Colômbia: Polêmica solução para inundações

Bogotá, 09/10/2006 – A empresa Metroágua, da cidade colombiana de Santa Marta, constrói um coletor pluvial que beneficiará os moradores da empobrecida zona nordeste desta cidade caribenha. Mas, diante da falta de serviços sanitários, o canal pode levar muito mais do que chuva para o mar do Caribe. Santa Marta, capital do departamento de Magdalena, não conta com um apropriado sistema de drenagem pluvial e na época das chuvas ocorrem inundações, que nos bairros marginalizados ganham características de emergência sanitária por causa da falta de coleta de lixo e redes de saneamento.

Nos bairros da periferia, o “aqueduto” consiste em carros puxados por mulas, que vendem água potável ao preço de quatro centavos de dólar o galão. Além disso, nas favelas, cujos barracos se aferram desordenadamente ao morro, também não existem esgoto e, às vezes, nem latrina. O sistema de drenagem recolherá as águas da chuva de 31 bairros, beneficiando 8.508 casas, segundo a Metroágua, empresa de capital misto encarregada do aqueduto e do esgoto nessa cidade de 1,7 milhão de habitantes e propriedade majoritária das espanholas Técnicas Valencianas da Água e Canal Isabel II, da Comunidade de Madri.

A estatal Corporação Autônoma Regional do Magdalena (Corpamag), encarregada da proteção ambiental, aprovou a “viabilidade” do projeto e garantiu que vai melhorar a qualidade de vida dos moradores, solucionar o problema das inundações e criar empregos durante sua construção. O coletor pluvial compreende a construção de um canal de aproximadamente cinco quilômetros de comprimento que receberá a água da chuva em sua passagem até despejá-las no mar do Caribe, mediante um túnel de 258 metros através da montanha. O projeto tem custo de US$ 1,865 bilhão, fornecido pelo Ministério de Meio Ambiente, Habitação e Desenvolvimento Territorial.

A desembocadura do túnel, cuja construção começou em maio, coincide com um extremo da bela baía de Taganga, de pouco mais de 1,5 quilômetro e a 10 minutos de carro de Santa Marta, conforme afirmam numerosos documentos obtidos pela comunidade dessa localidade. O projeto afetará a saúde dos 4.600 habitantes de Taganga, bem como suas principais atividades, que são pesca e turismo, afirma a comunidade. Também se teme que prejudique a fauna e flora marítimas, os corais, o fundo do mar e a paisagem aquática, que é fonte de renda pelo mergulho recreativo.

Embora se trata de um sistema de drenagem de águas pluviais, os moradores dizem que as chuvas levarão lixo orgânico, devido à falta de esgoto e coleta de lixo em alguns bairros de Santa Marta. “Se não tem água para beber, muito menos para a higiene”, disse à IPS uma fonte de Taganga que não quis ser identificada. Além disso, em alguns trajetos superficiais o coletor correrá em paralelo a uma estrada, também em construção, por onde circularão caminhões com carga de carvão e produtos químicos.

Embora a Metroágua tenha previsto instalar uma rede para evitar a queda de lixo no canal, os moradores de Taganga temem que o coletor também receba dejetos de carvão e químicos e que as oficinas de caminhão se instalem à margem da estrada, levando metais pesados e substâncias cancerígenas e venenosas para a baía. A obra também recebe oposição dos povos indígenas da Serra Nevada de Santa Marta, os quais afirmam que a baía está dentro da “Linha Negra”, um traçado imaginário reconhecido pelo Estado colombiano desde 1973 que demarca territórios ancestrais e locais sagrados vitais para a sobrevivência cultural das etnias da região.

A baía de Taganga contém dois pontos sagrados, Java Julekun e Java Nekun, onde desde tempos imemoriais os indígenas vão recolher conchas marinhas. O ponto mais ameaçado seria Java Nekun, no extremo noroeste da baía, onde desembocará o túnel. Embora o projeto tenha sido proposto no programa governamental de audiências públicas em 2003, a comunidade de Taganga nega ter sido consultada ou informada com antecedência sobre o início da obra. Para ter acesso ao projeto completo, a comunidade apresentou um recurso jurídico cuja decisão ordenou a Metroágua entregar dois documentos, mas sua aplicação bateu de frente contra os US$ 800 que a empresa cobra pela cópia de ambos.

No dia 7 de julho, o prefeito de Santa Marte, José Francisco Zúniga, reconheceu que “foi um erro não ter socializado o projeto com os moradores”. O mesmo havia dito a companhia, no dia 6 de junho, na primeira reunião convocada pela comunidade. Apenas em 13 de junho a Metroágua expôs o projeto ao competente Instituto de Pesquisas Marinhas e Costeiras (Invemar). A apresentaçao da empresa foi de “alcance limitado” e não incluiu “informação detalhada”, segundo o instituto. Na contramão da Corpamag, que afirma que a obra “não requer um estudo de impacto ambiental”, a Invemar, vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, declarou que “para conceituar sobre os possíveis efeitos da emissão de águas do coletor pluvial sobre a zona (…) é necessário conhecer e revisar os estudos relacionados com os impactos ambientais”.

Para o diretor da Invemar, Francisco Arias, “é conveniente ter um inventário detalhado dos sistemas ambientais vizinhos ao ponto de emissão, para determinar seu estado atual e grau de vulnerabilidade ao efeito das águas do coletor”. O Invemar alertou que o coletor pluvial deve prever o aumento de sedimentação no futuro, por isso deveria “haver uma caracterização e um acompanhamento do material de sedimentário e ter previsões sobre medidas de manejo”. Também recomendou um estudo oceanográfico de ventos, correntes, marés e profundidades “para determinar a distribuição das águas e do material sedimentário que o coletor descarregar na zona”. Para o Comitê pela Defesa de um Ambiente São para Taganga, formado há quatro meses por organizações da comunidade, “nem a prefeitura nem a Metroágua sustentam que a desembocadura do canal seja a alternativa mais viável”.

Segundo um membro do comitê ouvido pela IPS, não foram mostrados os documentos sobre as outras opções consideradas. Para o comitê comunitário, as águas deveriam ser canalizadas de forma paralela à via férrea e desembocar ao lado dos molhes de Santa Marta, a leste do traçado previsto, com prévio tratamento para evitar o acúmulo de sedimentos no molhe. Uma solução “muito mais viável e econômica”, afirmaram os moradores de Taganga em carta enviada ao prefeito no dia 20 de junho e assinada por 1.003 pessoas. A mesma carta atribui o assassinato em 2003 do prefeito de Taganga, Rafael Pinto, de 50 anos, à sua ativa oposição pública à construção de um esgoto e um sistema de tratamento de águas nessa localidade, cujo destino final seria a baía.

A obra foi adiada por causa da queixa apresentada por Pinto à Procuradoria. O início das atividades do túnel prejudicará os planos dos pescadores artesanais de Taganga de cultivar lagosta, cujas crias utilizam esta baia de águas tranqüilas e quentes como “berçário” para crescerem. Segundo a Fundação Sila Kangama, em um estudo financiado pelo fundo de apoio ambientalista Ecofundo, Taganga sobressai na área do Grande Caribe como um dos locais prediletos desses filhotes, comparável somente a Puerto Morelos, no México, (IPS/Envolverde)

Constanza Vieira

Constanza Vieira, la corresponsal de IPS en Colombia, ejerce el periodismo desde hace casi cuatro décadas. Desarrolló su carrera en medios internacionales, entre ellos Deutschlandfunk, Deutsche Welle, Water Report del Financial Times y National Public Radio. Si le preguntan por lo que más le gusta cubrir, contesta: "La pasarela de la moda de Milán", una forma de indicar que no es corresponsal de guerra y que, si se adentra en temas militares, es únicamente por la necesidad de describir los rostros poco contados del conflicto armado de decenios que afecta a su país. Por una búsqueda, parte de esa cobertura, entró a Twitter, donde hoy tiene dos cuentas: @ConstanzaVieira y @HeavyMetalColom, esta última asociada a su blog en IPS, Heavy Metal Colombia, titulado así "porque el plomo es un metal pesado, y en este país cada cual tiene asignada su dosis personal". ¿Su cuenta en Facebook? "Cuando tenga tiempo la cierro". Constanza trabaja para IPS desde agosto de 2003. En 2005 obtuvo el Premio "Richard de Zoysa" a la Excelencia en Periodismo Independiente, en la categoría Coberturas Peligrosas.

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