Colômbia: Indígenas nukak acuados entre a gripe e a guerra

Bogotá, 09/10/2006 – Dizimados por uma epidemia de gripe e afastados de seu território por causa da guerra, os indígenas nukak de Colômbia se vêem cara a cara com a extinção. “É absolutamente essencial que o governo encontra a forma de permitir que os nukaks retornem ao seu território, do contrário não sobreviverão no longo prazo”, alertou está semana Stephen Corry, diretor da não-governamental Survival International, com sede em Londres e que apóia a autodeterminação dos povos tribais. Os nukaks, hoje pouco mais de 500, foram “descobertos” somente em 1988, quando eram o dobro de sua população atual. Habitam na selva amazônica e são considerados um dos povos nômades com mais alta mobilidade do mundo. Seu encontro com a cultural ocidental foi, verdadeiramente, um choque cultural.

Eles se movem em um amplo território entre os rios Guaviare e Inírida, no leste do país, onde o Estado, para protegê-los, lhes destinou uma reserva de 900 mil hectares. Mas, exatamente pelo Guaviare chegou a praga da colonização, sobretudo com plantações de coca, matéria-prima da cocaína, da qual a Colômbia é primeiro produtor mundial e cujos cultivos são combatidos com o apoio norte-americano mediante fumigações como herbicida glifosato. A indústria dessa droga é hoje o combustível da longa guerra colombiana, na qual se enfrentam guerrilhas esquerdistas, surgidas em 1964, contra o exercito e grupos paramilitares ultra-direitistas comandados por chefes do narcotráfico e criadas nos anos 80.

As fumigações no Guaviare, como em todo país, provocaram a migração dos plantadores de coca para novas áreas de plantio, incluindo a área dos nukaks, que já não se sentem seguros em seu território e, por isso, cerca de metade saiu em ondas rumo a povoados habitados por “brancos”. O contato ao mesmo tempo fascina e adoece os nukaks. Eles se fascinam por ferramentas, como machado, anzóis, lanternas. Assim, com a cultura ocidental “descobriu” os nukaks, eles encontraram coisas tão maravilhosas como um aparelho de onde sai musica. Descobriram os CDs. Mas, o mesmo contato os deixa doentes morrer por uma simples gripe, contra a qual seus organismos não tem defesas e sua medicina indígena não sabe o que fazer.

De fato, a drástica redução da população nukak se deve às enfermidades. Uma nova epidemia de gripe foi o que encontrou em uma recente visita aos nukaks o ativista da Survival, David Hill, que deu o alarme ao regressar a Londres. Existe uma centena de contagiados e entre os dias 1º e 4 deste mês três indígenas tiveram de ser hospitalizados. O primeiro grupo deixou a selva há três anos, por causa de um combate entre duas facções paramilitares rivais. O segundo o fez há dois anos, por outro enfrentamento entre essas milícias e a maior guerrilha, as Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (FARC).

Um terceiro grupo saiu há um ano, porque as FARC ameaçaram de morte Monikaro, um dos nukaks. O êxodo grande começou em novembro: cerca de 70 indígenas chegaram a São José do Guaviare, capital do departamento de mesmo nome, e aproximadamente 90 saíram com destino a Tomachián, povoado selvático próximo ao rio Inírida, o oeste de suas terras. Mas, em Tomachipán já estavam assentados outros nukaks. “A comida não era suficiente para todos, por isso foram para São José, em março”, disse à IPS Héctor Mondragón, economista e indianista assessor da Organização Nacional Indígena da Colômbia (Onic) e um dos primeiros não-nativos a aprender a língua nukak há 16 anos.

Quando a noticia do deslocamento chegou a Bogotá, o governo começou a agir. Após várias semanas de preparação, trasladou cerca de215 indígenas para Puerto Ospina, entre São José e a reserva nukak, embora ainda bem longe da zona de onde saiu o grupo majoritário de refugiados. Puerto Ospina, uma floresta relativamente pequena cerca por fazendas, em parte de antigos colonos dedicados à pecuária e à produção de cacau, faz parte da Reserva Camponesa do Guaviare, uma fórmula aplicada em governos anteriores para deter o avanço da fronteira agrícola e na qual os próprios agricultores cuidam para que suas propriedades permaneçam com último limite contra a selva.

Aí, o governo estabeleceu os nikaks em dois acampamentos, em um estão os recém-chegados e os que haviam se dirigido antes diretamente para São José. No outro distribuiu os demais. “Especialistas em saúde haviam alertado que assentar 200 nukaks em um único lugar equivalia a facilitar o surgimento de epidemias”, segundo a Survival, pois estes indígenas se movem e convivem em pequenos grupos formados por um casal, seus filhos e seus irmãos solteiros. A epidemia afetou mais o grupo “menos tradicional”, que aceitou, em principio, deixar de ser nômade e se assentou no acampamento, segundo Mondragón. “A crítica que se faz é que o modelo de traslado não é o mais conveniente. O governo os levou para um lugar e os amontoou”, acrescentou o indianista.

Donos de um profundo conhecimento da selva, os nukaks sabem onde amadurecem os frutos e em que época do ano, e quando e onde farão boa pesca e caça, e por isso precisam se mover em grandes áreas. Mas, o novo lar que lhes foi destinado tem apenas 2% do tamanho de seu território. Assim, “o alimento silvestre dos nukaks escasseia em seu novo acampamento. Nesse lugar a selva não tem as arvores com as quais afabrica, as cerbatanas ou onde obtêm o veneno que precisam para caçar, e nos rios tem pouco peixe”, explica a Survival International. Enquanto isso, “seu próprio território contem abundantes recursos naturais”, acrescenta.

A mudança de dieta não é pouca coisa na selva, pois nela está a chave secreta dos povos originários para não sucumbirem a enfermidades tropicais, com a malária, que também faz estragos entre os nukaks. “O problema mais grave é que se quer criar perante a opinião publica a imagem de que os nukaks preferem ficar com uma caixa de Coca-Cola do que com seus 900 mil hectares. É o que faziam antes os espanhóis, que trocavam espelhos por ouro com os indígenas”, lembrou Mondragón.

O que fazer? “O ponto fundamental é conseguir um acordo humanitário para que as partes em conflito, incluindo os produtores de coca e o governo que fumiga, se comprometam a respeitar os nukaks e seu território”, disse o indianista. É preciso “deixar que vivam tranqüilos onde sempre viveram, e estar consciente de que, para eles, a riqueza de suas florestas é muito grande. E, também, é necessário atender o que os nukaks querem. Que recebem determinados objetos que agora necessitam e, especialmente, tenham cuidados médicos”, acrescentou.

Precisamente a partir desta semana, e até o final do mês, acontece uma viagem por diferentes pontos da Colômbia de uma Missão Internacional de Verificação convocada pela ONIC, que avaliará a grave situação humanitária e de direitos humanos dos povos indígenas deste país andino. A missão está formada por enviados europeus, norte-americanos e de países latino-americanos, entre eles parlamentares indígenas, assessores de congressistas dos Estados Unidos, delegados de organizações não-governamentais, diplomatas e observadores de agências da ONU presentes na Colômbia.

Nesse período vai confrontar os fatos que originaram recomendações pontuais à Colômbia por parte do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e do relator especial da ONU para os povos indígenas, em 2004 e 2005. O programado era visita apenas quatro áreas, para observar o sofrimento de outros tantos povos originários. Mas, agora, diante “da situação de emergência”, no próximo dia 27 será enviada uma comissão ao lugar onde se aglomera o povo nukak. (IPS/Envolverde)

Constanza Vieira

Constanza Vieira, la corresponsal de IPS en Colombia, ejerce el periodismo desde hace casi cuatro décadas. Desarrolló su carrera en medios internacionales, entre ellos Deutschlandfunk, Deutsche Welle, Water Report del Financial Times y National Public Radio. Si le preguntan por lo que más le gusta cubrir, contesta: "La pasarela de la moda de Milán", una forma de indicar que no es corresponsal de guerra y que, si se adentra en temas militares, es únicamente por la necesidad de describir los rostros poco contados del conflicto armado de decenios que afecta a su país. Por una búsqueda, parte de esa cobertura, entró a Twitter, donde hoy tiene dos cuentas: @ConstanzaVieira y @HeavyMetalColom, esta última asociada a su blog en IPS, Heavy Metal Colombia, titulado así "porque el plomo es un metal pesado, y en este país cada cual tiene asignada su dosis personal". ¿Su cuenta en Facebook? "Cuando tenga tiempo la cierro". Constanza trabaja para IPS desde agosto de 2003. En 2005 obtuvo el Premio "Richard de Zoysa" a la Excelencia en Periodismo Independiente, en la categoría Coberturas Peligrosas.

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