiveram prejuízos. Às críticas pelo manejo da comportas também se somaram organizações ambientalistas e da sociedade civil da décima-primeira região de Aysén, onde a Endesa, em conjunto com a firma local Colbún, projeta construir quatro hidrelétricas, e para isso vai inundar 10 mil hectares de território virgem. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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